Guto Leite: Sua Excelência, o leitor

Na Flip de 2016, Bernardo Carvalho, respondendo a uma pergunta, disse: “não me interessa se o leitor lê ou não lê, eu quero que se foda. O que eu quero é fazer minha literatura.” Foi um alvoroço! À época, muitos acusaram o romancista de elitismo, quando não de soberba, numa leitura que me parece rasteira demais em relação às implicações levantadas por sua resposta.

Bernardo Carvalho não estava dizendo que desconsiderava ou menosprezava o leitor – é um escritor sofisticado demais para uma posição tão simplória –, mas que o leitor não é o fim de sua literatura, tanto como ponto de chegada, quanto como finalidade do que escreve. É evidente que seu texto inevitavelmente projeta um leitor, talvez um leitor tão bom quanto as faculdades deste escritor em particular são capazes de projetar. Essa imagem de leitor tão colada no texto faz parecer que a luta do romancista é com a própria forma, mas não é. Essa escolha também não deixa de ser uma aposta, a seu modo, bastante radical. Um texto para o mais competente leitor possível imaginado por Bernardo Carvalho talvez consista em um caminho para a permanência da obra, que imagino ser seu desejo.

Outros dois pontos, contudo, são resvalados pelo comentário do escritor e merecem reflexão mais atenta. O primeiro fica nítido alguns meses mais tarde quando o próprio romancista dá entrevista à Folha divulgando o novo livro: “Perguntaram se eu pensava no leitor enquanto escrevia. Não, não penso. Nem o cara que quer fazer o maior best-seller deve pensar no leitor.” À luz dessa segunda fala, percebe-se que Bernardo Carvalho reage a autores que escrevem “para” um determinado leitor, no sentido de atender às expectativas desse leitor, de agradá-lo com a leitura. A tensão é notável e se estabelece entre a condição de leitor e a condição de consumidor. Até que ponto podemos tratar um leitor como um consumidor de literatura?

O segundo ponto diz respeito ao que um escritor pode fazer numa terra sem leitores. Dando números aos bois, segundo pesquisa de 2018, o brasileiro lê em média 2,43 livros por ano e 30% da população nunca comprou um livro. Indo mais fundo, uma pesquisa do IBGE do ano anterior indicou a existência de 11,8 milhões de analfabetos, algo como 5% da população brasileira.

Com esses dados, pergunto pela boca de Bernardo Carvalho, que leitor deve ser imaginado por um escritor quando escreve seu livro? Essa conjuntura, que indica sistema formado, mas amorfo, pode provocar distorções perversas e acarretar uma literatura que, para existir, precisa valer-se de nichos ou dos grandes mecanismos de distribuição de livros, como o MEC, por exemplo. A maneira como o sistema literário brasileiro é distorcido excede em muito os esforços deste texto – há uma série do Arte1, Comtexto, sobretudo em seu primeiro ano, em que é possível entrever esse sistema –, mas imaginem um romancista no ato da escritura: ele coloca ou não, ilustrativamente, um palavrão na boca de seu personagem, correndo o risco de ver seu público e a tiragem de seu livro severamente reduzidos? Se a lógica interna do texto pedir o palavrão e a lógica externa, digamos, o desaconselhar, o que faz o escritor? Bernardo Carvalho, sabemos, segue o que lhe ditar o texto. Qual o impacto de sua escolha na formação de seu público leitor? Quem lê seus romances? Seria diferente em sistemas literários menos perversos, como os EUA ou a França (os estadunidenses leem em média 12 livros por ano; os franceses, 14)?

Borges tem um chiste maravilhoso em Esse ofício do verso: mais fácil encontrar um bom escritor do que um bom leitor. No Brasil, cabe o reparo de que a exuberância de nossa cultura oral da capo relativiza o lugar do livro. Mesmo assim vale pensar na força do leitor; em como o leitor é já o outro com quem o escritor se depara; no quanto o leitor pode ser embotado pelo mercado; na obrigação de se ter o leitor em alta conta, sem subestimá-lo ou adulá-lo. Nos melhores casos, escrever e ler é estar apto a conhecer um outro em sua integridade.

Não por acaso, em dois meses de cárcere, Lula tinha lido 21 livros. Por sua vez, Bolsonaro se diz leitor de Churchill, Ustra e Olavo de Carvalho, mas aposto minhas fichas que não tenha lido livro algum nos últimos anos.



Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

Literatura RS

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