Guilherme Smee: Quem banca as bancas?

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Ir às bancas talvez não seja uma prática tão afeiçoada àqueles que curtem livros. Porém, a maioria de nós, gibizeiros, temos um amor incondicional àqueles pequenos espaços de poucos metros quadrados que nos apresentam uma vitrine para outros mundos. Ir à banca está para o amante dos quadrinhos como ir às compras em Miami está para um shopaholic. Ir à uma comic shop, – lojas especializadas em quadrinhos -, então, é o delírio e o deleite máximo. Poder contar com tantas opções, com tanta carga sensorial, estética e ao mesmo tempo de conteúdo, materializada em gibis que se pode sentir o peso, folhear as páginas, sentir o cheiro da tinta no papel é uma experiência única. A banca proporciona ao colecionador de quadrinhos um momento transcendental de materialidade, afinal, o cerne do propósito de um arrebanhador de gibis e manter sua coleção cada vez mais vistosa. A banca faz o ânimo do colecionador desfrutar uma vistosidade que também se distribui para a alma da sua coleção.

A primeira banca que eu tive a oportunidade de conhecer, não era uma banca, mas uma espécie de distribuidora de revistas. Um amigo do meu pai, chamado Jair, trabalhava na distribuidora regional. Ele conseguia para meu pai e, portanto, para mim, álbuns de figurinhas e figurinhas dos repartes das sobras das bancas da região da minha cidade natal, Erechim. Para uma pessoa que não curte este tipo de coisa, fazer uma visita àquela distribuidora poderia lhe deixar bastante decepcionada. Tratava-se de um cômodo no último andar de um prédio, com paredes mofadas e com tinta descascando. No meu olhar infantil e de colecionador, encontrei lá um mundo mágico. Eram centenas, milhares de revistas, atrolhadas em um quartinho no sótão de um velho edifício, amarradas em seus tipos e repartes. Revistas, literalmente, para dar e vender, vejam só. Lá naquele quartinho da distribuidora também tinha uma espécie de mezanino que Jair e seus colegas transportavam as revistas de cima para baixo e vice-versa. Para isso eles utilizavam um serviço de roldanas que subia e descia os repartes mais pesados. E, para eu visitar o lugar, eu não subi de escada como faziam as pessoas adultas. Aquela criança no alto dos seus cinco anos andou no transportador de roldanas e saiu da distribuidora com alguns álbuns e muitas figurinhas. Que maravilha!

Quando eu comecei a colecionar quadrinhos pra valer, já com onze anos, eu costumava voltar à distribuidora e pedir ao Jair as revistas que tinham sobrado e que, obviamente, para mim eram um tesouro: os números atrasados! Enquanto isso, nas bancas normais da cidade – havia umas quatro ou cinco delas em Erechim – eu comprava os exemplares atuais, que reservava com a “tia da banca” tudo que era relacionado aos X-Men. Entretanto, para minha tristeza, nem sempre todas as revistas chegavam às bancas de Erechim. E pra uma tristeza maior, a distribuidora de revistas não iria mais funcionar naquela cidade, se mudando para um centro maior: a rival Passo Fundo.

Mas minha relação com as bancas ultrapassa a mera municipalidade. Quando saía de férias com a família, queria procurar encalhes em todas as bancas que passava. Tive muitas alegrias encontrando gibis em Florianópolis, Porto Alegre, Balneário Camboriú, Torres, Guaratuba, e em várias outras praias em que veraneávamos. Inclusive foi por causa das impossibilidades da chuva em uma praia e a morosidade de não ter o que fazer que descobri os gibis “colecionáveis” de super-heróis e sua poesie ininterrup, como fala Umberto Eco. Meus primeiros gibis dos X-Men aguardavam ao meu irmão e a mim em uma casa de bazar e produtos para a praia que também era banca.

Eu cresci mas não abandonei nem os quadrinhos e nem as bancas. Continuo comprando nelas os meus quadrinhos, sejam aquelas do shopping, sejam as comic shops, as tabacarias, ou mesmo as bancas de rua mesmo, que estão cada vez mais escassas. A experiência de comprar virtualmente tem as suas vantagens em preço e ineditismo da leitura. Entretanto, para mim, nada sobrepõe aquela invasão de sentidos e de sentimentos que uma ida à banca pode proporcionar. Por mais que hoje eu não saía delas com o gibizinho mais esperado do mês e sim uns cinco encadernados, alguns até de capa dura. Os tempos mudaram não apenas para mim ou para as bancas, mas também para os quadrinhos.

Os quadrinhos hoje são produtos cada vez mais nichados, de elite e de difícil acesso para a maioria dos brasileiros. Os motivos dessa dificuldade podem ser financeiros, espaciais, mas principalmente o de desconhecer o produto. As novas gerações não conhecem quadrinhos como gibis, no máximo como as “gréfic nôveus”, o nome gourmetizado daqueles produtos que, como eu dizia para minha mãe, “são gibis em forma de livro”. As novas gerações não conhecem bancas, sebos, repartes, encalhes, escambo, nem outras formas de se adquirir gibis ou graphic novels que não seja através de sites de compras ou sendo pirateados através dos famigerados gibis. Não quero ser um velho rançoso, afinal, cada geração tem a suas memórias queridas de como consumir seus produtos culturais e provavelmente quando tiverem a minha idade essa geração vai pensar: “como era bom comprar na Amazon!” ou “que beleza poder ler meu scanzinho da semana”. Sentirei falta das bancas. Quando as gerações que estão descobrindo os quadrinhos agora tiverem a minha idade, provavelmente as bancas serão como as pharmácias com “ph” ou como os armarinhos. Ou terão se transformado em outra coisa, ou elas já terão desaparecido do mapa.

