Ana Paula Cecato: Livros para sempre

O que acontece é que vou ler muitos livros em minha vida… Mas o que eu ler na infância vou me lembrar pra sempre.
Enriqueta, Liniers

A inquietação da personagem Enriqueta, do quadrinista argentino Liners, é considerável: como escolher os livros que vão marcar afetivamente uma criança ou, mais adiante, um jovem? Lembro-me com detalhes da leitura, na quarta série, de Raul da Ferrugem Azul, da Ana Maria Machado. Houve um dia que até “nevou” (foi uma chuva de gelo na verdade) e que toda a turma correu pra janela a fim de assisti-la. Raul e Estela, como outras personagens que vieram depois na minha história como leitora, me ensinaram muito sobre o que fazer com as minhas emoções, numa época complicada de transição entre infância e adolescência.

Tão considerável é também a escolha que o mediador de leitura tem de fazer ao planejar um projeto ou ação de leitura com crianças e jovens, tendo em vista a ampla oferta de livros literários para este público. Nas etapas que antecedem a ação com a leitura, é fundamental que sejam discutidas questões mais complexas, como qual o conceito de literatura para a infância e de mediação de leitura que norteará o projeto. Bem sabemos que a literatura pode ser o que ela quiser, mas, tratando-se de uma ação cuja intenção é a formação de uma comunidade de leitores literários, a literatura não se desloca de sua “vocação pedagógica”, como afirma Nelly Novaes Coelho, tampouco se vincula a um olhar pedagogizante e utilitarista. Ou seja: a literatura não se propõe a ensinar coisa alguma, contudo pode fazê-lo ao abordar condições tão humanas por meio de uma construção simbólica de linguagem. Vale lembrar também o óbvio: literatura é arte. Ponto. Já em relação à mediação de leitura, ela se coloca como uma ação que conecta o livro e seus leitores (incluindo o próprio mediador) em uma rede de sentidos operados pelas imagens verbais e visuais do objeto artístico e pela sensibilidade do leitor ao desvendá-los e ressignificá-los através de sua experiência.

Outra questão complexa, mas que precisa ser levada em conta, é a qualidade dos projetos editoriais e literários dos livros. A oferta de livros para a infância e juventude cresceu muito nas duas últimas décadas, devido à institucionalização de políticas governamentais de compra de livros para escolas e bibliotecas públicas, ao crescimento do número de eventos literários (feiras de livros, festas literárias), ao fomento à formação de mediadores de leitura. Embora a discussão e a crítica literária desta produção tenham acompanhado a efervescência editorial, ainda há muito que se conquistar, sobretudo em relação ao ensino acadêmico, uma vez que professores, bibliotecários e outros profissionais que atuam em espaços de formação de leitores saem da universidade com pouco conhecimento do tema e do amplo acervo de que podem dispor em suas práticas.

Na literatura para a infância, o livro ilustrado é a plataforma no qual o discurso literário é apresentado ao leitor. Constituído pela hibridez do texto, ilustração e projeto gráfico, o livro ilustrado não diz tudo: autoriza que a subjetividade do leitor preencha as lacunas da obra, coloque-se em diálogo com ela, de forma a construir a sua leitura. Por isso, ainda que a produção seja endereçada ao leitor criança, o livro ilustrado sendo um objeto artístico comunica-se sensivelmente com leitores de qualquer idade.

Infelizmente, ainda vemos, nesta produção, a reprodução de alguns clichês e lugares-comuns. No caso do texto, é frequente o uso de diminutivos e de descrições pormenorizadas, como se a criança só apreendesse a linguagem de uma forma facilitada e mastigada. Bem sabemos que a inteligência da criança funciona justamente ao contrário: elas subvertem a linguagem o tempo inteiro, brincam e se aventuram em construções poéticas, lúdicas, bem humoradas. No texto para a juventude, muitas vezes tem um tom moralizante, como se a literatura juvenil fosse uma forma de transmissão de valores para que os jovens não se “desvirtuem”. No texto e na ilustração, há a reprodução de estereótipos identitários, étnico-raciais, de gênero e de inclusão, o que desconsidera a diversidade de ser criança e jovem, e também desrespeita os leitores. No caso do projeto gráfico, que relaciona visualmente o texto e a ilustração, vemos a falta de cuidado com os espaços ocupados por essas linguagens, e com os procedimentos de leitura que os leitores acionarão ao ler. Já no caso da edição, elemento que conduz o processo que culminará na publicação deste livro, os problemas se vinculam principalmente à falta de revisão literária e linguística, e de paratextos, como, por exemplo, os dados biográficos dos autores.

O livro literário para a infância e juventude é um objeto a ser lido por inteiro, é um objeto cultural e artístico. Crianças e jovens são leitores exigentes, e é por isso que, na ação mediadora da leitura, é preciso ter responsabilidade ao selecionar os livros que lhes serão oferecidos. Para que isso aconteça, o mediador precisa estar atualizado em relação a novas publicações, visitar livrarias, bibliotecas e outros espaços de leitura, manter-se bem informado e, acima de tudo, ser um leitor ávido e curioso da literatura para a infância e juventude.

Nas próximas colunas, seguiremos conversando sobre os critérios de escolha dos livros; até lá!

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

Literatura RS

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