Confira as 13 recomendações do colunista
Edição e arte: Vitor Diel
Como todo ano, trago uma lista das melhores leituras de quadrinhos do ano que passou. Este ano trago aqui no Literatura RS e no meu Substack, o DeSmeeOLado, uma seleção dos melhores quadrinhos estrangeiros que li em 2025. São 13 deles. Também disponibilizarei no meu Instagram (@guilhermesmee) e no Substack outras listas de melhores leituras de 2025: super-heróis, quadrinhos brasileiros, livros de não-ficção e esta aqui, exclusiva primeiramente no Literatura RS. Espero que curta a lista!

AZAR DO AMOR OU COMO EU SOBREVIVI A UM MANIPULADOR, DE SOPHIE LAMBDA
Eu me deparei com este quadrinho logo no início da minha ida para Florianópolis. Acho que foi o primeiro quadrinho que comprei lá. Ele é publicado por um selo não muito tradicional em quadrinhos, o BÜZZ. A intenção era apresentar o quadrinho nas aulas de gênero que daria na UFSC, mas acabei lendo-o somente neste último semestre. E gostei muito, diga-se de passagem. É um quadrinho que se utiliza muito bem da linguagem própria da mídia para contar uma história autobiográfica, mas que poderia ser de qualquer um de nós. Ainda, quando Sophie Lambda se usa de uma linguagem mais documental e infografada para explicar como identificar se um relacionamento está sendo manipulado ou não ou se seu namorado é um psicopata. Os desenhos de Lambda são muito legais e parecem vir da escola de animações da Disney/Pixar. Apesar de eu ter demorado um bom tempo para começar a ler o quadrinho, foi rapidinho para terminar, numa leitura bem agradável.

COMENDO COM MEDO, DE ELIZABETH KARYN RYMER-RHYTÉN
Sempre via esse quadrinho na estante da Livraria Leitura e o título me chamava a atenção, muito pelo seu duplo sentido. Comendo com medo é um quadrinho em que você não dá nada por ele, mas talvez por isso o impacto no leitor seja maior. Ele é um quadrinho baratíssimo se comparado com a maioria dos quadrinhos disponíveis a venda hoje em dia, e é colorido e tem quase duzentas páginas. Trata-se de uma história em quadrinhos autobiográfica de Elisabeth Karin Pavón Rymer-Rythén (nome de nobre) e da sua luta contra os distúrbios alimentares, mais especificamente contra a anorexia, ou melhor, a sombra personificada em fera que a acompanha e que se faz de sua amiga, a Nore. Essa personificação da doença é o ponto alto do quadrinho e através desse artifício somos conduzidos aos percalços que Elisabeth passou por causa de Nore, principalmente a sua internação em uma clínica psiquiátrica, em um relato nu e cru dessas intempéries. Mas ela também relata as conquistas que teve ao abandonar a influência de Nore, além de elencar outros pseudoamigos que podem acabar com a vida das pessoas e que estão relacionados a transtornos alimentares. Um ótimo quadrinho!

CRÔNICAS DA JUVENTUDE, DE GUY DELISLE
Já disse que Guy Delisle é sinônimo de uma avaliação que merece cinco estrelas, e em Crônicas da Juventude não é diferente. O curioso é que não fiquei sabendo que este quadrinho tinha sido lançado no Brasil, embora seja de 2021. Nele, acompanhamos Delisle contando suas experiências durante seu trabalho de verão (coisa do Norte Global) em uma fábrica de papel no Canadá. Talvez muitos diriam: “Tá, mas que graça tem acompanhar uma rotina diária de trabalho cansativa e repetitiva?” A graça é como o autor conta utilizando a linguagem dos quadrinhos. É tão cheio de graça que ficamos sabendo algo que nunca saberíamos se não fosse a leitura deste quadrinho, que é o funcionamento de uma fábrica de rolos enormes de papel que, posteriormente, serão usados por diversas gráficas. E, numa dessas, podem até se tornar um livro ou uma revista em quadrinhos. Vejam a metalinguagem! Coisas que só os quadrinhos fazem para você!

