Ana Paula Cecato: Atividades para quem gosta de ler, mas ainda não sabe (parte 1)

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio
; fotos de Diego Lopes/CRL

“Muitas são as perguntas, porque muitos são os desafios ao se formar leitores”

Por dois anos consecutivos, ministrei uma oficina com este nome, na qual trazia várias sugestões de práticas de leitura e de criação que ministrei em sala de aula durante os dez anos em que fui professora do Ensino Fundamental. Há algumas semanas, tive a oportunidade de apresentá-las, de modo muito sucinto, em uma jornada pedagógica voltada para educadores.

O nome da oficina não tem a ver com o fato de que os/as estudantes, de modo geral, vão se interessar pela leitura ou vão gostar de ler, mas que o estímulo à leitura precisa ser mobilizado em sala de aula de forma que este seja o horizonte das práticas realizadas. E o início dessa história é bem previsível: o/a docente precisa ser um leitor. Um leitor entusiasmado, de modo que possa comunicar a experiência de ser leitor a quem o/a acompanha em sala de aula. Um leitor experiente, que possa entender a complexidade do processo de tornar-se leitor, com suas idas e vindas; um leitor persistente, que saiba o que é assumir-se leitor numa sociedade que não valoriza o livro e a leitura no seu imaginário. E, por fim, um leitor que adote uma postura política ao ensinar literatura e formar leitores.

Ao longo de minha trajetória como educadora, fui construindo um repertório de leituras que se tornaram referências de como eu encaro a tarefa de formar leitores. Em linhas gerais, comento algumas delas. A primeira vem da publicação da bibliotecária colombiana Silvia Castrillón, O direito de ler e de escrever (Editora Pulo do Gato, 2011), em que ela traz a questão da democratização da cultura letrada e a participação da sociedade civil nas políticas de leitura. Em convergência com o livro de Castrillón, mas também ampliando suas reflexões sobre o que é a literatura, o ensaio de Antonio Candido, O direito à literatura (1988), vai ao encontro da ideia de que a literatura é um direito humano inalienável e nos humaniza, porque nos conduz a uma compreensão da complexidade e das ambiguidades que atravessam nossas existências. Duas referências mais recentes, e tão transformadoras quanto, são os pressupostos da pedagogia engajada e da construção de uma comunidade pedagógica trazidos pela educadora e intelectual estadunidense bell hooks nos livros Ensinando a transgredir (Editora WMF Martins Fontes, 2017) e Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática (Editora Elefante, 2020), e a trilogia de livros do professor Rildo Cosson: Letramento literário: teoria e prática (Editora Contexto, 2006), Círculos de leitura e letramento literário (Editora Contexto, 2014) e Paradigmas do ensino de literatura (Editora Contexto, 2020), que me trouxeram um lastro teórico e metodológico para os percursos formativos de uma comunidade de leitores e leitoras.

Depois de situar-me nas leituras, é preciso situar-me no espaço que ocupo enquanto educadora: a escola. Conduzo-me então a três movimentos: pensar-me como uma professora-leitora, uma professora-curadora e uma professora mediadora da leitura. O primeiro movimento, o de professora-leitora, é, antes de tudo, observar e ler a realidade em que estou inserida. Como eu leio os estudantes, como eu leio os espaços da escola que podem também ser os espaços da leitura, o que eu preciso saber para fazer a leitura acontecer. Um questionário de comportamento leitor pode ser um bom diagnóstico dos repertórios imaginários e culturais das turmas, um círculo de conversa também. Para mobilizar uma conversa mais direcionada, cartas que tragam o mote “Conte uma história que…” podem acionar as histórias afetivas que constituem as subjetividades dos/das estudantes. O segundo movimento, o de professora-curadora, é o de fazer as escolhas do que a comunidade dos leitores vai ler. Para isso, é importante construir critérios que envolvam o movimento anterior (e talvez possa ser interessante construir critérios com a turma e coletar suas sugestões de leitura) e o conhecimento do/a professor/a enquanto um leitor experiente que se nutre do conhecimento sobre o acervo literário e os mecanismos de construção da linguagem literária que se encontram presentes na produção editorial. O último movimento, o da professora-mediadora, leva a estruturar as ações/projetos/eventos de leitura, pensando nos propósitos e aonde se deseja chegar com a turma de estudantes, a planejar o percurso formativo em termos de sequência, continuidade e progressão de suas etapas, em contemplar a diversidade que pode constituir um grupo e ao mesmo tempo a abrangência de suas atividades, de modo a disseminar suas práticas leitoras. Além disso, pensar as estratégias de leitura é muito importante. Como os/as estudantes vão ler: de forma individualizada, compartilhada, mediada pela professora? A leitura será feita em sala de aula, em casa, na biblioteca, ao ar livre? Como cada encontro estará estruturado no antes, durante e depois da leitura? Haverá uma culminância do percurso, uma socialização com a comunidade?

Muitas são as perguntas, porque muitos são os desafios ao se formar leitores. Cada vez mais penso que minha trajetória como professora-mediadora de leitura se confunde com a da leitora que me torno a cada dia. Por isso, por mais desafiador que seja, procuro acompanhar e deliciar-me com o meu percurso formativo e de quem está ao meu lado, a comunidade de leitores e leitoras com quem convivo.

(Continuo na próximo mês, com algumas práticas de leitura.)

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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