Atena Beauvoir: Escrever minha existência, vossos livros e nossas leis

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

É impossível negar a força extraordinária que o fascismo enquanto movimento social tem assumido nos últimos anos. Também negar a crise política, educacional, sanitária, ambiental e cultural que o país experiencia seria assumir total desvinculação com mundo afora. Me parece que desde o período de exploração existencial dos povos tradicionais e da população africana aqui trancafiada, produziu-se em nós um espectro de imaturidade que, se de certa forma nos faz sempre estar à cata dos poderosos que ao mesmo tempo que nos estupram o tempo da vida humana em nossos corpos que trabalham, nos sorriem e nos afagam com marketing de uma solidariedade de gelo que, ao sol da realidade humana, se desfaz em úmida experiência de frustração. E de novo, novamente e mais uma vez, repetimos com o sonoro escrito do filósofo que nos lembra a figura de nosso Galo Missioneiro, ao escrever “o eterno retorno do mesmo” e temos, ainda em tenra idade, sentido esse retorno bater à porta de nossa casa.

A força do Estado representado pelo atual governo, infelizmente, assume as predisposições de suas ideologias desumanas e mortíferas. Somos colocadas à prova de questionar os princípios de legitimidade e confiança que depositamos na Ciência e em todos os seus postulados teóricos: Educação, Política, Ecologia, Economia, Segurança, Administração… Os que respiraram os ares de 64 sentem os prelúdios de novos tempos de uma fábula já contada na boca da História Brasileira. É um jogo, com total certeza, de centenas de peças e movimentos organizados através do combustível do dinheiro, que em verdade representa tempo comprimido. A fome que hoje tenta se aliviar com as cestas básicas nunca existiram antes da pandemia do Covid-19? O desespero de famílias doentes por não terem leitos em hospitais, jamais estiveram à busca de quem as ouvisse nos anos anteriores? As escolas e universidades sem a presença das crianças e jovens, jamais foram palco de evasão intencional? A sociedade é o tal conotativo de um vivo organismo. Temos esperado as chagas surgirem para só, aí, cuidarmos das feridas quando as causas estão no mais profundo do tecido social das células do corpo chamado Brasil.

Ao construir minha existência desde 2015, busquei significativamente minha dignidade. Fui à cata de mim mesma nesse processo. Me pensei. Me produzi. Me gestei. Nasci em mim. Ao vir ao mundo, refeita em meu Eu, percebi que também o mundo era ausente de uma livre dignidade humana. Mas como? – me questionava. Tantas vidas humanas sem a dignidade que as faz serem em si, vivas de existirem?! Ao escrever livros, principalmente os tocantes à transantropologia, aspirava não falar de mulheres transexuais, travestis e outras identidades. Mas alçava propor esse caminho para todo o resto da sociedade. Em sua maioria cisgêneros. Me escutavam, me observavam, me analisavam… Quase sempre me sentindo extraterrestre e em verdade, o sou. Sou feita de matéria que sem minha dignidade, não me faço em mim mesma. E o restante da sociedade, necessitando construírem-se, mas sem contato com a fonte da própria, arrastavam para si mesmas e mesmos, os restos de frangalhos de uma história triste, encabulada de um futuro que tornava a todas e todos escravos do tempo humano. Falavam de Ordem e Progresso, mas aspiravam sempre Vida e Liberdade!

