Priscila Ferraz Pasko: Ruína às avessas, uma cidade desmorona em direção ao céu

“Pelo menos ninguém poderá reclamar que falta um projeto de identidade à metodologia do descaso”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Uma cidade acaba? Quando é decretada a sua morte? Quem a proclama? Uma cidade pode tornar-se outra sem deixar vestígios? A cidade é um lugar ou uma ideia? Na Antiguidade, conforme a lenda, Troia fora saqueada e incendiada pelos gregos, após uma guerra de quase uma década. Da mesma forma, Roma [64 d.C]. Por seis dias queimou, sendo quase devastada. Uma das versões sobre o ocorrido responsabiliza o imperador Nero, que teria lançado mão deste artifício para incriminar os cristãos. 

Em um salto temporal e geográfico, lembramos de Petrolândia, em Pernambuco, onde o centro da antiga cidade e povoados próximos foram inundados pelo Rio São Francisco, na década de 1980, ocasião em que foi construída uma usina hidrelétrica. Prédios, fábricas e casas sob as águas, após os moradores serem reassentados em novos bairros. São alguns exemplos de ocorrências provocadas de forma deliberada, seja pelos próprios governantes, seja por grupos inimigos – às vezes os grupos coincidem.

Existem formas bastante sofisticadas para dar fim a uma cidade. Não apenas o que de concreto reside nela, mas também pela memória que os prédios, as casas e os espaços públicos carregam. Nada de alvoroço, esfarela-se a cidade em banho-Maria, a conta-gotas. Apaga-se a história de uma cidade ao se negligenciar a estrutura precária de casas e prédios históricos com inestimável valor arquitetônico e cultural. Em certos casos, o empurra-empurra entre proprietários e poder público é acompanhado com interesse pela especulação imobiliária. 

Inclusive são criados novos códigos: hoje, para saber onde estão esses prédios, basta localizar tapumes devidamente instalados para conter um presumível desabamento. Pelo menos ninguém poderá reclamar que falta um projeto de identidade à metodologia do descaso. É travada uma queda de braço com o tempo. Esperam que paredes se deteriorem, desvalorizem a região. Isso, para que logo um panfleto publicitário inaugure ali a promessa de uma nova vida em um JK – é esse o verdadeiro nome – minúsculo, em um prédio de gosto duvidoso, preguiçoso, e que terá o descaramento de receber o mesmo nome do que ali foi derrubado. Homenagem, dizem.

Nos oferecem cimento em troca de árvores. A vista é privilegiada e pública, mas sequer podemos desfrutá-la nos dias mais quentes sem que, com isso, se receba uma insolação como lembrança, pois nem sombra há. Menos mal que a foto a garantir o registro de nosso “cartão-postal” ocorre quando justamente o sol se põe. 

Lembro dos trechos finais de As troianas. Na peça de Eurípedes [480-406 a.c], a rainha de Troia, Hécuba, lamenta:

Hécuba
Oh! Ouves isto? Sentes?

Coro
Sim, sim! É o estrondo das torres a cair…

Hécuba 
Um tremor de terra, tudo treme…

Coro
…a cidade desmorona-se.

Hécuba 
Ah! Também eu tremo.[…]

A Cidade se torna, aos poucos, uma ruína às avessas: desmorona espelhada em direção ao céu. Os pássaros que o digam.

Priscila Ferraz Pasko (1983 – Porto Alegre) é escritora, jornalista freelancer na área cultural e graduanda em História da Arte (Ufrgs) . É autora do livro de contos “Solo rachado por dentro” (Figura de Linguagem, prelo), “Como se mata uma ilha” (Zouk, 2019) – Prêmio Açorianos 2020 na categoria conto. Também integra a coletânea “Novas contistas da literatura brasileira” (Zouk, 2018). Paralelamente, Priscila se dedica à dança contemporânea e a experimentos em videodança. Se interessa ainda por artes visuais, pelo processo criativo/vivência de artistas mulheres e sonhos. Divide o teto com os seus dois gatos, a Pemba e o Arruda.

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