“Emprestar à arte um caráter utilitário ou estritamente lúdico é um equívoco recorrente em muitos discursos”
Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução
“O que vale mais: arte ou vida?” Os girassóis (1888), de Van Gogh, ainda espiavam por detrás da mancha de sopa de tomate recém lançada sobre eles, quando uma das autoras do arremesso fazia a pergunta para um grupo provavelmente incrédulo. O fato ocorreu na National Gallery, em Londres, há algumas semanas.
A dupla de manifestantes do grupo Just Stop Oil protestava contra o anúncio do Reino Unido às concessões de 100 licenças a empresas interessadas em explorar o Mar do Norte para a extração de petróleo e gás. As duas foram detidas.
Sem entrar no mérito da: a) urgência das grandes potências do mundo se dedicarem a buscar soluções às mudanças dos padrões climáticos; b) do modelo (ineficaz) do protesto adotado; c) das chances da pintura ter sido danificada, caso um vidro não a protegesse; d) de toda complexidade que envolve o sistema das artes (valoração, validação, cânone artístico); é a pergunta da manifestante que conduz a reflexão.
Isso porque o questionamento revela um esforço inócuo em hierarquizar vida e arte, política e arte, indivíduo e arte e assim por diante. Pensar na arte como uma bolha asséptica que plana sobre o tabuleiro das dinâmicas sociais é, de certa forma, ignorar a relevância da própria existência. Uma lógica eurocêntrica e branca, a qual costuma adotar a conjunção ou ao invés de e.
Afora que são entendimentos como esse, de que a arte está exilada da sociedade e de suas diversas instâncias, que levam governos ao redor do mundo desprezá-la, assim como o conhecimento – a educação também é relegada a este ambiente asséptico, vide os ataques dos detentores da falsa neutralidade a professores e estudantes dos ensinos fundamental, médio e às universidades.

Michèle Petit lembra no livro A arte de ler: experiências de transmissão cultural nos dias de hoje uma colocação da filósofa norte-americana Martha Nussbaum. Sublinha ela que os tomadores de decisões políticas consideram as artes e as humanidades como floreios inúteis, e por isso se desfazem deles para continuarem competitivos no mercado mundial (no caso do Brasil, ultimamente, nem isso).
Por sua vez, Nussbaum defende que somente “certas práticas das artes e humanidades estariam à altura de responder questões atuais das sociedades democráticas”. Uma consequência do desenvolvimento das capacidades emocionais imaginativas e narrativas.
Segue na mesma direção O Manifesto do Impossível e da responsabilidade da arte (Chão da Feira). Neste texto, a artista da dança, pesquisadora e professora Paloma Bianchi sublinha que a arte também é um fazer político, e este fato deve ser mobilizado em todo ato artístico. Para ela, não há luta política sem a mobilização das emoções e imaginações, por isso, a arte deve assumir a sua responsabilidade na transformação radical do mundo.
Emprestar à arte um caráter utilitário ou estritamente lúdico — o que pode ser também — é um equívoco recorrente em muitos discursos, inclusive nos considerados progressista/esquerda. Volto à Michèle Petit, quando ela diz que, cada vez mais, ao defender as artes, as letras e a ciência se vê obrigada a “fornecer provas de sua rentabilidade imediata, como se essa fosse a sua única razão de ser”.
Qualquer pessoa minimamente honesta e consciente sabe o quanto a pauta ambiental precisa ganhar espaço e mobilizar ações efetivas dos líderes de diversos países. E não apenas ela, a busca de soluções para a fome, educação, economia, saúde, guerras e conflitos e por aí vai. E a arte não fica de fora, ela se compromete em criticar, propor alternativas por meio da imaginação ou denunciar, porque ela não apenas reage a este sistema, como também é uma das peças que sem a qual o engendramento entra em pane.


Priscila Ferraz Pasko (1983 – Porto Alegre) é escritora, jornalista freelancer na área cultural e graduanda em História da Arte (Ufrgs) . É autora do livro de contos “Solo rachado por dentro” (Figura de Linguagem, prelo), “Como se mata uma ilha” (Zouk, 2019) – Prêmio Açorianos 2020 na categoria conto. Também integra a coletânea “Novas contistas da literatura brasileira” (Zouk, 2018). Paralelamente, Priscila se dedica à dança contemporânea e a experimentos em videodança. Se interessa ainda por artes visuais, pelo processo criativo/vivência de artistas mulheres e sonhos. Divide o teto com os seus dois gatos, a Pemba e o Arruda.
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