Irka Barrios transforma mistério médico em thriller sobre território, desejo e devastação ambiental
Edição: Vitor Diel
Foto: Divulgação
É com uma sensação de desconforto, como se algo estivesse sempre prestes a acontecer, que a escritora Irka Barrios conduz seu novo romance, publicado pela Autêntica Contemporânea. Depois dos lançamentos na Casa da Feira do Livro de Porto Alegre na Flip; em Porto Alegre e Curitiba, a autora promove seu novo livro em Recife, no dia 14 de agosto, às 19h, em bate-papo com Patrícia Gonçalves Tenório, seguido de sessão de autógrafos, na livraria Leitura do Recife Shopping (R. Padre Carapuceiro, 777).
A cidade que dá título ao livro parece, à primeira vista, apenas mais uma pequena localidade de fronteira, com suas ruas de terra avermelhada, relações próximas demais e uma vida cotidiana atravessada pelo rio. Mas basta a chegada de Ana, médica contratada para investigar uma enfermidade desconhecida, para que a paisagem revele suas zonas de sombra.
Rapidamente ela descobre o chamado Mal-do-Rio, que afeta os moradores com sintomas variados: manchas na pele, febre, dores, convulsões, feridas que não cicatrizam. A doença, porém, logo deixa de ser apenas um enigma clínico. Em Porto Alba, os corpos adoecidos parecem carregar também a história de uma população ameaçada pela construção de uma hidrelétrica, projeto que promete progresso, mas pode submergir boa parte da cidade e obrigar famílias inteiras a abandonar suas casas.
Ana chega como alguém de fora, amparada pela autoridade da medicina e da ciência. Sua missão é compreender a origem da doença, organizar dados, examinar pacientes e produzir respostas. Mas Porto Alba não se deixa decifrar com facilidade. A cada consulta, conversa ou travessia pelo rio, novas versões surgem. Os moradores sabem mais do que dizem. A companhia responsável pela hidrelétrica parece interessada em controlar a narrativa. E a própria médica, aos poucos, passa a desconfiar de que a doença talvez seja menos simples e mais politica do que imaginava.
É dentro desses silêncios que o romance ganha força. Porto Alba começa como thriller médico, mas se expande para um território mais ambíguo, em que investigação científica, horror corporal, crítica ambiental e desejo se contaminam. Irka Barrios constrói uma atmosfera úmida, física, quase febril. Há sangue, suor, álcool, pele ferida, cheiro de rio, lama, calor e presságios. A doença está nos corpos, mas também nas relações de poder, nas promessas desenvolvimento e no medo de desaparecimento coletivo.
Ao redor de Ana, personagens como Babilônia, Bete, Tomás, Verón e Rubens dão densidade à cidade. Babilônia, especialmente, surge como uma figura magnética, teatral e trágica, espécie de guia informal de Ana nesse território em que a razão médica parece sempre chegar atrasada. Tomás, com sua ferida no rosto e sua ligação silenciosa com o rio, introduz outro tipo de perturbação: do desejo, que desloca a protagonista de sua posição de observadora e a aproxima perigosamente daquilo que deveria investigar.
A fronteira é um dos grandes motores simbólicos do romance. Porto Alba está entre países, entre línguas, entre legalidade e contrabando, entre ciência e superstição, entre pertencimento e expulsão. O rio, que separa e conecta, é também ameaça, passagem e memória. Ao escolher esse espaço liminar, Irka Barrios cria um cenário em que tudo parece instável: os diagnósticos, as alianças, as intenções e até a percepção da protagonista.
Sem transformar os moradores em vítimas passivas nem os agentes externos em vilões unidimensionais, o livro aposta na complexidade moral. A comunidade resiste à hidrelétrica, mas essa resistência também envolve segredos, encenações e estratégias pouco transparentes. A pergunta que marca o romance não é apenas “o que causa o Mal-do-Rio?”, mas até onde uma comunidade pode ir para defender o próprio território.
Sobre a autora
Irka Barrios nasceu em Tuparendi (RS), em 1974. Doutora em Escrita Criativa pela UFRGS (2025), é autora de Lauren (Caos & Letras, 2019), Vespeiro (DarkSide Books, 2023) e Júpiter Marte Saturno (Zouk, 2025). Sua obra recebeu os prêmios Amazon/Jornal O Globo Brasil em Prosa (2015), Odisseia da Literatura Fantástica (2022), Jacarandá (2024), Academia Rio-Grandense de Letras (2024) e Associação Gaúcha de Escritores (2023 e 2024). Lauren foi indicado ao Jabuti em 2020. Desde 2021, organiza o Clube de Leitura Escuro Medo. Em Porto Alba, retorna ao universo do suspense e do fantástico com uma narrativa sobre mistério, território e sobrevivência.

Porto Alba
Irka Barrios
216 p.
R$ 69,80
Autêntica Contemporânea
Comprar aqui
Apoie Literatura RS
Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.
