Maiara Alvarez: Anatomia (de uma) crônica — ou a defesa do gênero brasileiríssimo

“Me pergunto se Nathallia, a farmacêutica, algum dia pensou nos seus textos de escritora como o remédio que nos elabora”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

[…] pode ser que ela esteja com mais saudades da sua mãe do que de costume e que a umidade do ar esteja lhe provocando vontades de chuva. Pode ser que seu horário de almoço esteja atrasado e que ela ainda precise passar no banco correndo, antes de comer a sua marmita (p. 16).

Em 30 de outubro de 2022, eu estava distante de casa e de onde eu imaginaria estar naquele início de noite: a uma quadra do Parcão. Quando virou, olhamos pela janela, e o único carro com bandeiras verde e amarelo que ocupara a quadra tinha ido embora. Quando a vitória já estava perto de se tornar concreta, descemos e fomos caminhando em direção ao Bom Fim, literalmente. Estávamos a uma quadra da primeira aglomeração quando a festa da certeza estourou. Peguei na mão da minha amiga e corremos em direção ao povo.

Logo estávamos na Cidade Baixa. Eu tentava encontrar a minha mãe e meu irmão mas, mesmo passando a poucos metros uns dos outros e nos mandando mensagens de celular, não conseguimos dividir o mesmo espaço visual. Era muita gente, gente saindo pelo “ladrão” (vou deixar essa expressão aqui só porque achei divertida mesmo).

Na verdade, trocar saudades antigas por novas, afinal, na nossa família sentir saudade é uma das condições de se manter em vida (p.31).

Não demorou muito pra chuva nos lavar. Já dispersar a população demorou um pouco mais. Íamos abaixo de chuva mesmo. Nem me lembro de todas as ruas que passamos. Entretanto eu recordo muito bem da cena seguinte.

Um grupo na frente de um bar de esquina, todos de pé, deixando um pequeno espaço livre de pessoas, ocupado apenas por mesas e cadeiras de madeira. Exceto por uma figura especial. Tanto que a luz da rua ou do prédio, não sei, iluminava ela, exatamente ela, que olhava pra baixo, não sei se incrédula ou cansada. Foi a bem poucos metros que a vi, gritei seu nome e corri para abraçá-la. Não lembro que palavras trocamos ali, mas sei que trocamos água dos nossos corpos banhados e dividimos alguns momentos de gotas vindo do céu com força e volume.

Não posso sempre me dar tudo que quero, mas tento viver tudo que sinto (p.50).

As crônicas são, em geral, um escape para nos conectarmos com os nossos, como se nos abraçássemos no meio de uma rua da Cidade Baixa debaixo da chuva. A rainha das crônicas que tanto amei ler, mesmo que escritas Pela hora da morte, Nathalia Protazio, era a dona única, naquele momento, do meu calor de felicidade.

Meu pai dizia que a gente pode se acostumar com qualquer coisa desde que a suportemos durante 40 dias. A palavra quarentena nunca fez tanto sentido (p.35).

*

Eu queria dizer que foi quarenta dias depois, pra ficar poético, mas a verdade é que a palavra quarentena perdeu o recorte de tempo e a habilidade de contar dias me escapou há alguns poucos anos. Meses depois, portanto, enquanto eu leio A articulação do texto, de Elisa Guimarães, me pergunto se a crônica é um texto narrativo, tanto a partir das teorias antes tradicionais (que separam os tipos em narrativo, dissertativo, descritivo) quanto a de Werlich, que aponta cinco tipos textuais — adicionando o argumentativo e o injuntivo). Mas a crônica não parece ter limites à forma (embora eu não concorde exatamente que os textos classicamente considerados narrativos também os tenham, mas isso é pra outra conversa).

Quando a gente tem fome, a coerência de nossos atos acontece em outra dimensão, faz parte da esfera das urgências. E todo mundo aprendeu em 2020 o que é um plano de contingência (p.147).

A crônica é um caminho para a nossa construção e não uma opinião em si, e é por isso que eu escrevo (como cunhou o editor Vitor Diel) resenhas crônicas: eu estou me deixando levar pelo caminho de um livro e pretendo sair diferente ao final da trilha. O que você está lendo aqui é, talvez, o meio dessa jornada. Evanilton Gonçalves resume, na apresentação de Pela hora da morte, que Nathallia, “Atenta às necessidades materiais que nos movem (quando temos capital para trocar por coisas) ou nos paralisam (quando a escassez é maior que tudo), elabora reflexões sobre o combo desastroso que nos assola”.

É difícil demais conviver com os problemas da nossa época na nossa época (p. 155).

É isso. A crônica nos elabora. Por isso é crônica, como algo físico que nos acompanha por muito tempo, muitas vezes pra sempre, e que nos ensina a nos adaptar a uma realidade de sermos pessoas crônicas. Me pergunto se Nathallia, a farmacêutica, algum dia pensou nos seus textos de escritora como o remédio que nos elabora. Não sei a resposta, mas, nos agradecimentos, pelo menos tenho uma pista de suas intenções: “Que vocês nunca precisem escolher entre morrer de vírus ou morrer de fome”.

Sobre a autora
Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica e escritora. Já morou em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça. Hoje vive em Porto Alegre/RS, onde atualmente se divide entre crônicas, mestrado em psicologia social, edição da Revista Parêntese e os bares da Cidade Baixa. Lançou também o título Aqui Dentro, na coleção de bolso A voz da Ancestralidade, pela Editora Venas Abiertas, que pode ser adquirido pelo Instagram da autora: @nathalliaprotazio.

Pela hora da morte
Nathallia Protazio
160 p.
R$ 54
Editora Jandaíra
Compre aqui

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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