“Os sintomas da falta de leitura estão por toda a parte: vamos assumir o problema?“
Edição: Vitor Diel
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, constatou a diminuição de leitores no Brasil: 53% da população brasileira não leu um livro (de qualquer gênero) ou parte dele nos três meses anteriores à pesquisa. Por mais que a pesquisa revele um contexto pós-pandemia, o enfraquecimento da leitura como prática social se dá por outros números, anteriores ainda à covid-19: entre 2015 e 2020, o Brasil perdeu 764 bibliotecas públicas, segundo dados de 2022 do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), foi neste período, também, que vimos a suspensão do PNBE (Programa Nacional da Biblioteca Escolares) para a incorporação de compra de obras literárias ao PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), o que tem atrasado o cronograma de compras desses títulos, além de ter conferido outras normas rígidas referentes ao formato de livros, gramatura de papel, encadernação de livros. Outras mudanças reconfiguraram, de certa maneira, o mercado editorial brasileiro, sobretudo o que se destina à produção de livros para as infâncias e juventudes (gênero altamente dependente das compras governamentais): obras produzidas por encomenda para o PNLD, criação de novas editoras (ou CNPJs) para contemplar o maior número possível de inscrições de obras.
Deslocando-se no tempo, agora, para o durante a pandemia, em um período em que ficamos isolados em nossos lares. Parece-me que o rompimento do pacto coletivo causado pela doença teve implicações também para o imaginário social da leitura, embora práticas como os clubes de leitura online tenham crescido. Foi nesse período que, por exemplo, algumas iniciativas bastante consistentes desapareceram ou foram descaracterizadas, como um programa de distribuição anual de livros infantis de uma fundação de uma instituição monetária privada, e um prêmio na área da mediação de leitura promovido pelo maior veículo de mídia do RS (em termos de abrangência). Poderia me estender para outros fenômenos, como a mídia hegemônica traz o tema do livro e da leitura nas suas páginas apenas em situações em que a leitura de determinada obra é censurada em ambientes escolares, ou a crise do ofício do crítico literário, alguém que hoje mais se limita a contar viagens e encontros com amigos/autores do que resenhar livros.
Depois da pandemia (sempre penso qual é o marco temporal sobre o qual se fala), seguimos, de certa forma, isolados, incomunicáveis como os soldados no pós-guerra descrito por Benjamin no ensaio Experiência e pobreza. Voltamos a nos encontrar, mas muito menos do que antes, talvez porque a vida esteja cada vez mais acelerada, porque estejamos cada vez mais cansados, e porque o lazer está na palma das nossas mãos. Nada contra os vídeos fofos de cachorrinhos vestidos de dinossauro, ou os Youtubers que nos explicam desde as tensões sociais e geopolíticas ou falam sobre livros maravilhosos que não nos damos tempo para ler. Sou fã (quase). A noção de tempo social mudou muito desde a pandemia e quem sabe não tenhamo-nos dado conta disso.
Se pensarmos que livros nunca foram um objeto de acesso democratizado, temos bibliotecários e mediadores de leitura atuando na ponta da sociedade, nas bibliotecas públicas e comunitárias, trabalhando todos os dias para mudar esse contexto, mas ainda enfrentando muita vulnerabilidade em termos de equipamentos e de aquisição de acervo.
No entanto, o flow da pandemia continua, como os encontros dos clubes de leitura, o que tem fomentado a criação de comunidades leitoras e a sustentabilidade de livrarias de bairro. Eventos literários voltaram à presencialidade, comemoram as boas vendas, clubes de assinaturas de livros têm sido bem sucedidos, são sinais de que a prática da leitura segue viva, ainda que num recorte muito reduzido em termos populacionais. Se pensarmos que livros nunca foram um objeto de acesso democratizado, temos bibliotecários e mediadores de leitura atuando na ponta da sociedade, nas bibliotecas públicas e comunitárias, trabalhando todos os dias para mudar esse contexto, mas ainda enfrentando muita vulnerabilidade em termos de equipamentos e de aquisição de acervo.
Não é possível desconsiderar a existência de pessoas leitoras, elas seguirão existindo, comprando livros, compartilhando suas leituras. Por outro lado, é preciso incidir, no “ainda que” e no “mas” que nos dão sinais de que pouco estamos formando gerações de novos leitores, sobretudo na escola pública, lugar onde vemos florescer as potencialidades de estudantes, desde que suas sementes sejam regadas. Sobretudo, mas não só, é preciso ir além da escola, aliando a prática social da leitura a outras práticas cotidianas, que vão desde saber inscrever-se em algum programa de assistência social, fazer compras on-line, discernir um fato verídico de uma notícia falsa.
Os sintomas da falta de leitura estão por toda a parte: no impacto da desinformação nas decisões políticas da população, na autorização social do desmonte de políticas públicas, na ingenuidade das pessoas ao se iludirem com discursos messiânicos, no esgotamento e adoecimento mental, na falta de acolhimento e de sensibilidade que paira no mundo. Voltando ao clássico O direito à literatura, de Antonio Candido, que sempre tem algo a nos dizer, a literatura é o espaço para nos humanizarmos, no sentido de sofisticarmos a experiência que é ser alguém neste mundo, tomando par de outros imaginários, de outras épocas, do que pode vir a ser.
Nesse sentido, cabe discutir amplamente o que o enfraquecimento do imaginário social da leitura tem representado em termos simbólicos, pensando nas tensões sociais e econômicas que conduzem a uma crise de sentido sobre por que ler, para quê ler e quem é leitor hoje. Também é necessário ir adiante e aprofundar como a existência de menos leitores implica o declínio de ideais democráticos. Tem gente muito boa puxando essa conversa nas redes de bibliotecas públicas e comunitárias, nas salas de aula, nos espaços formativos de mediadores de leitura. É preciso alargar essa prosa e ter mais pessoas aliadas e de peito aberto, dispostas a tirar do isolamento quem acredita e trabalha com a leitura e muitas vezes está sozinho/a.


Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o projeto de extensão Contantes. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura. Foto: Acervo pessoal.
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