Ana Paula Cecato: Eu preferiria continuar burra

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Eu tenho uma amiga, a Arlise, que é dona das melhores frases que eu conheço. Ela postou dias atrás “Se 2020 foi de aprendizado, eu preferiria continuar burra.” E não tem frase melhor pra definir o que eu sinto em relação ao ano que passou. Vocês até podem pensar “Nossa, que pessimista”, “Nossa, agradece a vida que tem”, mas não é essa a questão. Não se trata de ser ingrata ou de ignorar o privilégio de quem está trabalhando desde março em casa, mas de se incomodar profundamente com a cultura do “only good vibes”, como se houvesse um dispositivo dentro da gente que desligue toda a desgraça que está acontecendo no mundo ou que, pior, nos deixe simplesmente alheios, tocando a vida normalmente, quem sabe ou não (no caso dos negacionistas) com álcool em gel e máscara na bolsa.

Numa concepção piagetiana de aprendizagem, faz parte do seu processo que o sujeito se desloque como centro de interesse (o que o epistemólogo suíço chama de descentração) para que possa desenvolver a capacidade de ver o mundo pela perspectiva do outro e de elaborar uma série de relações que extrapolam a relação direta (e concreta) com a realidade, conhecida como abstração. Ou seja, é preciso desacomodar-se para que, em seguida, haja a acomodação de determinado conhecimento, conteúdo, experiência.

Minha percepção é que estamos divididos em dois grupos: o primeiro, incapacitado de descentrar-se, fixa a atenção a partir de um aspecto de sua realidade, “o lado bom das coisas”, sem questionar o que está em jogo no âmbito político e social; o segundo, impactado com a realidade distópica, mas também incapacitado de alguma reação efetiva, a não ser torcer para que não se contamine até a chegada da vacina. Estou neste segundo grupo, num misto de indignação e de tristeza, a ponto de não saber o que espero de 2021, tampouco de nutrir esperanças em dias melhores.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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