Julgando pela capa: Textos para nada, da Ornitorrinco Edições

“É criatividade o que se apresenta quando se bate o olho nesse projeto que reúne os autores Caio Yurgel, Daniel Senna Irgang, Pedro Dziedzinski e Samla Borges

Edição: Vitor Diel
Texto, fotos e arte: Giovani Urio

Sou fã de soluções criativas. E é criatividade o que se apresenta quando se bate o olho nesse projeto que reúne os autores Caio Yurgel (Os heróis do fracasso), Daniel Senna Irgang (Ricardo Elétrico), Pedro Dziedzinski (Pealo) e Samla Borges (No pequeno quarto escuro dentro da gente), lançado pela editora independente Ornitorrinco em 2019 e com projeto gráfico assinado pela engajada designer gaúcha radicada em São Paulo Tereza Bettinardi.

Já no primeiro contato percebe-se que a publicação não é um, mas quatro livretos em um. E é esse um dos principais desafios do projeto: fazer com que livretos de autores com características e escritas distintas se diferenciem e que, ao mesmo tempo, tenham uma unidade para que sejam vistos como parte da mesma obra. Aliás, essa é proposta da Ornitorrinco Edições, que assim como sua alcunha sugere, aposta na fusão das diferenças para construir algo novo: “do estranho nascem grandiosidades”, conforme apresentação da editora no Facebook.

O bacana deste projeto é perceber que a maioria das escolhas para brincar com os elementos que dão a liga e também diferenciam as unidades foram feitas com recursos oferecidos dentro do sistema básico de impressão. Ao analisar, percebemos que, além de terem o mesmo tamanho (120x180mm) e tipo de papel, os livretos são impressos apenas em preto e isso é muito importante para não aumentar os custos finais do projeto. O que diferencia cada obra é, na verdade, a escolha da cor do papel para cada capa, que, somados com grafismos exclusivos, dão personalidade para cada uma das partes e um impacto visual potente.

Outros recursos gráficos ampliam essa potência, como a costura que traz elegância a cada um dos livretos e o hot stamping (link externo), processo feito a partir de uma fita metálica que é pressionada por um molde em alta temperatura, fazendo com que o impresso fique com detalhes metalizados, comumente utilizado em convites de casamento. Este é um recurso que aumenta os custos de produção por utilizar material extra, mas aqui é aplicado com precisão, aproveitando o mesmo molde para todos os livretos, formando um padrão elegante que dá unidade ao conjunto. O hot stamping ainda ganha cores que contrastam com os papéis escolhidos para as capas, tornando esse colorido um dos principais diferenciais da coleção e a destacando de outras publicações.

Para fechar o material, outra solução criativa: uma cinta em papel preto protege os livretos e nela são coladas etiquetas adesivas metálicas que dão unidade ao projeto. Uma etiqueta leva a marca da editora; quatro etiquetas informam os autores e suas obras, e ainda outra pequena que informa o código de barras para a efetivação da compra. Todas coladas aleatoriamente na cinta, se encaixando perfeitamente com a identidade visual dos livretos individuais e também com o conceito da editora.

Projetos como este da Tereza Bettinardi, que é uma designer experiente e reconhecida no campo editorial, merecem visibilidade por abrir novas portas para um penso diferente de como criar soluções em projetos editoriais. Aqui foram utilizados recursos de financiamento coletivo, o que proporcionou a utilização de acabamentos extras como a costura e o hot stamping, mas mesmo sem esses acabamentos a publicação ainda se destacaria pela originalidade e qualidade dos elementos gráficos, tipografia e diagramação. Textos para nada é um projeto coeso que junta autores, conceitos, materiais e peças diferentes para formar algo novo e diferente, um legítimo ornitorrinco literário.

Textos para nada
Caio Yurgel, Daniel Senna Irgang, Pedro Dziedzinski e Samla Borges
12x18cm
Ornitorrinco Edições

Bacharel em Design, Giovani Urio nasceu em Passo Fundo, em 1983. É artista gráfico com ênfase na criação editorial. Foi diretor de arte da Revista da Cerveja e do Jornal do Mercado entre 2012 e 2017, com experiência em núcleos de marketing, agências de publicidade, escritórios de design, e assessorias de gestão pública e docência em ensino técnico de design gráfico. É Diretor de arte do Literatura RS. Foto: Vitor Diel

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