Inédito: “A zona da invisibilidade”, de Alessandro Garcia

Fim da década de 80. O Brasil se prepara para eleger seu primeiro presidente por meio do voto direto. Mariano mora com sua família na Vila Andrade, um conjunto habitacional no subúrbio criado para manter bem do longe do centro da cidade a massa de trabalhadores que chegava do interior do estado. Seus pais — cujo casamento parecia a romântica realização de dois jovens idealistas — estão colocando em prática todas as habilidades conhecidas para se odiarem simplesmente por que existem. Quando Peter e sua família rica estranhamente se mudam para o bairro, Mariano acha que ganhou um melhor amigo; mas só estava descobrindo, cedo demais, qual a idade para um garoto negro perceber que provoca aversão.

Num cenário de efervescência cultural do movimento black americano, que encontra seus tentáculos em um bairro iminentemente negro, cresce uma amizade inusitada em meio ao hip-hop e aos quadrinhos, a jogos de taco, às incursões na bolha mágica que é a vida de Peter, à desestruturação familiar e à descoberta do que é crescer num subúrbio — até que tudo é interrompido por uma tragédia na adolescência.

“A zona da invisibilidade”, livro em fase de finalização por Alessandro Garcia, é um romance de formação, que, ao mesmo tempo em que acompanha Mariano da infância à vida adulta, quando se torna um escritor em busca de ajustes com a tragédia do passado, também é um épico do início do período democrático brasileiro, expondo dramas pessoais, crises conjugais e conflitos interiores. Um painel social repleto de referências pop, que visita a infância para tentar iluminar o presente. Confira um trecho abaixo.

Primeiro você só acha que eles falam coisas que não se pode compreender.

Talvez uma outra língua qualquer, um vocabulário a ser apreendido ao longo de sua trajetória. Quem sabe uma sonoridade a que você se acostumaria conforme o tempo de exposição. Pode ser simplesmente pelo fato de que você é jovem demais e há ali um idioma repleto de idiossincrasias com as quais você talvez não devesse se importar, não lhe diz respeito.

Mas então você percebe outra coisa.

Que a conversa deles é como uma sinfonia cuja complexidade você não compreende, mas lhe encanta. Uma dança gentilmente travessa composta de pequenas mesuras, concessões entre um emissor e um receptor — e logo este último também se torna emissor, quando aquele se cala e ouve a cadência suave e compassada, paciente, sem atravancar o movimento com nenhuma informação nova, esperando sua vez. Um espetáculo de regras pré-determinadas às quais todos parecem muito conscientes e respeitosos. E isto é surpreendente para você: onde estão as interrupções, as opiniões querendo se impor umas sobre as outras, ignorando argumentos e buscando a vitória pelos decibéis? “Ei, mas eu não concordo com isto!”.

Nada.

Nenhum prenúncio de discussão neste mundo. Às vezes as palavras escapam dali, daquele pequeno espaço de conversação onde estão contidas, e a sonoridade — suave, tão distante dos alaridos e justaposições ruidosas com que você está acostumado — movimenta-se em pequenos volteios que você não vê, é obvio, mas imagina como diminutos espirais, formas orgânicas fluidas e macias como devem ser as nuvens, flutuando suavemente até chegar aos seus ouvidos. Fazenda, Maceió, Cardigãs De Inverno, Férias Na Europa, Mensalidades Da Escola, Curso De Inglês, Intercâmbio Cultural: são estes os fragmentos que lhe alcançam. São estes os códigos sobre os quais você não tem referência suficiente para se atrever a querer entendê-los.

É aí então que você tem certeza de que eles falam coisas que não se pode compreender. Que você não pode compreender.  

É bem provável — e isto você tem já maturidade suficiente para concluir; se não maturidade, um instinto qualquer, um repertório ainda que ínfimo, natural, de pequenos elementos que lhe permitem definir assim — que você não compreende porque não pertence a este mundo. Você sequer foi convidado. Acha que foi, mas não é deste jeito, não. Você se estabeleceu. Foi ficando por ali, sendo aceito e, portanto, arrastado. Permitido, talvez seja esta a palavra. Então se permitiu que você escutasse sobre um mundo que é distante demais de você. Ótimo! E agora, o que você faz com isto? Com mais este universo novo que se revelou na casa de Dani, nesta tarde de domingo, onde você está agora?

Porque o que Mariano respondeu quando Peter perguntou:

Ei, vamos até a casa de Dani?,

não foi (o que talvez fosse a resposta certa, mesmo que pelo vício de linguagem que responder a uma pergunta com outra pergunta representaria):

Quem é Dani?

Se tudo era parte de outra coisa, se cada segundo do dia na companhia do Peter era a senha pré-estabelecida para se conhecer algo novo, então este não é o tipo de questionamento que alguém como Mariano, ansioso para apreciar toda recôndita fenda daquele mundo, faria ante a expectativa de uma grande aventura. O que ele respondeu foi:

Vamos.

