Ana Paula Cecato: Os influenciadores analógicos

“Outro fundamento é olhar para a literatura como uma produção cultural e artística cuja linguagem simbólica e plurissignificativa se ‘espicha’ para outras produções”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Todos os dias entro em sala de aula carregada de materiais, dentre eles, livros. Deixo-os em cima da mesa, e, enquanto vou arrumando minhas coisas, sempre tem alguém que chega junto e diz assim:

— Que livro é esse, sora?
— A gente vai ler hoje?

Tem dias em que eu chego junto para exclamar ou perguntar:

— Aiii, adoro!
— Não conheço, que tal esse livro?

E assim se segue um papo de segundos, em que trocamos um pitaco ou outra ideia sobre a leitura. Conversa essa que faz toda a diferença.

Colocar a literatura na centralidade de nossas práticas pressupõe estabelecer interlocuções pedagógicas que promovam conversas sobre o que se lê para a escola, mas também para a vida. Esse é um dos fundamentos de pensar o aprendizado da leitura literária a partir da perspectiva do letramento literário, em que temos um processo contínuo, atravessado pela sala de aula, que contempla outros espaços de formação dos leitores e leitoras e que não se esgota, tampouco se encerra. Outro fundamento é olhar para a literatura como uma produção cultural e artística cuja linguagem simbólica e plurissignificativa se “espicha” para outras produções, como os filmes, as séries, os videogames, a música, os memes. Tal entendimento pode ser um ponto de partida para aquelas pessoas que ainda não se reconhecem como leitores e leitoras, mas que, de alguma forma, estão em contato com a linguagem literária. Na sala de aula, uma conversa nesse sentido pode disparar vínculos e conexões com quem “gosta de ler, mas ainda não sabe”.

Fato é que a leitura literária estabelece vínculos e cumplicidades que outros conteúdos (digamos assim) não costumam promover, e quem sabe o caminho seja começar de forma despretensiosa mesmo. Em tempos em que o sonho de todo mundo é ser um influenciador digital, sejamos nós os influenciadores analógicos, carregando nossos livros e nossa vontade de compartilhar histórias com outros leitores e leitoras.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o projeto de extensão Contantes. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura. Foto: Acervo pessoal.

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