Ana Paula Cecato: A treta literária

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Um tweet do youtuber Felipe Neto desencadeou a mais recente “treta literária” no último dia 23 de janeiro: “Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco.” Lancei como provocação a imagem do tweet no meu feed de Facebook e choveram comentários. Guardei os meus para a escrita deste texto, mas, resumidamente, concordo e discordo do tweet do youtuber.

A postagem de Felipe traz dois elementos fundamentais para a formação de leitores: os leitores e o acervo, porém, desconsidera um terceiro elemento, a mediação. Talvez pudéssemos inferir que uma ação com a leitura está posta como “forçar a leitura”, o que, evidentemente, não é mediação de leitura. Neste ponto, concordo com ele, pois condicionar um comportamento leitor só pela força, pelo autoritarismo, não funciona.

Talvez pelo apelo próprio das redes sociais, Felipe se utiliza de uma forma hiperbólica, falando em “desserviço”, em “forçar”. Por outro lado, bem sabemos que a leitura de literatura serviu (e ainda serve, mesmo depois do texto do Candido, O direito à literatura) como instrumento de violência simbólica e de exclusão social, inclusive na escola. Às vezes me pergunto se este é um problema mais da escola ou da literatura, e, confesso, não chego a uma resposta definitiva.

Além de ignorar a questão da mediação, o tweet traz outra questão bastante problemática, a do endereçamento de obras a determinada faixa etária. Como a minha área de estudo é a literatura para a infância, seguidamente as pessoas me pedem “quero um livro para uma menina de oito anos”, imaginando que eu tenha em mente uma imagem constituída dessa criança. Costumo sempre perguntar do que essa menina gosta, que figuras do imaginário infantil lhes interessa, qual a relação que ela tem com a linguagem: gosta mais de imagens, mais de palavras, de dança, de música… Faço esses questionamentos porque sei que os percursos formativos dos leitores são muito singulares. Nem sempre eles são prazerosos, por vezes podem ser tortuosos e até traumáticos, sobretudo na adolescência.

Seguidamente ouço relatos dos alunos e alunas de que querem ler certo livro, mas alguma coisa lhes “interdita”. Nestes casos, o movimento sempre é o de escuta ativa, de modo a conhecer a trajetória e o repertório cultural e imaginário desse/a estudante, e a relação que estabelece com a linguagem, no intuito de conhecer os motivos pelos quais o/a estudante se afasta dessas leituras. Depois dessa conversa, o/a mediador/a de leitura terá muito material para pesquisar e trabalhar a partir dessas referências, de modo a desafiar sua turma para novas leituras e descobertas. Não se trata de um trabalho fácil, mas certamente será mais produtivo.

Entretanto, para pontuar que a mediação da sala de aula não é garantia de sucesso, é preciso pensar na construção de um programa consistente de formação de leitores, que inicie na Educação Infantil e se estenda até o Ensino Superior. Infelizmente, a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) não avançou muito nesse sentido, incorporando poucas habilidades (?) referentes à formação de leitores literários ao componente curricular Língua Portuguesa. Por parte das mantenedoras públicas e privadas, também não se mostra um compromisso explícito, nos projetos político-pedagógicos e nos orçamentos das instituições, com a formação de leitores. O que vem acontecendo são iniciativas isoladas de professores/as, bibliotecários/as, que raras vezes conseguem se multiplicar em mais de uma sala de aula ou biblioteca. Iniciativas essas que precisam ser conhecidas, impulsionadas.

No Ensino Médio, um programa de formação de leitores deveria ser a culminância desse percurso, no qual o/a estudante já tivesse um repertório que lhe garantisse escolhas autônomas e também contemplasse as leituras clássicas e canônicas. Vejo, nesses discursos sobre a leitura, uma antítese entre o ler por prazer x ler por dever, quando, na verdade, são discursos que se entrecruzam na necessidade de ler: os leitores leem com diferentes propósitos. A leitura de obras canônicas e que fazem parte da historiografia literária podem e devem fazer parte do percurso formativo, em diálogo com outras produções, com outras linguagens, numa perspectiva em que seja possível compreender e refletir criticamente sobre o pensamento e as forças que operam para a constituição de um cânone. Por que não também deliciar-se com essas narrativas, ser levado pela mão dos narradores de Machado, ou dialogar na taverna com Álvares de Azevedo? Para ampliar as referências, colocar clássicas e contemporâneas em contraponto: ler a carta de Caminha ou um romance de José de Alencar e confrontá-lo com uma obra de autoria indígena; ler os contos gauchescos de Simões Lopes Neto enquanto se ouve as canções de Vitor Ramil. Ler mais autores e autoras da periferia, ler mais autoras, ler mais autores negros e autoras negras, a fim de mergulhar nas subjetividades das personagens e nos mundos narrados, por vezes pouco visibilizados pelo cânone. Ter espaço para que os/as estudantes digam “gostei” ou “não gostei”, mas que a crítica seja apurada, que não se confunda com identificação e estranhamento em relação ao que foi lido e discutido, pois o estranhamento pode levar ao reconhecimento de outras subjetividades, à experimentação com a linguagem, e não é só lendo o que se gosta que um leitor se forma.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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8 respostas para ‘Ana Paula Cecato: A treta literária

  1. É irritante o “os/as” estudantes…, desconhecendo que o masculino genérico inclui ambos os gêneros. O Dr. Moreno já escreveu sobre isso várias vezes em sua coluna “Prazer da Palavra”, na Zero Hora. Mas há os que se aferram ao “politicamente correto”, mesmo que represente grave involução linguística e literária. Lamentável deterioramento do nosso idioma, por obra de apedeutas da esquerda, impondo a nós, leitores inocentes, formulações como “os/as estudantes”, “leitores/as”, “juízes/as”, “psicólogos/as”, “associados/as”, etc. … José Nedel

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    1. acho que você, como leitor/a/es, consumidor/a/es de literatura precisa repensar um pouco sobre a fragilidade do masculino/a/es. Quem sabe pode também buscar emprego como “o/a Rei/Rainha do elogio” afim de, com toda a envergadura intelectual que lhe cabe, defender bravamente a linguística de apedeutas/os/es de esquerda.
      Contamos com você Batman/woman.

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  2. Já tive experiências positivas muito prazeirosas a partir da mediação de leitura.
    Concordo que uma provocação como essa veio para refletir o pensamento de muitos e para influenciar, acho exagerado, mas muito necessário para reavivar o tema.

    Obrigado pelo texto, Ana e equipe!

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  3. Reflexões interessantes e pontuais. Mediar a leitura é um exercício de desdobramentos e percepções, pois exige que compreendamos as peculiaridades e subjetividades, alem do contexto dos estudantes. Cabe ao docente melhorar a abordagem e, apesar dos problemas citados, procurar formas de incluir, ressignificar e “descoisificar” a literatura. Temos diversos empecilhos no processo de aquisição da leitura, além da falta de estrutura e da formação limitada da maioria dos professores (e seus gostos pessoais). Ainda assim, não consigo vislumbrar um horizonte de melhorias na educação, se não for com o auxílio da literatura. A arte literária enleva, provoca, tira do lugar e é capaz de muito mais. Texto maravilhoso! Parabéns!

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