Deivison Campos: Trançando os fios de Abdias

“Como ocorre nas universidades e no mercado editorial, foi a tensão e a presença dessa nova intelectualidade que construiu o contexto para que as instituições iniciem a criticar seus cânones”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Ler ouvindo Yáyá Massemba

As políticas afirmativas, em constante tensão num tempo em que direitos são cassados no silêncio do Congresso, estão produzindo uma transformação silenciosa junto com o Prouni. Há ainda quem pense que as políticas afirmativas alcançam somente negro, índios, travestis e transgêneros. Equivoca-se. A maioria dos cotistas são brancos pobres, oriundos da rede pública de ensino. Isso porque as cotas são sociais, com recorte racial e de gênero.

Essa transformação afeta as instituições superiores de ensino por dentro, pois as verdades estabelecidas se veem confrontadas com uma gama de outros saberes antes deixados de lado, ou quando acionados, entendidos como folclore, ou algo que valha. Essa pressão tem sido exercida aí sim pelos estudantes negros e indígenas que chegam em maior número ao ensino superior por causa das políticas. A consequência é o surgimento de um novo tipo de intelectualidade mesmo que em formação. Algo sintetizado no verso “os boy conhecem Marx, nós conhece a fome” de Emicida. É a emergência de um novo tipo de intelectual negro, como dizem Muniz Sodré e Joel Zito Araújo.

A possibilidade se deu pelo fato de, além de serem mais, existirem e produzirem cada vez mais em comum. Esses jovens têm produzido tensões epistêmicas, como refere Nilma Lino Gomes (2010), e levado nomes, rostos, ideias e projetos construídos na esfera pública negra para o debate ampliado. Clóvis Moura, em Rebeliões na Senzala, apontou um interessante caminho a partir da categoria de resistência para se pensar sobre a permanente mobilização negra contra a violência, o racismo e a luta pela construção de novos lugares sociais. A custa de muita luta e vida dos que nos antecederam o debate chegou à esfera pública com força na perspectiva da negritude.   

Lembro que nos anos 90, quando comecei a circular pelas organizações negras, líamos muitos dos intelectuais que hoje estão na pauta do mercado editorial como novidade – praticamente todos têm voltado em reedições depois de décadas. Alguns poucos de nós chegaram à universidade como professores e, agora, carregados pelas mãos desses jovens estudantes negros, os textos invadiram as salas de aula. Jovens que se voltaram às reservas das bibliotecas – onde muitos desses livros estavam arquivados, em sebos e principalmente pela circulação de cópias em PDF para fazer emergir o olhar desses pensadores no debate acadêmico e daí para o social.

Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Cida Bento, Djamila Ribeiro, entre outras, tornaram-se objetos de desejo do mercado editorial mesmo produzindo há décadas. É um novo cenário que se abre com muito entusiasmo para quem está na luta antirracista. Também importante frisar que mais uma vez as cosmogonias e epistemologias que nos foram relegadas pelos nossos antepassados, que suportaram e superaram a escravidão e o desejo racista de eliminação simbólica e física, foram visibilizadas de baixo para cima e não sem toda oposição das instituições semânticas e materiais racistas da “ciência verdadeira” e do cidadão de bem.

Ainda estamos longe de uma perspectiva epistêmica realmente universal, mas é um avanço. Estamos oferecendo, principalmente os mais jovens, essa oportunidade ao Brasil. Não que isso seja também uma novidade. Visitei há pouco a exposição da obra visual de Abdias do Nascimento no Masp, sendo esse o gatilho dessa reflexão. Sua existência e produção é a síntese da oferta que sempre fizemos e que construiu o Brasil, apesar de negado e silenciado.

Na exposição, fica visível tudo o que hoje aparece como novidade. Tanto a obra visual de Abdias, como a jornalística, a teatral, a literária, a acadêmica, a política e militância anunciam o pensamento e o mundo negro. Abdias do Nascimento nasceu em 1914 e nos anos 30 já militava pela questão negra e faleceu em 2011, aos 97 anos. No entanto, segue em militância, pois quem vive na tradição negra sabe que alguém morre somente quando seu nome é esquecido. Não à toa, essa é a maior e mais completa exposição individual realizada no Brasil.

Quando fundou, nos anos 40, o Teatro Experimental do Negro, ousou em utilizar a palavra, considerada pejorativa – o adequado nesse período era usar pessoa de cor, a fim de firmar uma identidade e um projeto político. O TEN nunca foi somente teatro. As atividades do projeto acabaram atravessadas pela ditadura militar, o que levou Abdias para os EUA, com a decretação do AI-5. É sempre importante lembrar que as ditaduras militares do Brasil e Argentina fizeram com que os países fossem os únicos a manter relações diplomáticas com a África do Sul numa demonstração direta de racismo.

É desse período de deslocamento sua produção mais profícua em artes visuais. As obras em exposição, todas referenciadas na cosmogonia dos Orixás, foram produzidas entre o final dos anos 60 e início dos 70. Nos EUA, tornou-se professor convidado em Yale Scholle e da Wesleyan University e depois professor associado na Universidade do Estado de Nova York, onde tornou-se professor Catedrático com vitaliciedade. Foi em Nova York em 1969 que realizou a primeira exposição individual no The Harlem Art Gallery, de um total de 17 que realizaria nos Estados Unidos até voltar ao Brasil em 1981.

Nessa nova transição foi um dos articuladores da criação do Movimento Negro Unificado e criador do Instituto de Pesquisa e Estudo Afro-Brasileiro (Ipeafro). Foi eleito deputado federal de 1983 a 1987 e senador da República entre 1997 e 1999, assumindo como suplente de Darcy Ribeiro. Neste período, idealizou o Parque Nacional Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga em Alagoas – onde foram depositadas suas cinzas.

Durante quase um século de militância tornou-se uma figura central nos movimentos negros brasileiro, latino-americano, norte-americano e pan-africanista, sendo oficialmente indicado em vida ao Prêmio Nobel da Paz. Resistiu a um século de racismos, regimes autoritários e recusas –como aconteceu em Porto Alegre em relação ao seu nome na ponte próxima ao estádio Beira Rio. Como ocorre nas universidades e no mercado editorial, foi a tensão e a presença dessa nova intelectualidade que construiu o contexto para que as instituições iniciem a criticar seus cânones. Com isso, rostos, nome, ideias e propostas passam a circular de forma ampliada questionando e descentrando permanentemente o pensamento único euro-referenciado.  

É um princípio sem volta. O Atlântico Negro está revolto. Se o escravismo e o racismo não conseguiram apagar nossas memórias e silenciar nossos antigos, não será esse novo conservadorismo que o fará. Os jovens intelectualizados seguem trançando os fios de Abdias que interligou toda a diáspora. Seguimos rebelados.

ARAÚJO, Joel Zito. Pensamento e Arte Negra: uma contribuição cultural, ou civilizatória? XI Congresso de Pesquisadorres Negros. Curitiba: UFPR, 2020. disponível em https://www.youtube.com/watch?v=zxdtsTdKMGw

MOURA, Clóvis. Rebeliões da Senzala. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

GOMES, Nilma Lino. Intelectuais negros e produção do conhecimento algumas reflexões sobre a realidade brasileira In: SANTOS, Boaventura de Souza; MENESES, Maria Paula. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010.

SODRÉ, Muniz. Pensar Nagô. Petrópolis: Vozes, 2017.

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

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