E Mariano foi.

Sem mais.

Guardando silêncio, fazendo questão que não lhe fosse entregue nenhum teaser. Porque era outro lugar e era isto que importava: entrar na máquina de tele transporte — a Ford f1000 cabine dupla do pai de Peter, de um preto que refletia a mal disfarçada suspensão de expectativas no rosto de Mariano — e desembarcar num outro bairro naquela tarde de domingo.

Como chegara até ali, que bairro era aquele, qual o caminho percorrido, como voltaria se algo desse errado, a que distância estava de casa, Mariano não fazia ideia. Deixava-se ser abduzido para este outro lugar que não podia ter nada de ameaçador. Não, isto não seria possível. Um lugar assim onde todos esperam as opiniões serem completamente emitidas pelo outro antes de expor as suas próprias não podia ter nada nem de vagamente ameaçador.

Ameaçadoras eram as descobertas, minuto a minuto, de Mariano.

Estar na presença de Peter era ter a garantia que suas certezas, referências e ícones poderiam ser derrubados ruidosamente e sem misericórdia alguma, sem que para isto fosse preciso algum gesto mais extremo além de abrir um vidro de geléia de uma fruta que você nunca ouvira o nome nem tinha a mínima noção da existência. Uma constante explosão de conhecimento. E era a casa de Peter, até este momento, o palco ao qual Mariano ia diligente e conscientemente visitar para ver seu conhecido mundo ruir. Suas referências serem estraçalhadas. Na rua, seu reino descascado, ele era o protagonista. Na presença de Peter, em qualquer um dos espetáculos que ele estivesse disposto a lhe encenar, era só um microscópico satélite gravitando insistentemente em sua órbita, ansioso por qualquer informação, por recolher qualquer microbyte de novidade que pudesse adicionar ao seu fichário invisível.

E agora isto: descobrir que a casa de Peter não era o único compartimento para outro mundo.

Aquilo deveria ser uma das muitas cápsulas plantadas ali; a casa de Peter calhara de ser acoplada ao seu bairro, em sua rua. Um chamariz, uma espécie de portal onde tudo é muito maior que seu exterior fazia crer. Como a barraca do Chapolin Colorado, só que ao contrário: ao invés de saírem objetos gigantescos de um minúsculo refúgio, era quando se entrava na casa de Peter que você se dava conta de que suas noções de proporção eram reduzidas a zero e de que você era ainda menor do que imaginava.

Então a casa de Dani era outra cápsula, uma realidade paralela. Mais um monólito pronto para surpreender um embasbacado Babalu se estivesse ali e um deslumbrado Mariano que ali estava —; a casa de Dani era outro sistema de identidade para lhe proporcionar novos conhecimentos.

É aos dez anos de idade — dentro de uma realidade paralela pronta para fascinar você, mas não aprisioná-lo, porque você é um corpo estranho, em um outro bairro no qual você nunca foi, rodeado de espessos queijos brancos no café da tarde e chocolate de um tipo que não forma uma crosta boiando na superfície do leite e jogos eletrônicos e móveis que cheiram a lavanda e pessoas que falam coisas que não se pode compreender —, esta é idade aceitável para um garoto negro descobrir que provoca aversão.

Por que não ficou no conforto da realidade e dos braços de Dedé? Por que foi penetrar naquele mundo naquela tarde de domingo, aquele mundo no qual mesmo o que você sabia a respeito de tramas que pareciam conter o que havia de mais irreal — e fascinante — não se igualava ao que tinha ali de mais incompreensível — e cruel?

Das diversas realidades, esta é muito mais distante, inédita talvez porque Mariano não tivesse lido ainda os livros certos.  Uma realidade imprevisível como são as boas tramas.

Mas vamos considerar assim: um escritor precisa ser muito habilidoso para conseguir envolvê-lo em sua história de maneira que você se identifique profundamente com o personagem. Identificar-se talvez seja pouco. Para que você sinta o que o personagem sente. E naquela tarde de domingo a casa de Dani estava repleta de personagens.

Você poderia escolher entre os mais diversos tipos, alguns que pareciam simulacros daquelas tramas repletas de Wall Street, Férias no Colorado, Julgamentos na Suprema Corte e quetais que andavam embalando as tarde de Mariano; outros, provavelmente figurariam em um dos exemplares novelescos que sua mãe fazia questão de esconder na fileira de trás da estante: canastrões de tamanha grandeza que era praticamente inimaginável crer que escapariam de páginas amareladas e puídas para se estabelecerem ali, ao alcance dos olhos, ouvidos e nariz de Mariano.

Inverossímeis.

