Guto Leite: Caipira contra caipiras

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

O mais recente trabalho de Mônica Salmaso traz o nome de Caipira e foi gravado em 2017. No fim do mês passado, acompanhada de musicistas extraordinários – Neymar Dias (viola caipira), Lula Alencar (acordeon e piano), Teco Cardoso (flautas e sax), Luca Raele (clarinete) e Ari Colares (percussão) –, a cantora trouxe o show ao Theatro São Pedro, em Porto Alegre.

Num panorama de crítica mais imediata, poderia se contrapor a trajetória sempre sofisticada da intérprete a uma tradição, digamos, mais raiz da música caipira. Isto é, na contramão da beleza do trabalho, com direito a alumbramentos como “Baile perfumado”, se poderia notar que a cantora se distancia da rusticidade que compõe a cultura caipira, como se fosse possível exigir de Salmaso que se desfizesse daquilo que a caracteriza como artista para se aproximar do campo, do chão, da viola e etecéteras. Discordo dessa leitura, porque acredito que a beleza do trabalho se encontra justamente nesses limites do encontro entre o sofisticado mundo da MPB paulistana, ela mesma índice exuberante da riqueza da cidade, com o universo cancional do interior do estado e de outros estados do país, em certa medida, os passes e impasses entre a megacidade brasileira e o sertão.

Mas meu ponto não é esse.

O caipira – como outras figuras do imagético nacional, como o malandro, o gaúcho, o bandeirante, dentre outras – é um construto complexo, que apresenta uma face mais telúrica e comunitária, em sua conexão com a natureza, as práticas de mutirão, a musicalidade, os causos, e uma face mais autoritária, violenta, religiosa, patriarcal. O valioso trabalho de Antonio Candido, Os parceiros do rio bonito, recompõe o modo de sociabilidade caipira em sua condição multifacetada; se lá estão a moda de viola e o cururu, também está o caráter devoto e machista da cultura cabocla.

No trabalho de Salmaso, e este, enfim, é o meu ponto, sublinha-se somente a face mais simpática da cultura caipira. Em que pese termos a precariedade da vida no campo, em “Minha vida” – a sobrevivência com o mínimo –, a escravidão, em “Leilão”, e a violência patriarcal, em “Feriado na roça” – que tem um quê do conto “Força escondida”, de Valdomiro Silveira –, a presença mais destacada é a da natureza, da concepção circular de tempo, da música, da poesia rural.

Minha leitura do disco caminharia por aí, não questionando se Salmaso apresenta ou não um mundo caipira autêntico, mas incomodado com a atenuação da violência aguda que permeia o mundo ensimesmado do interior do centro do país. Foi então que me dei conta de que, em certa medida, a face violenta do universo caipira está no poder. Bolsonaro é de Glicério (SP) e Sergio Moro, de Maringá (PR), para ficar em dois exemplos. Vitaminados pelo enriquecimento tecnologizante do sertão brasileiro e pela emergência da violência velada pela cordialidade malandra, o caipira pio, armado, bruto, impetuoso, está dado. E temos exemplo desse mundo três ou quatro vezes por dia, no noticiário.

Ao escolher o outro lado da moeda do mundo caipira (as moedas têm muitos lados), Salmaso constrói um contraponto interessante e abre fogo, numa batalha pela figura. Se me faço entender, a leitura parcial do mundo caipira feita em Caipira é a propósito e não pode ser lida como fraqueza, mas como força. Como todo bom artista, a intérprete realiza mais do que divisa, e entoa como que um canto de coruja nos relembrando da gentileza, da hospitalidade, da simplicidade, que também fazem parte do universo caipira. De fundo, ainda nos consegue fazer ver que talvez esteja encerrado o tempo dos malandros e seja hora e vez de outra figura reger a política nacional.

Tem mais não.


Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

Literatura RS

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