Maiara Alvarez: Crisálidas — ou uma história dentro de um cobertor de poemas

“A ordem dos fatores altera o produto e eu adoraria saber o que este livro produziu em outras mentes”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

O que é mais leve do que pluma,
do que sono em dia quente,
do que suspiro de gente?

Faz um tempo que eu não comento literatura infantil por aqui, me pergunto o porquê e não sei responder. Isso se dá em consonância com o fato de que eu não leio tanta literatura infantil quanto gostaria. E acho que este último tem a ver com — assim como o resto das resenhas que trago por aqui — não querer olhar livros para crianças com outra mirada que não seja de doce expectativa e encantamento. E a gente meio que perde essa capacidade com o tempo? Ou sou só eu?

Pode-se dizer que isso é uma visão romântica demais? Não sei. Mas a verdade, falo para alunos e conhecidos, é que livros infantis não são apenas para crianças, no sentido de idade biológica. Eles são para humanos, e, sendo para crianças-humanas, são o tipo mais universal de literatura, pois qualquer pessoa guarda dentro de si sua infância, essa capacidade — que nunca termina — de se encantar com o novo. Ou talvez seja, como sempre, eu me deixando (eu me deixo mesmo, não tem problema) influenciar pelo que tenho lido — para trabalho ou para lazer — ultimamente.

Há, sim, uma necessidade de repertório prévio que define as consequentes classificações de livros juvenis e adultos. E aí, dentro dos adultos, também depende de pra onde fomos com nossos repertórios vida adiante. Afinal, se você é adulto, eu suspeito que, assim como eu, já leu livros que foram mais difíceis de absorver, outros mais fáceis. Mas os livros infantis e os juvenis não deixaram de ser interessantes, e, se você se propor a ler um que não leu quando mais novo, gostaria de saber se, assim como eu, você se encanta, se emociona, comemora, cria um novo afeto.

Nenhum pincel
dá conta dela,
nenhuma rede
alcança,
nenhuma lei
cancela.

Não vejo como menos ou mais complexa a elaboração de um livro infantil. Tampouco, não há nada de mais ou menos belo nas cores primárias, por exemplo. Cores — amarelo, vermelho, azul — que são a composição da capa de Panapaná: Borboletas em verso e voo. Essas são, em maior parte, as cores que compõem também as ilustrações internas do livro de Gláucia de Souza e Leo Cunha, desenhadas pelas mãos e sentimentos de Ana Matsusaki. Sentimento, aliás, é outra coisa evocada com extrema complexidade pelo livro infantil. Sensações, emoções, reações, todas essas coisas que nos fazem pessoas, tão humanos quanto é humano aprender a lidar com isso tudo. E Matsusaki eleva a potência de coautoria da pessoa ilustradora do livro infantil: ela narra uma história, e os poemas vão cobrindo essa história. Dá pra ler só os poemas, depois ler a narrativa contida na sequência das imagens, e aí ainda é possível reler a narrativa acompanhada dos poemas — bom, pelo menos, foi o que eu fiz, mas tenho certeza de que a ordem dos fatores altera o produto e eu adoraria saber o que este livro produziu em outras mentes.

Livros infantis são, afinal, mais sensação do que lógica, mais responsivos e reflexivos e menos argumentativos, mais oratória e menos caracteres. E eu adoro como livros infantis nos deixam sem palavras.

Duas borboletas em férias
velejam pelos campos
pétalas aéreas.

Sobre os autores e a ilustradora

Gláucia de Souza é escritora com mais de vinte títulos publicados. É Bacharel e Licenciada em Letras, Português e Literaturas, pela UERJ. Atuou como professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira no Colégio de Aplicação da UFRGS, de 1994 a 2015. É Doutora em Letras pela PUCRS, Mestre em Educação pela PUCRJ, Especialista em Literatura Infantil pela PUCRS e em Artes Visuais: Cultura e Criação pelo SENAC-RS. Cursou Desenho e Pintura no Atelier Livre Xico Stockinger. Participa de encontros com leitores e mediadores de leitura, em Feiras de Livro e em Programas de Leitura, através de bate-papos com o autor e de oficinas.

Leo Cunha escreveu mais de 60 livros, entre literatura infantil e juvenil, crônicas e poesia. ​Seus livros receberam diversos prêmios no campo da literatura infantil e juvenil, entre os quais: João-de-Barro, Jabuti, Nestlé, FNLIJ, Biblioteca Nacional, Adolfo Aizen, Concurso Nacional de Histórias Infantis do Paraná. Também trabalhou como tradutor e compositor e é professor universitário desde 1997. É Mestre em Ciência da Informação – UFMG e Doutor em Artes pela Escola de Belas Artes UFMG.

Ana Matsusaki desde muito cedo se interessou por tudo o que envolvia palavras e imagens. Estudou Design Gráfico nas Belas Artes de São Paulo. Antes de mergulhar no universo editorial passou por algumas agências de design, sempre mantendo o trabalho de ilustração em paralelo. Após trabalhar alguns anos como diretora de arte em uma editora voltada ao público jovem e infantil, decidiu abrir o próprio estúdio de design e ilustração. Já trabalhou para clientes como Editora Moderna, FTD, Editora do Brasil, Editora Mol, dentre outros. Seu trabalho foi selecionado por duas vezes para integrar o Catálogo Iberoamérica Ilustra. Em 2022, para participar da mostra de ilustração da Bologna Children´s Book Fair. Seu primeiro livro, A colecionadora de cabeças (Editora do Brasil), foi finalista na categoria Ilustração do 63º Prêmio Jabuti.

Panapaná: borboletas em verso e voo
Gláucia de Souza e Leo Cunha; Ana Matsusaki ils.
40 p.
R$ 50
Editora Physalis
Comprar aqui

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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