A violência é a corrupção da vida. Só se viola o que carrega em si, a vida. As fundações da vida são as potências da dignidade humana. Cada dignidade violada em uma pessoa é um pouco de sua vida que esvai do seu ser. Mas e eu, uma mulher transexual, que posso fazer, agir e materializar no mundo? É que é materializando no mundo que interagimos na história do mundo. O pensamento por si só move o corpo e o corpo move ao seu redor outros corpos de coisas e seres. Mas deve intentar agir. Quando olhei para o posto máximo de poder estatal ser assumido por um criminoso em direitos humanos, sabia que estávamos com o destino predestinado a encararmos ficção que jamais pensaríamos poder existir mesmo após o genocídio indígena e negro nessas terras do Pau Brasil. Jamais pensávamos superar os conflitos entre Coroa Portuguesa e as demais forças estrangeiras. Ou o suicídio de Vargas. Ou a Ditadura militar, o AI-5, as torturas… Bolsonaro e seus seguidores de pensamento, corpo e materialização do mundo, representam tudo aquilo que, sem a intervenção da Educação humana, da solidariedade genuína, do apoio mútuo, da humildade coletiva, do saber cultural, enfim, da dignidade do ser, se torna.

Eu escrevo esse texto como quem escreve testamento a si mesma para um futuro próximo. Um mundo em guerra é um mundo sem dinheiro e sem liberdade, dirá Sartre em Diário de uma guerra estranha. Direi a mim mesma no futuro: logo a paz será um intervalo entre uma guerra e outra, parafraseando o rapper Orochi. Se debaixo da terra um corpo em cadáver afeta a toda a sociedade pela sua ausência, que não fará muito mais um vivo corpo na construção de uma sociedade lúcida? Enquanto temos tempo, temos vida, eu falava na roda de Slam do Gozo, ao homenagearmos o MC Well, poeta companheiro morto por tiros da violência do mundo. Algumas pessoas, talvez desavisadas da vida em ritmo de sobrevivência e ameaças, pensam ser incoerente pensar no futuro próximo que virá. O isolamento social não é uma pausa ou suspensão da vida técnica na terra. É uma preparação para o que está por vir. E será pior. Não é ser pessimista, mas é a bússola histórica que nos aponta, que sempre que o poder máximo de uma sociedade humana esteve nas mãos de homens violentos, o futuro reservou mais morte. É hora de agitarmos as estratégias contundentes e captarmos fôlego em nossas próprias trajetórias. As nossas histórias, nossas necessidades, nossas vontades serão as bússolas para a desconhecida rota que virá.

Tenho estudado, vivenciando o que vivencio das ruas, das noites, das impressões de uma sociedade que somente uma mulher transexual pode captar como coruja noturna a rodopiar seu pescoço em 360º, me equipei da armadura bélica de uma guerra política. Coloquei minha existência à frente de uma pré-candidatura a vereadora de uma das 27 capitais do Brasil. Não seria escrever minha existência ou os livros aos que leem, mas leis. Leis essas que nos seus paradigmas humanos não podem mais embaçarem-se no egocentrismo masculino e messiânico de um salvador. A força dos movimentos sociais deve reerguer-se. Os sindicatos devem se fortalecer. E a estrutura política deve ser encarada como instrumento de reparação histórica a todas as identidades que já molharam o chão dessa terra com seu sangue. Levo meu nome para as eleições a vereança porque o sistema ainda não prevê um movimento coletivo a assumir o poder legislativo. Mas, mesmo assim, o estamos articulando para que se possa estar à frente de um movimento para refundar a prática da democracia no Brasil: ela deve se produzir em cada uma de nós, para somente depois tomarmos proporções sociais. Tememos num futuro próximo perdermos nossas vidas e as vidas de tantos outros ao nosso redor, sem ao menos termos lutado, não somente com a presença das nossas leis, dos nossos livros, mas das nossas existências fazendo juz à dignidade que escrevemos em nós mesmas. O futuro? O futuro nos pertence, temos certeza disso!

Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.

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Uma resposta para “Atena Beauvoir: Escrever minha existência, vossos livros e nossas leis

  1. Caríssima Atena Beauvoir

    Compartilho com você escritora das suas escritas tão bem colocadas no papel. Os seus pensamentos foram esclarecedores dos ideiais da hegemonia do sistema político e econômico do panorama atual.
    O homem nesta sociedade só é visto como objeto de uma exploração de trocas monetárias?
    Que país é este?
    Parabéns pelas publicações!
    Gretha Ellen Manoel/SP

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