EU ODEIO CONTOS DE FADAS, VOLUME 4: INFELIZES PARA SEMPRE, DE SKOTTIE YOUNG
Este é o último volume de Eu Odeio Contos de Fadas (pelo menos até onde sabemos), em que Gert se encontra no Inferno ou, melhor, em uma longa e eterna estadia no Mundo das Fadas. No entanto, uma alternativa se abre quando o próprio Inferno está visitando a Terra das Fadas e somente Gert é a força capaz de enfrentar essa ameaça. Então, os comandantes da Fadolândia irão fazer com que Gert aceite essa proposta, prometendo a ela o que nunca mais tinha ousado sonhar: retornar a sua vida antes de desejar viver para sempre na Terra das Fadas. Temos aqui mais um ótimo trabalho de Skottie Young no mundo descarado, gore e cheio de fofação que criou e um encerramento digno para toda essa epopéia nonsense que vivemos ao lado da protagonista Gertrude. Também vale lembrar que Eu Odeio Contos de Fadas teve um ótimo trabalho de edição brasileira pela Hyperion Comics.

HELEN DE WYNDHORN, DE TOM KING, BILQUIS EVELY E MATHEUS LOPES
Esta é uma história em quadrinhos simplesmente empolgante. Eu já havia gostado muito da colaboração do trio King, Evely e Lopes em Supergirl: Mulher do Amanhã, mas Helen de Wyndhorn é de tirar o fôlego. A cada página queremos saber mais sobre a saga e o destino da garota que é abordada por uma preceptora desconhecida encarregada de levá-la à mansão do avô depois que o pai dela se suicida. Descobrimos que as histórias que o pai se tornou famoso por escrever sobre um bárbaro guerreiro podem não ser tão fantasiosas assim. A trama, os desenhos primorosos e as cores fantásticas acionam nossa adrenalina e o afã de descobrir mistérios e nos carregam a um mundo de possibilidades infinitas, sobre as quais ficamos nos indagando o que é real e o que não é e como tudo isso influenciou o surgimento e a criação de Helen de Wyndhorn. O roteiro de King, os desenhos de Evely e as cores de Lopes, todos fazem um conjunto de maravilhamento que deixa o leitor encantado, tal qual o mundo de fantasia que muitos duvidam ter realmente existido. Ótimo!

HOJE É UM BELO DIA PARA MATAR, DE PATRICK HORVATH
“Hoje é um belo dia para matar” é um título que não tem nem o mesmo impacto nem o mesmo significado do original, “Under the trees where nobody sees”, mas são escolhas editoriais, certo? Assim como a capa catchup e mostarda do McDonald’s. Apesar disso, nada tema, a experiência de leitura não é prejudicada! Esta é uma bela HQ para matar! Matar sua curiosidade em saber quem mais anda assassinando pessoas na cidadezinha de Sam, a ursa. E que não é ela, pois ela toma todos os cuidados e esconde os corpos sob as árvores onde ninguém vê! Quem está tomando o seu lugar de principal assassina e por que seus modos são tão grosseiros como se estivesse tentando desesperadamente chamar a atenção de alguém? Sam se torna, então, de assassina a investigadora de crimes. A gente parece estar vivendo um episódio de A Nossa Turma, só que com muito mais sangue e crueldade. Muitas reviravoltas e momentos inesperados esperam o leitor no processo de leitura desta história em quadrinhos.