Seres humanos que gravitavam ao seu redor como se flutuassem, a mão com design sob medida para aparar um copo pesado de bebida amarela, tilintando gelo, sem comprometer nenhuma Técnica-de-Conversação-Aleatória, os corpos em ângulos muito ágeis para para não tocá-lo caso você se pusesse em seus caminhos. Jovens empertigados e louros demais dentro de blusas com gola rulê. Frustrados pianistas relembrando sem constrangimento lições escavadas da memória dos cinco anos de idade quando suas avós se dedicavam a tentar imprimir-lhes algum conhecimento musical. Tiozinhos calvos só aparentemente simpáticos fazendo solenes acenos de cabeça para ninguém, talvez para o retrato da parede em frente. Senhoras reunidas em bando num canto distante da sala, apontando com o queixo umas para os filhos das outras e perguntando de que marca é o cardigã ostentado por um bebê. Crianças maiores e menores do que Mariano, correndo com o cuidado suficiente para não terem suas atenções chamadas pelas mães. Empregadas domésticas entrando em silêncio na sala com mais queijo branco, mais taças limpas e mais estranha cumplicidade com Mariano do que qualquer um dos presentes. Uma velha cheirando a patchouli. Duas primas mais velhas de Dani cujos graus de gostosura não escaparam a seu olhar já acostumado com as referências estéticas aprimoradas depois de tantas edições de camufladas revistas masculinas. E os pais de Dani, um casal esforçado cuja disposição em parecer amistoso para com Não-Convidados Acompanhantes de Convidados do Aniversário de Dani se assemelhava a de alguém encurralado em um canto por um cão raivoso.

A casa estava repleta de personagens.

E o papel do Não-Convidado cabia a Mariano. Que, fazendo jus à ignorância total e irrestrita com que aceitara ser conduzido até ali por Peter, não fazia a menor ideia de tratar-se da tarde de comemoração do aniversário de Dani.

Talvez o personagem de Mariano fosse inverossível demais para que você conseguisse identificar-se com ele.

Quem vai se importar com o garoto negro de dez anos em uma festa onde, obviamente, ele não deveria estar?

Ou então: Mariano foi ignorante demais para imaginar que não deveria estar ali? Que sua amizade com Peter só deveria existir até o limite onde estivesse em perfeita segurança — e seu reino descascado era, obviamente, o círculo neutro em cujo centro a amizade daqueles dois deveria se desenvolver. E só.

No entanto, Mariano resolveu ir mais distante, sair do círculo. Porque nenhuma das opções anteriores, talvez, e ele era, na verdade, corajoso (ou insolente) demais e que se dane? Mas Peter não estava por perto — onde a porra do Peter se metera, afinal de contas? — com nenhum manual de instruções para ensiná-lo a como se comportar dentro daquela cápsula, como proceder na hipótese daquilo se tornar real, alguém surgir e perguntar, como alguém surgiu e perguntou

Ô, mulatinho, o que é que você faz aqui?

O que é que você faz aqui: ele podia dizer que se aventurava em uma cápsula que não lhe pertencia mas era irresistível demais para que não a adentrasse. Que estava ali para ouvir histórias de Fazenda, Maceió, Cardigãs De Inverno, Férias Na Europa, Mensalidades Da Escola, Curso De Inglês, Intercâmbio Cultural e estocá-las em sua imaginação sedenta de novas informações — afinal, não era sempre que tinha, ou melhor, quase nunca tinha oportunidade de ouvir histórias assim. Que prestava atenção em uma multidão de personagens que pareciam saídos dos livros da sua mãe enquanto seu amigo Peter estava ocupado demais em algum canto da casa. Ou que — e talvez isso fosse mais verdade e ter sido questionado sobre sua função naquele lugar ao menos tenha tido o efeito positivo de fazê-lo finalmente dar-se conta disto — esperava que sua presença ali fizesse algum sentido para ele mesmo. Na verdade, não considerando a situação extremamente desfavorável com que foi interpelado com tal questionamento, ao menos naquele instante (uma suspensão do tempo, uma bolha capaz de enclausurá-lo pelo período suficiente para que chegasse a esta conclusão) um novo desafio mental se estabelecia entre ele e o sentimento de autocomiseração que parecia ser seu único acompanhante naquela tarde. E aquele desafio mental, uma bolha que, mais do que enclausurá-lo, o protegia numa dimensão alheia a de quem o questionava por um período que seria incapaz de mensurar porque, no fundo sabia, esta bolha e esta proteção não existiam, desdobrava-se em uma riqueza de significados que, caso ele não tivesse repertório suficiente para sentir-se ofendido, era capaz de fasciná-lo.

O que é que você faz aqui: pergunta difícil, já que aquele bairro não lhe pertencia. Na verdade, não sabia nem onde estava. Qualquer resposta que envolvesse um argumento geográfico (“Estou só de passagem.”) seria desonesta. Era só um agregado pronto para o divertimento, e fingir que sua atitude de ignorar o contexto da situação onde estava se enfiando o livraria de suas consequencias era ingênuo demais mesmo se ele se julgasse realmente merecedor de estar ali.

