Atena Beauvoir: Nei, afasta de mim esse cálice!

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

É necessário relembrar que não possuo a verdade absoluta. Bem como Nei Lisboa também não. Importa lembrar que a realidade é resultado do cálculo existencial entre corpo e presença no mundo e assim sou eu, uma mulher transgênera e ele um homem cisgênero. Mas o que nos perpassa? O que nos afeta? Escrevi tempos atrás: a transfobia é uma espada que a todo momento busca me matar e a branquitude é um escudo que sempre me protegeu.

Escrevo sobre isso em todas as minhas obras escritas e publicadas por mim mesma e desde sempre defendo a dignidade de qualquer vida humana através da sua própria produção de trabalho. Artistas são trabalhadoras e trabalhadores. Vivem um mundo material, físico, ético-corporal em que a fome, a sede e o repouso são funções necessárias e básicas para o existir nesse mundo.

O Edital Trajetórias Culturais Mestra Griô Sirley Amaro, em que busca premiar 1.500 trajetórias culturais no Rio Grande do Sul com o valor de oito mil reais cada, é uma forma de dar esse sustento à presença de artistas gaúchas e gaúchos no âmbito da cultura. Existem pontos discutíveis no edital? Com toda a clareza, escurecimento e cor que há em nossas inteligências. E creio que da mesma maneira o valor poderia ser menor para que aumentassem as trajetórias culturais contempladas. Mas lá estava o edital e lá estava eu não classificada. O que eu fiz? Entrei com recurso. Expliquei, justifiquei, expus minha posição contrária a algumas notas. Mesmo acreditando que boa parte das avaliações estavam em planos de subjetividade explícita, quando me inscrevi no edital, estava ciente de tudo o que envolvia-o.

Politicamente falando, o governo estadual do Rio Grande do Sul não faz mais que a obrigação de atender a uma demanda da vida cultural de artistas de todo o estado. Eu sou de espectro contrário ao do tucano Eduardo Leite. Ocupei uma escola estadual no centro de Porto Alegre de 4 de setembro de 2020 a 29 de janeiro de 2021, junta de pais e mães para que a mesma não fosse fechada de forma antidemocrática e bizonha. Escola essa fundada por Brizola em 1960 e que por dever de consciência, importava mostrar ao governo estadual seu erro político, social e educacional, nos desafiando 138 dias em que dormimos no chão da escola. Portanto, minha posição de refletir neste escrito não é sobre eu aceitar o edital ou não, pois a fome de cada artista gaúcha e gaúcho não tem exclusão em relação ao que é ofertado. Se é um edital público, se tem dinheiro a ser pago e se o objetivo é homenagear Sirley Amaro que nos envolve com a história gaúcha da população negra, eis um edital que se propõe a isso: ser de fato para o povo. Mas qual povo?

Populismo possível indicado na escrita de Nei Lisboa sobre “a capilaridade máxima, que parece ter orientado a premiação para personagens queridos de microcomunidades, pode ser uma inspiração democrática tanto quanto um instrumento poderoso de cooptação eleitoral” é no mínimo questionar a inteligência político-social das “personagens de microcomunidades” que, segundo o escrito do cantor, podem ser objeto de cooptação eleitoral. Vi muitas e muitos artistas que batem de frente contra os governos direitosos com sua própria arte e foram classificadas e classificados. Eu, que não fui classificada, poderia muito bem justificar: “não me quiseram por estar sendo provocada a repensar minha luta social contra o governo Leite a respeito da escola fundada por Brizola.”. Mas não publiquei nada a respeito. Simplesmente foquei no recurso e aguardei. Até que vi os murmúrios todos ao redor dessa questão. E repito: a estrutura técnica e metodológica do edital é questionável, ainda mais lidando com dinheiro público e com acesso público, e deve ser melhorado de forma transparente e lúcida. Assim se alimenta a democracia de fato.

Mas de fato, a democracia falha quando na verdade funk, samba, pagode, jazz, rock, blues, rap originaram-se das trajetórias culturais, nacional e internacional, de homens e mulheres negras. Estamos em um país, Nei Lisboa, que embranquece Machado de Assis…eu repito: MACHADO DE ASSIS! Concordo contigo quando tu dizes “Agora, em um universo tão amplo quanto o de 1.500 selecionados, e qualificados exatamente por sua trajetória cultural, (…) soa como uma ostensiva provocação”, e eu complemento: pessoas brancas questionarem seus nomes ou não em um edital que homenageia uma mulher negra.

Se me perguntarem quem é Nei Lisboa, eu sei dizer que é um cantor. Se me perguntarem se já ouvi Nei Lisboa cantar ou alguma composição, digo que não sei identificar, pois que não faz parte da minha cultura ouvir Nei Lisboa. Mas acredito que Nei Lisboa nunca me leu. Nem um dos meus cinco livros. E quem sou eu? A primeira mulher transexual a criar a própria editora e publicar literatura de pessoas trans no Brasil. Também a primeira escritora gaúcha trans a participar da maior feira do livro a céu aberto da América Latina. Não fui classificada. Mas entrei com recurso. Nem eu desconhecer Lisboa e nem ele me desconhecer nos torna imorais, incultos ou não civilizados.

Eu cheguei onde cheguei sem conhecer Nei Lisboa. Mas conheci os poetas vivos, a Thais Silva que é produtora do Slam da Santa em Viamão, a escritora e poeta Fátima Regina, a produtora cultural Silvia Abreu… e tantas e tantos outros… que talvez se não conhecesse, eu não estaria aqui escrevendo sobre o que estou escrevendo. E “cá entre nós, há outras réguas que medem com mais precisão o valor” da arte produzida por artistas negras e negros. E essa régua, em uma sociedade como a gaúcha em que cada pedra de praça principal dos antigos municípios do império foram levantadas pelo trabalho de mulheres e homens negras e negros, filhas e filhos, netas e netos dos 10 milhões de seres humanos que, morando no continente Africano, foram escravizados e trazidos para cá, a régua de uma sociedade branca é jamais retirar o holofote de pessoas brancas, para medir o valor que há em trajetórias culturais negras.

O edital precisa ser revisto e qualificado urgentemente, pois a fome impera no meio artístico gaúcho. Concordo com Lisboa nesse ponto. Mas importa cuidarmos que a trajetória cultural de cada sujeito sempre será resultado da trajetória cultural da sua cor. Inclusive como reage a negativa de seu nome. E isso, o bom senso, a inteligência histórica e a coerência existencial plena em cada coração fará escrevermos sobre. Sem mimimi, como dizem algumas personagens, e acredito que muitas críticas que não foram sobre o edital em si, mas enquanto a não classificação só pode exigir de nós mais cuidado, mais transparência e mais lucidez sobre o que de fato estamos falando, caso contrário tomemos o cálice. Não o do tempo da ditadura civil-militar, mas um cálice mais antigo e que não tem a nossa cor.

Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.

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