Ana Paula Cecato: Uns livros pela casa e a importância da EJA

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Há algum tempo a mãe, com 43 anos, demonstrava um cansaço de trabalhar todos os dias em algo que ela nunca gostara na vida. Descobri que, por trás dele, morava um desejo de adolescente: voltar a estudar e cursar o Técnico em Enfermagem. Foi num dia desses que a coragem veio que fomos nós, mãe e filha, fazer a inscrição dela no curso.

“Eu não teria feito esse curso se tu não tivesse ido comigo naquele dia” – ela já me disse algumas vezes.

O que se seguiu, por quase dois anos, foram finais de semana em que, tirada a mesa das refeições, espalhavam-se manuais, dicionários, polígrafos e livros sobre a mesa, materiais de estudo que depois tomavam a casa dos estudantes – os filhos e a mãe. O pai, meio sem jeito, aprendeu a se virar mais com as tarefas de casa, mas tinha lá suas limitações, porque também trabalhava. A casa estava mais desorganizada do que antes, pois era preciso terminar primeiro as tarefas de aula.

A dedicação da mãe com os estudos me fez rememorar eventos da minha vida dos quais eu tinha nenhuma ou poucas lembranças: ela fez o Ensino Médio quando eu era bebê, foi ela que me ensinou a ler. Eventos esses que formaram meu desejo de estar sempre estudando.

Terminado o curso, vibramos com a formatura e com a aprovação no concurso público que veio logo depois, como Técnica em Enfermagem em um posto de saúde.

Nunca é tarde para acordar um projeto de vida adormecido.

No entanto, alguns governos sobrepõem os projetos de vida dos estudantes a um projeto de desmonte da educação pública ao não lhes garantir o direito de estudar. Na EEEM Agrônomo Pereira, em Porto Alegre, 238 pessoas se inscreveram para a EJA do Ensino Médio e, até agora, não foi dada uma resposta definitiva da SEDUC sobre as matrículas destes estudantes. Para quem quiser saber mais sobre essa situação e se somar à luta pela educação pública, pode acessar a página do Facebook Não Feche a EJA do APP (link externo).

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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