Jeferson Tenório: Resistir com metáforas: um guia afetivo para 2020

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de divulgação

Desde a infância o excesso de realidade me agride. Quando nascemos o mundo está posto e somos obrigados a nos adaptar. A realidade nos invade de tal modo, que não há tempo para fugir dela. Logo a vida ordinária, tributária, violenta e operária se torna impositiva e, caso não estejamos atentos, seremos engolidos por ela. O excesso de realidade nos transforma em peças. A metáfora é o nosso abrigo provisório.

Descobri a ficção na adolescência, desde então luto para não achar que a vida é igual à literatura. Aos 14 anos, quando eu e minha família saímos do Rio de Janeiro e viemos para o Rio Grande do Sul senti o quanto a realidade pode nos desumanizar. Na época, não tínhamos onde morar, peregrinávamos pelas casas de parentes e minha mãe alternava sempre em trabalhos subalternos.

No auge de nossas dificuldades, um conhecido disse que o sapateiro do bairro estava precisando de um ajudante. Minha mãe me levou até a sapataria. Fazia muito calor naquela tarde. Um senhor branco, sujo de graxa, me olhou e perguntou minha idade, eu respondi. Depois, perguntou se eu tinha experiência. Respondi que não. E ainda me analisando, perguntou se eu era viciado em cola de sapateiro, antes que eu pudesse responder que não, um balão vermelho, desses de aniversários infantis, chamou minha atenção. Lembro que, distraidamente, deixei o sapateiro falando sozinho, atravessei a rua e fui atrás, sob o olhar de espanto de ambos. Eu não sabia de quem era o balão. Não sei ao certo o que me levou a fazer aquilo. Mas, talvez, o balão tenha sido a minha metáfora. A distração também é um modo de resistência. Nem preciso dizer que não fui contratado, mas levei o balão para casa.

Às vezes penso que há uma contradição no termo “literatura engajada”. Creio que nenhuma literatura possa ser engajada, ou então todas são. A literatura existe para discordar da vida, por isso ela é necessária. A metáfora nos expande para além de nós mesmos. E essa expansão, às vezes, é que nos põe de pé. A metáfora não nos salvará de nada, não pagará nossas contas e não nos livrará da dor. A metáfora, assim como ficção, nada podem contra um mundo abjeto, mas são elas, justamente elas, que nos permitem reconhecer os paradoxos de nossa caminhada. A literatura expõe o pior e o melhor de nós. A ficção não se torna política porque o autor expressa opiniões, ela é política quando investiga os afetos.

Resistir com metáfora significa provocar um descolamento, ainda que breve, entre a realidade que nos agride e o mundo interno que nos integra. Trata-se de recuo para dentro si. Como o recuo de uma onda, que se volta para dentro mar, para mais adiante rebentar na beira da realidade.

Resistir com metáfora é um compromisso com a sensibilidade, porque em tempos hostis, o que nos pedem é a brutalidade. E é com ela que sucumbimos, aos poucos, como operários do ódio. Não são as palavras de ordem e de luta travestidas de literatura que irão mudar as coisas. Não acredito nisso. Mas talvez a ficção e a metáfora possam educar a realidade para ser menos dura e atroz.

Resistir com metáfora é, talvez, acolher a frase de Sancho Pança, em Dom Quixote, ao dizer que “Até no inferno devem existir boa pessoas”. Acolher, para logo em seguida discordar, se necessário. Só chegamos até aqui porque imaginamos. Resistir ao excesso de realidade é o único modo de preservar nosso mundo interior.

Resistir com metáforas é reconhecer que não há nada para salvar, a não ser um balão vermelho no meio da rua, num dia quente em Porto Alegre.

Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, radicado em Porto Alegre. É doutorando em teoria literária pela PUCRS. Professor, romancista e autor dos livros O Beijo na Parede (2013) e Estela sem Deus (2018).

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