LA CAZADORA DE LIBROS, DE PABLO DE SANTIS E MAX CACHIMBA
Meu irmão comprou este quadrinho na área internacional da Feira do Livro de Porto Alegre no ano passado e me deu de presente. La cazadora de libros é um quadrinho fora do comum (embora seja da editora Común, a mesma de Macanudo). Parece ter sido criada para Instagram, já que a grande maioria das páginas é formada por um grid de quadrados. Parece ser retrô, mas tem um traço simplificado. Parece ser infantojuvenil ao mesmo tempo que parece também adulta. Sem dúvida, é um quadrinho divertido, cheio de quadrinhos sobre bibliotecas, livros, leitura e aventuras da caçadora de livros, que, na verdade, é uma bibliotecária, nesse universo. São cinco histórias da caçadora e todas elas me arrancaram algumas boas gargalhadas. Achei um quadrinho sensacional e seria muito legal que alguma editora brasileira trouxesse esse material para o Brasil. Já conhecia o trabalho tanto nos quadrinhos como nos quadrinhos de Pablo de Santis e sabia que era sinônimo de alta qualidade. Conheci agora do que Max Cachimba é capaz de fazer e a dupla constrói uma obra diferente do que está por aí e que não dispensa a linguagem dos quadrinhos, mas faz uso dela para que essa publicação fique ainda mais incrível.

POR UMA FRAÇÃO DE SEGUNDO: A VIDA MOVIMENTADA DE EADWEARD MUYBRIDGE, DE GUY DELISLE
Guy Delisle, para mim, é sinônimo de quadrinho que merece cinco estrelas. Por uma fração de segundo, não explora somente a vida do fotógrafo e inventor Eadweard Muybridge. Ele traz, no formato de quadrinhos, a trama da invenção da fotografia e as contribuições desta figura incomum até que, finalmente, os seres humanos são levados à invenção do cinema. Então, dessa vez Delisle desenvolve um quadrinho-documentário, que também é uma biografia, e que se diferencia muito de suas obras anteriores, focadas na sua própria vida. Temos diversos momentos em que a narrativa dos quadrinhos se torna perfeita para contar uma história sobre cinema e fotografia. Por uma fração de segundo deveria constar nos cursos de Comunicação e de Cinema, como uma leitura obrigatória, porque ensina melhor que muito professor por aí. E nos deixa bem mais satisfeitos e por dentro da história dessas formas e meios de comunicação, que hoje em dia estão indissociados das dinâmicas da rede mundial de computadores, a internet.

POWERBOMB! FAÇA UMA SUPERBOMBA, DE DANIEL WARREN JOHNSON
Comprei despretensiosamente esse quadrinho nas Livrarias Catarinenses buscando uma leitura diferente, mas não tão diferente, sabe como é? Como tinha gostado dos trabalhos do Daniel Warren Johnson com a Mulher-Maravilha e com o Bill Raio Beta, fui entender como ele era no modo autoral. O veredito foi muito positivo. Temos em Powerbomb! não apenas um belo quadrinho de aventura, mas que também tem uma camada sentimental, de uma história em quadrinhos com um propósito, um pacto com o leitor. Eu me lembro de me pegar me ajustando na cama para ler melhor o quadrinho de tão empolgado que estava. Temos aqui uma história em que uma menina busca reviver sua amada mãe que foi morta por acidente numa luta livre. Para atingir esse objetivo, ela precisa se aliar com o lutador que foi responsável por essa perda. Mas as reviravoltas não param por aí e até Deus duvida do que mais pode acontecer nessa HQ superinteressante. Minha interação com essa HQ certamente vai me fazer buscar outros trabalhos de Daniel Warren Johnson e ficar de olho em seus trabalhos futuros.

RESTA UM, DE JORDAN CRANE
Resta Um talvez tenha sido o quadrinho mais celebrado pela gibisfera brasileira em 2025, vindo por uma editora que não costuma ter títulos muito visados. Este quadrinho demorou vinte anos para ficar pronto, mas é uma narrativa minimalista usando indefectivelmente um grid de seis quadros. Trata-se de uma história sobre um casal em crise lendo um livro sobre outro casal em crise. Mas eu poderia dizer que é um livro sobre espera, expectativa e frustração. Algo que permeia muito a vida cotidiana do ser humano no início do século XXI, principalmente na forma como nos relacionamos. Estamos entregues de bandeja nas mãos daqueles que amamos, simplesmente porque os amamos e esperamos algo deles. Às vezes, nem sabemos o que esperamos deles, quiçá, deles de nós. As sequências de imaginação de Resta Um ilustram bem isso, de como os seres humanos estão presos aos seus achismos, às suas percepções e expectativas, que quase 90% das vezes são frustradas. E como estão cansados desse círculo. Seja pela sua narrativa envolvente, seja por seu recorte de um sentimento real, da realidade, Resta Um vai do minimalismo ao maximalismo.

