Nathallia Protazio: Um coletivo de escritores negros em Porto Alegre

“Um texto nasce sempre que um leitor o encontra e empresta por um momento sua atenção, sua capacidade de criar junto

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Quando eu vim morar em Porto Alegre eu não imaginava que aqui era o berço dos estudos em escrita criativa no Brasil. Claro, já tinha uma leve noção da quantidade de escritores que o sul jogava no mundo, mas não sonhava com a situação de POA. Aqui ao sair de casa para ir ao mercado você vai cruzar com três escritores e esbarrar numa briga entre dois oficineiros na esquina, se der sorte, na volta ainda vai encontrar alguma poeta vendendo uma zine.

Tem mais gente que escreve vivendo em Porto Alegre do que gente. Escritores são uma racinha triste, não se conformam em escrever, querem ser lidos, publicados, comentados, chamados pra falar em feira e ainda tem que ter gente pra ouvir, ler, amar, fazer foto, pedir autógrafo, amar – sim, sim, eu sei que já disse, é que somos muito carentes. Não adianta só me seguir na rede social, tem que me encontrar na rua e gritar: ‘‘Nathallia! Texto bom essa semana!’’ Se não, nada feito.

A escrita é um lance orgânico, mesmo quem não se sustenta dela precisa transformar seus mundos em texto pra viver. Já a publicação é business. Publicar é exatamente isso: tornar uma obra pública, criar acesso, viabilizar encontros. Então a pergunta: numa cidade que produz tantos livros por que um coletivo de escritores negros? Tem mesmo necessidade disso?

Bom, eu acho que se você não imaginou a resposta, eu vou ter que ser super paciente e didática. Adivinha? Dia de sorte! Hoje choveu um pouco, eu já almocei minha marmita com chuchu e aipim e tava bem bom! Então senta, enche teu copo e bora refletir um pouco.

Não, o Jeferson Tenório e o — quase sumido — José Falero não são os únicos escritores negros daqui, tem muuuuuuuuita gente produzindo coisa boa e talvez você conheça alguns. Marcelo Martins Silva, Taiasmin Ohnmacht, Ana dos Santos, Luís Maurício Azevedo, Lilian Rocha, Jonatã Nunes, Antonio Padeiro, Alex Cardoso, Marieta Silveira, Fernanda Bastos, Tônio Caetano, Marlon Pires Ramos. Apesar de achar que você já deve ter lido algum livro destes escritores e fico feliz com isto, sinto muito em te jogar a real, correndo o risco de ser repetitiva: literatura é orgânica.

Mas que raios de ideia é esta que eu tô defendendo aqui? Simples, encare a sua existência como uma montanha formada por processos geológicos naturais, alguns extremos, outros de pouca abrasão, mas cada um provocando impactos suficientes para te forjar como única. Você é uma linda montanha, ninguém nunca viveu o que te transpassou. Cada ser humano no planeta tem uma composição química distinta e bela. Você na sua composição orgânica sofreu com processos externos diversos, muitos deles estruturais: racismo, patriarcado, imperialismo capitalista, preconceitos sexuais, religiosos, territoriais etc.

Você é uma linda montanha única, mas os compostos químicos que produzem os humanos são disponíveis na natureza para todos. Assim, os preconceitos que te perpassam estão presentes em muitas outras montanhas e isso muitas vezes formam cadeias montanhosas. Imagine o Andes, com toda a sua grandiosidade, seus picos nevados e sua paisagem desértica. Para a maioria dos escritores negros de Porto Alegre o mercado editorial é assim. Grandioso, distante, belo e inacessível.

Escritores são pessoas que escrevem, mas a escrita não se finda em si mesma, um texto nasce sempre que um leitor o encontra e empresta por um momento sua atenção, sua capacidade de criar junto. A literatura se constrói neste encontro. Porém, um mercado editorial que reproduz marcas dos privilégios da branquitude oferece encontros marcados, o que deveria ser um terreno de possibilidades de encontros orgânicos, apresenta-se como um app de encontro artificial, estilo o famosinho e quase defunto tinder.

Adão Santos, Angela Xavier, Elza Duarte, Gilberto Soares, Isabete Fagundes, Diego Costa, Rosa Pereira, Simone Mello Delma Gonçalves, Fábio Castilhos, Adry Silva, José Alberto Silva, eu e outros colegas levantamos a questão: o que você tem feito para sua leitura deixar de criar cotas e comece enfim a proporcionar encontros orgânicos?

Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica e escritora. Já morou em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça. Hoje vive em Porto Alegre/RS, onde atualmente se divide entre crônicas, mestrado em psicologia social, edição da Revista Parêntese e os bares da Cidade Baixa.

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s