A cada mês que passa vejo que Jeff Bezos enriquece mais um bilhão. A cada mês que passa vejo uma banca fechar, uma livraria de bairro falir, uma megastore de livros ir à bancarrota. Se por um lado essa cultura predatória de tirar vantagem para si tem dilapidado a experiência de ir às bancas, por outro lado não pensem que as bancas se põem de braços cruzados. A grande maioria já reservava as revistas do mês para seus clientes fiéis. Só que agora, durante a Pandemia de COVID-19, as transações entre donos de banca e seus clientes fidelizados têm sido através do meio digital. Muitas delas possuem grupos de Whatsapp onde postam as novidades que chegam a cada terça e sexta-feira, com fotos, descrições e preços para o deleite dos colecionadores de quadrinhos que não querem perder as novidades.

Antes ainda da Pandemia do COVID-19, como os leitores deste texto já devem estar cansados de saber, o mercado editorial brasileiro sofreu um baque. As maiores redes de livrarias brasileiras fecharam ou faliram, como foi o caso de FNAC, Cultura e Saraiva. Mas para as revistas foi ainda pior. Para os gibis, aqueles gibis mesmo, em formatinho, foi um tiro de misericórdia. A poderosa Editora Abril que implementou o que a minha geração conheceu por gibi, com o Pato Donald n. 1, de 1951, dava seus últimos suspiros em 2018 trazendo a última publicação de sua linha Disney, ironicamente também um Pato Donald.

E se os gibis das bancas estão desaparecendo a olhos vistos, outros extraterrestres pousam naqueles terrenos como se fossem nascidos lá. É o caso de picolés, refrigerantes, títulos de capitalização, recarga para celular, chaves feitas na hora, cafés expressos, raspadinhas da sorte, fones de ouvido e carregadores para celular, uma infinidade de quinquilharias que parecem mais úteis para o dia-a-dia do cidadão comum do que uma boa, escapista e/ou informativa leitura. Se eu passar uma hora na banca que mais costumo ir, presumo eu que oitenta por cento das abordagens das pessoas serão para comprar cigarro ou apostar no jogo do bicho. Esses sim, velhos habitués das bancas. Eu, prefiro manter meu vício de ir às bancas apenas nos quadrinhos.

Contudo, essa modificação das bancas vem também das vicissitudes do individualismo apoiado pelo capitalismo neoliberal. Vemos esse sistema atacar nossas vidas cada vez mais aguerrido fazendo frente às políticas econômicas e trabalhistas apresentadas por Michel Temer e Jair Messias Bolsonaro nos últimos anos. Segundo a cartilha dessas políticas, é preciso empreender. É preciso ser muito mais que uma banca, é preciso ser uma mini-lojinha de departamentos. E também não basta ser banca, tem que participar. Não é apenas abrir e fechar o estabelecimento esperando que os clientes cheguem até você. Os donos de banca precisam ser comunicadores, relações públicas, publicitários e mídias sociais do próprio empreendimento. Eles precisam angariar clientes e não apenas meros clientes que arrebanham um cigarrinho ou fazem uma apostinha. Mas aqueles como eu que gostam de ir às bancas e que deixam uma pequena fortuna em colecionáveis toda vez que vão até lá.

Durante a Pandemia, alguns jornais noticiaram que o segundo filão em livros mais adquiridos deste primeiros semestre de 2020 foram as HQs e os mangás. Um feito inédito para a categoria de publicações. Mas isso também denota mais uma derrota para as bancas. Os quadrinhos estão cada vez mais migrando para as livrarias – físicas e virtuais -, criando novas experiências de consumo. Ações e sensações de qualidades mais espaçosas, mais modernas, mais arrojadas e – pasmem – mais econômicas do que uma caminhada ou uma ida de ônibus até uma banca. Pensem: em tempos de abertura do comércio durante e após a Pandemia, quem vai querer entrar em um cubículo fechado com outras pessoas disputando aquele mesmo espaço? Quem vai gostar de estar em contato com possíveis portadores de COVID-19 se acotovelando para escolher suas revistas, ou docinhos, salgadinhos, cafezinhos e cigarrinhos?

Cruzado de direita atrás de rasteiras. Chutes e pontapés. Jabs e voadoras na cara. Soco nas regiões pudendas. Golpe atrás de golpe, as bancas vêm caindo e, sorte ou azar daquelas que ainda resistem, como um representante etéreo de tempos nostálgicos. E tempos nem tão bons de serem relembrados assim, em que a economia já esteve pior, com inflação galopante, e tabelas de preço de revistas que vinham com códigos que mudavam todos os dias. Mas nunca esteve tão pior para as bancas. No final das contas, num mundo cada vez mais individualizado, em que as pessoas só pensam na vantagem em que podem levar sobre qualquer coisa – e sobre as outras -, quem banca as bancas?

Não sei se para você esses estabelecimentos um dia farão falta, mas para mim deixarão uma saudade imensa de um alívio para as agruras do mundo que só as bancas de revista conseguem proporcionar.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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