SHMOO, DE AL CAPP
As aventuras de sucesso desenvolvidas por Al Capp já foram nomeadas no Brasil como Família Buscapé e Ferdinando. Originalmente, Lil’Abner, elas voltam ao Brasil numa roupagem luxuosa e inédita depois de ausentes das lojas por mais de trinta anos. Neste especial, a Veneta traz as histórias relacionadas com o Shmoo, uma das criações mais geniais de Capp, ainda durante a Guerra Fria. O Shmoo seria uma metáfora para a panacéia universal. Ele resolveria a fome do mundo porque todo seu corpinho servia para alimentar a todos, e de vários sabores, de vários preparos, e se reproduziam com uma velocidade que nunca faria faltar substrato. Mas o fim da fome mundial ameaça as indústrias e o capitalismo, então uma caça ao Shmoo e seu extermínio massivo são incentivados. As críticas sociais de Capp são precisas, mordazes, eficazes mesmo nos dias de hoje; elas não ficam datadas. São um retrato da ganância e da necessidade humana, cada uma puxando um lado do cabo de guerra. Este quadrinho também traz um glossário sobre as histórias e criaturas de Al Capp, assinado pelo editor original, Denis Kitchen, que torna essa publicação ainda mais especial.

STRIA, DE GIGI SIMEONI
Temos em Stria um belo exemplar de quadrinho de terror italiano produzido para a Sergio Bonelli Editore por Gigi Simeoni. O nome stria quer dizer bruxa e nesta história somos levados entre o passado e o presente para entender como uma lenda de uma mulher sobrenatural afetou as vidas de três então crianças, entre as décadas de 1980 e 1990, para os dias de hoje, com eles já por volta dos quarenta anos. O problema nessa história toda é que eram três crianças, e somente duas estão por aí no presente, sem se lembrarem do que aconteceu com elas no início da adolescência e sem vestígios do amigo perdido. As alucinações que Ciara vem tendo levam somente a uma conclusão, a stria, a bruxa da região, foi responsável pelo sumiço do amiguinho. Com muitas tonalidades de suspense, de gore e de terror, o quadrinho constrói uma atmosfera de perigo iminente, que vem perseguindo a todos desde o passado, como se devessem, para seu amigo, a resolução desse impasse e encontrar seu corpo perdido. Um ótimo quadrinho de horror que não abusa dos elementos assustadores nem subestima o leitor, se você curte esse gênero e também o formato fumetti, recomendo.

TEXAS KID: MY BRO, DE IGOR KORDEJ E DARKO MACAN
Texas Kid, my bro é o quadrinho de estreia da editora Poptopia no Brasil. Ele traz dois conceituados autores croatas, Igor Kordey e Darko Macan, que já trabalharam juntos na Dark Horse Comics e na Marvel Comics. Nesta história em quadrinhos, eles nos apresentam o clássico embate da ficção com a realidade. Mas de uma forma diferente: o pai precisa fazer uma escolha (para ele, nada difícil) entre seu filho biológico e seu filho criatura ficcional, o cowboy durão Texas Kid, que foi desenvolvido com base em suas experiências pessoais. Além de discutir as barreiras entre criatura e criador e entre pais e filhos, este quadrinho também apresenta uma reflexão sobre os modelos de masculinidade que nossa sociedade escolhe seguir, como os moldes desenvolvidos pelos cowboys, como Texas Kid. A arte de Igor Kordey está melhor do que nunca aqui nesta edição, principalmente ao compará-la com seus trabalhos na Marvel. Enfim, Texas Kid, my bro, deve figurar entre as melhores leituras que fiz este ano. Escreverei mais sobre esse trabalho da dupla de croatas oportunamente.


Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges
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