Verdades, linguagens e todas as coisas: entrevista com Tobias Carvalho

Foto: Divulgação

“Faz sentido que a ficção, que sempre tentou decodificar sensações humanas, tentasse também traduzir a angústia e as maravilhas da internet”. É assim que o porto-alegrense Tobias Carvalho tenta estabelecer uma relação entre a literatura contemporânea e o mundo que a rodeia em tempos em que, segundo o próprio, “o excesso de informações atrapalha a construção de um conceito de verdade”. Em 2018, seu livro de estreia, “As coisas”, foi vencedor da categoria contos do Prêmio Sesc de Literatura, um dos mais concorridos do Brasil. Publicado pela Record, “As coisas” reúne histórias sobre personagens gays envolvidos em amores, desencontros e ruídos comuns às relações afetivas atuais. A obra tem encontrado adulação da crítica e de leitores, além de ter levado o autor a participar de eventos pelo País, alçando-o a um dos principais novos nomes da literatura do Rio Grande do Sul.

Nesta entrevista exclusiva, realizada por e-mail, Tobias fala sobre o reconhecimento a sua obra de estreia, sua formação enquanto leitor, o Brasil e o mundo em 2019 e muito mais. Boa leitura!


“As coisas” tem recebido uma boa avaliação da imprensa especializada e nas redes sociais. Como é lidar com tamanha repercussão já no seu livro de estreia?

É estranho e maravilhoso. Eu já escrevo há alguns anos e estou acostumado a dinâmicas de oficinas, mas é muito diferente quando alguém que tu não conhece vem dar uma opinião (geralmente positiva, senão a pessoa não iria se indispor). É gratificante. Na imprensa, então, nem se fala. Antes desse livro, eu tinha uma noção pequena (se é que ela existia) de como funcionava o mercado editorial no Brasil; não me via como escritor. O Prêmio Sesc mudou bastante as coisas. Deu uma notoriedade legal, e acho que o livro está fazendo sua carreira por aí. Fico feliz.


Quantas vezes você já releu seus contos após a publicação? Há alguma coisa que você mudaria?

Hahaha, eu gostei dessa pergunta. Respondo assim: o mínimo possível. Nos saraus, eu tendo a ler os contos mais curtos, pra não ficar maçante. Nesses casos, eu tenho que ler. E pelo menos considero estes decentes.

Quando tu escreve um livro, tem que relê-lo muitas vezes. Muitas. Mesmo. A ponto de não aguentar mais o livro na hora em que ele é publicado. Existe uma sanha por revisar e mudar tudo, sabendo que o livro vai ser publicado e ficar pra sempre lá, sem emendas. E chega uma hora em que tem que deixar o bichinho ir. Não significa que o autor não seguiria mudando o livro pra sempre, mas isso também não dá pra fazer.

Dito isso: se eu mudaria alguma coisa? Sim e não. Sim porque tem contos ali que já me incomodam. Já sou uma pessoa diferente daquela que estava revisando o livro. Gostaria de ter cortado alguns contos, mudado outros, e por isso evito ler. Mas a resposta também é não. Eu sei que esse livro foi o melhor que eu pude fazer quando eu recém estava completando 22 anos, e está tudo bem. Espero melhorar nos próximos. Senão, aí sim seria de se preocupar.


Assim como o seu livro, “Cat Person e outros contos”, escrito pela norte-americana Kristen Roupenian e lançado no Brasil recentemente, também se debruça sobre a dinâmica das relações afetivas e amorosas de nossa época. Como falar sobre relacionamentos e amor numa era em que os brutos assumem o controle das instituições nos Estados Unidos, no Brasil e em tantos outros países?

Estou louco pra ler esse livro, ainda não tive a oportunidade. Li o conto principal quando ele saiu na New Yorker e lembro de ter gostado bastante.

Acho que tem dois movimentos aí. Um é que a ficção está, ainda que lentamente, incorporando a linguagem da internet. Todas as formas de comunicação estão, na verdade. Faz sentido que a ficção, que sempre tentou decodificar sensações humanas, tentasse também traduzir a angústia e as maravilhas da internet. O outro movimento é a literatura ocupar o próprio espaço da internet. Esses brutos a quem tu te referiu já ocupam. A importância das narrativas na era de agora é grande. Em tempos em que o excesso de informações atrapalha a construção de um conceito de verdade, é legal que a literatura ocupe esse lugar justamente pra lembrar as pessoas de parar um pouco, se dedicar a um texto com começo, meio e fim. Algo penoso mas recompensador. Senão a gente afunda nesse mar de rapidez que é a internet e, de quebra, enlouquece pensando no Bolsonaro.


Em entrevista ao site “Como eu escrevo”, você disse: “Gosto mais de ler do que de escrever. Muito mais. 10x mais” Quais obras contribuíram para a formação do Tobias-leitor?

Quando eu fiz o vestibular da UFRGS, “A educação pela pedra”, do João Cabral de Melo Neto, era leitura obrigatória. Lembro que aquele livro mudou alguma coisa em mim. Talvez me fez pensar que dá pra fazer algo mais com literatura. Alguns anos antes, “O apanhador no campo de centeio”, do J. D. Salinger, tinha gerado uma identificação que me dava vontade de querer ler mais, e, alguns anos depois, “Pergunte ao pó”, do John Fante, que é meio análogo, me fez ter vontade de escrever. Eu ia citar uns outros, e eu sempre cito os mesmos, mas acho também que é o acúmulo dos livros que muda um leitor, independente de haver alguns títulos mais marcantes. Apesar de que admito que eu gostaria de ter escrito “A trama do casamento”, do Jeffrey Eugenides.


Quais livros poderiam nos ajudar a compreender o Brasil de 2019?

Não sei. Os livros de História? Se tu souber de algo que me ajude a compreender o Brasil de 2019, por favor, “vem de zap”.

Não, OK, olhando aqui minha biblioteca, vi alguns que ajudam, sim: “O tribunal da quinta-feira”, do Michel Laub; “Homens elegantes”, do Samir Machado de Machado; “Meia-noite e vinte”, do Daniel Galera; “Assim na terra como embaixo da terra”, da Ana Paula Maia; “Acre”, da Lucrecia Zappi; e “Os sertões”, do Euclides da Cunha.

As coisas
Tobias Carvalho
Contos
144 páginas
14cm X 21cm
978-85-01115-63-8
R$ 34,90
Record

Literatura RS

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