Guilherme Smee: Quadrinhos não são Literatura

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

É irônico abrir um coluna sobre quadrinhos em um site que tem Literatura no nome e afirmar que quadrinhos não são literatura. Os quadrinhos não são literatura. Mesmo. Eles podem, é claro, conter literatura. Afinal, como o cinema e o teatro, ele faz uso de uma linguagem que é regida pela prosa, pela composição de letras e sílabas em palavras e, destas, em frases, parágrafos, cenas e sumários. Do cinema, os quadrinhos pegam emprestado os movimentos de câmera, na estática dos storyboards, afinal os quadrinhos não podem representar o movimento, mas podem sugeri-lo. Assim como os quadrinhos também não conseguem expressar o tempo da mesma maneira que fazem outras artes como as cênicas e audiovisuais.

Naquilo que falta aos quadrinhos, contudo, eles são exímios em usar de um rol de recursos de outras artes, linguagens e sistemas para expressá-los. A começar com o espaço, os quadrinhos brincam e se apropriam do espaço do quadro e da tela das artes plásticas, fazendo dele não apenas uma tela, mas a miríade delas que for necessária para comunicar a história que seus autores desejam. E, nesta frase, temos dois elementos fulcrais para conceituar o que são histórias em quadrinhos: comunicação e narrativa. Essas são as duas principais funções dos quadrinhos.

Se comunicar é sua intenção mais mecânica, por outro lado, como dizia a desgastada frase de McLuhan, o “meio é a mensagem”. Escolher os quadrinhos para produzir um efeito no leitor segue uma determinada agenda, que muitas vezes está vinculada ao público associado à essa mídia mais comumente, que é o infantil. Mito esse disseminado pelo imaginário social e pela memória coletiva a serviço de uma ideologia mercantilista que preza o tempo e o dinheiro acima do prazer do entretenimento.

O deleite com as narrativas que envolvem o público está de acordo com Freud em seu Além do princípio do prazer quando fala que a compulsão por repetição e por destino estão aferradas a esse pressuposto. Afinal, quadrinhos são narrativa e, como tal, dependem de repetição e de um certo arranjo destes elementos repetidos para que gere uma sensação de sentido no leitor ou ainda, no seu público.

É o arranjo dos requadros, nas histórias em quadrinhos, acima e abaixo, lado a lado, sobrepostos ou de outra forma de ajuste, que, através do sentido da leitura — que no ocidente é de cima pra baixo, da esquerda para a direita — desenvolverão o sentido para cada um desses elementos encapsulados de tempo e espaço. Para ficar numa explicação mais visual, convoco a expressão de Douglas Wolk que nos diz que os quadrinhos são compostos de “momentos grávidos”, ou seja, devires de tempo e espaço, lugares e fatos esperando para nascer. Mas que em tese, não nascem, porque os quadrinhos estão numa eterna sucessão de momentos realizáveis em direção ao princípio de prazer, a continuidade, o destino. Ou ainda o nosso derradeiro “FIM” da história.

Mesmo com a virada digital da cultura ocidental no fim do século XX, os princípios e linguagens dos quadrinhos se mantiveram os mesmos. O principal elemento que compõe os quadrinhos é aquele que não está presente ali. Um exemplo da literatura seriam as elipses. O exemplo do cinema, seria o raccord. Das artes plásticas e do design gráfico, o espaço em branco ou o espaço vazio. Nos quadrinhos, costuma-se nomear essa ausência como sarjeta, talvez fazendo uma referência à marginalidade cultural dos quadrinhos em comparação com as outras artes e mídias. Este termo, que em inglês se chama gutter, e pode ser traduzido também como calha, foi cunhado pelo teórico Scott McCloud.

Assim que, a sarjeta é o espaço em branco entre os requadros de uma história em quadrinhos. Se os tais “momentos grávidos” de Wolk nascem em algum lugar, esse lugar é a sarjeta. É lá que esses vir-a-ser se realizam. A esse fenômeno da linguagem visual se dá o nome de fechamento. É ele que fornece à história o elemento complementar que vai dar a continuidade tão necessária para a vida do homem moderno e seu sentido de posteridade e legado. Thierry Groensteen gosta de pensar que os quadros dos quadrinhos funcionam através de uma “solidariedade icônica”, em que um quadro empresta significado temporal e espacial, bem como narrativo aos demais e vice-versa.

A prática da leitura dos quadrinhos pode ser dita como algo inato ao ser humano, assim como a vontade de ler uma narrativa literária até o final. O ser humano possui um impulso narrativo de completar os espaços em branco, as arestas, de consertar as falhas. Se o ser humano sabe controlar seus instintos para viver em sociedade, o princípio da repetição e  é um movimento de racionalidade emprestada para o instinto de reprodução, derivado do princípio da constância. 

Portanto, percorremos todo este percurso para comprovar para você que quadrinhos não são literatura, eles não são cinema, eles não são artes plásticas e nem cênicas. Os quadrinhos são quadrinhos. Eles são a sua coisa própria. Alguns dirão que eles são uma arte, e militarão para ele o devido lugar como a nona arte. Outros dirão que os quadrinhos são uma mídia, porque são uma maneira própria de comunicar com as massas. Terá aqueles que dirão que trata-se de um sistema de linguagem que, apesar de emprestar diversos elementos de outras formas de expressão, desenvolveram sua própria forma de dar sentido a esse sistema. 

O que ninguém que chegou até o final deste texto pode negar é que quadrinhos são muito mais do que pensamos comumente e que, por isso mesmo, carecem de mais estudos e mais aplicações na sociedade, para que se desenvolvam e tenham o mesmo status que outras artes, mais populares e menos marginalizadas. Os quadrinhos são algo único. Nesta coluna vou ajudar você a ver os quadrinhos com outros olhos, ou talvez, redescobri-los, como fizemos até aqui. Uma boa jornada para todos nós!

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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3 respostas para ‘Guilherme Smee: Quadrinhos não são Literatura

  1. Ótimo texto-apresentação acerca dos quadrinhos e de sua excepcional linguagem. Pegando de gancho esta sua fala: ” A começar com o espaço, os quadrinhos brincam e se apropriam do espaço do quadro e da tela das artes plásticas, fazendo dele não apenas uma tela, mas a miríade delas que for necessária para comunicar a história que seus autores desejam.”. Na minha tese de doutorado eu arrisquei confrontando os vãos (sarjetas dos quadrinhos) com um paralelo à teoria dos quanta : ” A diagramação de uma história em quadrinhos, então, é quântica: um elétron pode se portar como onda ou corpúsculo, e sua posição é probabilística, nunca exata. Irá depender do momentum eleito pelo pesquisador, que usa sua mente para a escolha: o objetivo deflagrado pelo subjetivo. Nas histórias em quadrinhos cada cena, cada quadrinho é “parte” de um todo, de um sistema, mas que, não estando desenhado, pede ao leitor para completá-lo mental e intuitivamente, sem que ele mesmo possa ter plena consciência disso.” em https://www.bigorna.net/index.php?secao=artigos&id=1302575697 . Claro que esta alusão é uma visão metafórica de minha parte, mas penso que a “magia” das HQs possibilita até mesmo tal vislumbre, dadas suas possibilidades criativo-imagéticas. Só faltou, nesse seu texto, alguma ou outra imagem ilustrativa, mas creio que a partir dos próximos dessa sua nova e promissora coluna você provavelmente inserirá de acordo com seus contextos. Grande abraço e ansioso pelos próximos textos seus.

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