Maiara Alvarez: presente

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Fotos: Maiara Alvarez

Aurora foi um presente. É. Vai ser. Tenho problemas em conjugar verbos da maneira correta. Dizem eles que existe uma maneira correta. Esta noite delirei um pouco. Tive pesadelos. Estou com dificuldades para dormir. E, ao mesmo tempo, sempre estive.

Esta resenha vai ser piegas.

Aurora era um presente. Foi escolhida a dedo, a Aurora. Pieguice, eu sei. O aviso não foi leviano. Enfim, Aurora me cativou depois de eu passar por vários outros livros, outras obras incríveis, numa feira de coisas incríveis. Há momentos, e o momento foi de aurora.

Era um presente. Sempre foi intencionada a ser assim. Assim que terminar esta resenha, vou empacotar ela e separar para levar aos correios. Os correios estão em greve e eu apoio a greve dos correios. Quero ter Correios, público, de qualidade, e para isso é preciso garantir que seus funcionários tenham o suficiente para sobrar força da labuta para a luta.

Voltando à Aurora, contei que é uma menina? Ah sim, dá pra notar não ser a aurora pelo uso da maiúscula. Não é coincidência Aurora ter o nome da aurora. Aurora se espalha, ilumina. Aurora viaja pelo mundo, até fora dele. Aurora, na minha cabeça, não tem passado. Ela acontece. Presente.

Minha dificuldade em falar sobre Aurora verbalmente, não sei, talvez tenha a ver com o fato de se tratar de um livro de imagens. Outra frase que soa piegas na minha cabeça. Tenho tido dificuldade para dormir. O fogo também se espalha.

Aurora ficou guardada. Ô mania infeliz essa de guardar livros! A Aurora presente ficou guardada e virou passado. Mas não por muito tempo. Enfim, Aurora estava guardada, junto aos meus outros livros, na minha minúscula seção de livros infantis. Não sou mais criança, Aurora, mas sou, entende? Nunca deixei de ser.

O fogo se espalhou, Aurora. Se espalhou como o sol, como a luz da lua, como as cores se espalham quando a luz toca a escuridão. Tudo em exagero consome e o fogo levou meu teto, e junto, uma partezinha invisível de mim.

O fogo é tanto que é som, calor, cheiro e visão. Tudo num só. A visão me marcou, mais que aos outros sentidos. É com o fogo que ainda sonho. Sou uma pessoa visual. E por isso me apaixonei pela tua história. Não escrita, mas ilustrada, desenhada, pintada. Uma linguagem mais universal do que essas palavras que escrevo.

E assim você se espalha mais, Aurora. Um livro infantil feito apenas de imagens. Uma história contada em traços. Uma interpretação mais aberta, mais livre. Mais livre para colorir esse mundo, o teu mundo, a nossa casa. Eu perdi um teto, Aurora. Mas a nossa casa é a gente que colore. E me sobraram alguns pincéis. E o teu livro. E outros livros. Limpei a fuligem, mas algumas marcas não saíram. Você, entretanto, ainda se faz presente. É presente.

Quando minha gata tem pesadelos, me pergunto se é com o fogo que ela também sonha. Ou se é com o que eu não sei de sua vida sem teto antes vir pintar o nosso lar. Acaricio ela, pois sei que ela vai parar de ter sonhos ruins e vir se aninhar no meu colo. Quando ela tem pesadelos, acorda carente, e eu também. Tenho ninho e sou ninho. Sou casa.

Você também tem uma gatinha, ela é a coisa mais fofa. Na belíssima arte criada pela Cristina Biazetto para contar tua história, Aurora, espalhas as tuas cores e a de outras mulheres. Acompanhada de tua felina. E recebe presentes com essa mesma intensidade, de tudo e de todos. E transformas esses presentes recebidos em algo para dar. Criança, Aurora, criança tem tanto para iluminar. Uma força de fogo, imparável. Uma força que não quero que percas. O fogo também constrói, é só saber usar, e que lindo quando recebes o conhecimento. E como você soube usar o fogo do sol. E agora colores um mundo todo. A tua casa.

E cada vez que te leio, Aurora, vejo um detalhe a mais. Livro de imagens dá pra ler várias vezes, dá pra contar e recontar, dá pra contar em grupo, dá pra ler em silêncio. Ok, qualquer livro a gente pode ler em silêncio. Mas em geral as palavras vão criando uma imagem na nossa cabeça. E o livro de imagens? Vai criando uma história? Uma só? Não tem verbo para conjugar de maneira errada em livro de imagens.

Vais para outra casa, Aurora, deixando aqui um de teus presentes. És presente. Vais iluminar a vida de uma menina pequena como você. Uma menina que tem luz para distribuir, dela e de outras mulheres, e de tudo e de todos. Obrigada, Aurora.

Aurora é um livro de imagem que conta a história de uma menina que sai pelo mundo e vai dando cor a tudo e a todos, com diversos caminhos temáticos para explorar a narrativa visual. A obra foi publicada pela Editora Projeto em 2009. A autora, Cristina Biazetto, é artista plástica, nascida em Porto Alegre, especialista em Literatura Infantil e Juvenil. Ilustra livros, recebeu prêmios no Brasil e foi selecionada para mostras internacionais.

Aurora
Cristina Biazetto
40 p.
978-85-85500-75-7
R$ 33
Editora Projeto

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Conteúdo disponibilizado antecipadamente para apoiadores e assinantes da Central de Acolhimento para Escritores. Faça parte dessa rede!

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

Literatura RS

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