O que é que você faz aqui: eu vim com o Peter. Não seria uma resposta aceitável. Ela não perguntou com quem você veio até aqui. A pergunta dela trazia incrustrada, era verdade, a certeza de que não importava como ele chegara, com quem chegara. Mas que raios ele tinha na cabeça para achar-se no direito de estar ali? Sua pergunta guardava, com objetividade, dois insultos aos quais ele não sentia-se preparado para rebater a não ser em forma de uma resposta que sempre seria genérica/idiota/gaguejante/inadequada. Eram dois insultos sobre questões acerca das quais não tinha controle para dar a resposta certa.

O que é que você faz aqui: havia uma resposta certa para isto? É claro que não havia nada que fosse fazê-la concordar e rebater com algo como ok, seja bem vindo. Você está servido de suco?, então talvez só lhe restasse uma resposta que parecesse a menos imbecil possível. Ou que contivesse o mínimo de sarcasmo suficiente para protegê-lo. Mas talvez nesta idade Mariano ainda não dominasse a arte do sarcasmo. Só que ele sabia: aquela dor que começava a sentir no estômago era menos pelo temor em dar uma resposta inadequada do que pela certeza de que não importava sua resposta: ele não era bem vindo ali. Mesmo se a resposta fosse “para comemorar seu aniversário!”, “para dividir a alegria desta data com você!”. E por que? A primeira parte daquela pergunta já era a resposta a isto — mulatinho.

Ô, mulatinho, o que é que você faz aqui? Ela conseguira encaixar loucamente na mesma questão o coeficiente que anularia qualquer resposta sua. Ou ele precisaria ser muito, mas muito safo para engendrar uma resposta que anulasse aquele vocativo — mulatinho — e lhe desse uma espécie de green card. Uma resposta tão satisfatória que faria com que aquela constatação racial — errada, isto era preciso frisar — fosse sublimada (“O mulatinho deu uma bela resposta! Vamos deixá-lo por aqui. Você está servido de suco?”).

Era verdade que a linha entre mulato e negro nem sempre era muito nítida: detalhes sutis estavam sempre prontos para erodi-la e era preciso estar atento a eles. Talvez ali fosse o caso de facilitar a vida de sua interlocutora. Ou será que sua interlocutora empregara aquele termo por achá-lo um tanto mais ofensivo, algo próximo de um seu crioulo? Ela tinha um grande talento, assim como seu Hélio, para chamar negros da maneira que nenhum negro gosta de ser chamado.

Provavelmente ela achava que tascar um seu negrinho, o que ele era, um negrinho, era lugar-comum demais. Pouco cruel? Ou ela só não tinha mesmo conhecimento das nuances, porque eram pequenos detalhes que poderiam fazer um parco conhecedor cometer o erro que ela cometia agora. Mas ele sabia que sua tez só um tanto mais clara e os cachos soltos, não teria importância para ela. Ela não parecia nem um pouco disposta a uma explanação sobre sutilezas da miscigenação racial. Só que ele lhe desse uma justificativa para sua presença não-solicitada.

Justo, era a dona da casa, Dani. E ele, o intruso.

Mas o intruso não tinha o gabarito com as respostas corretas, então ele foi ingênuo e respondeu a uma questão que ninguém perguntou

Eu — vim com o Peter.

Com o Peter?

Um ponto para Mariano! Ela não rebateu com a insolência que imaginara (“Eu não perguntei com quem você veio!”). Ficou feliz em saber que a superestimara um tanto e fez cálculos mentais para tentar descobrir qual seria seu próximo questionamento. Uma loirinha ao lado da questionadora fez cara de que ia vomitar se não a levassem logo para passear no shopping. O velho simpático que parecia fazer solenes acenos de cabeça para retratos, continuava acenando, simpático, para retratos.

É, o Peter. Nós somos — amigos.

Você é amigo do Peter?

Ele acabara de dizer que sim! Era uma pergunta retórica ou mais um de seus desafios para os quais Mariano nunca saberia se tinha a resposta certa? O sorriso dela no canto da boca não ajudava muito a elucidar a questão, mas ele tinha a suspeita que o indubitável contraste de sua pele com a de Peter a deixava cheia de dúvidas quanto à probabilidade daquela amizade.

É, sou.

E de onde vocês se conhecem?

Bem, ele é meu vizinho.

Ah, entendi.

E fez cara de quem não entendeu, olhando para o lado, parecendo querer contar com algum tipo de cumplicidade de sua coadjuvante loira, como se esperasse que a outra levantasse a mão e comemorassem com um high five a extrema sutileza de sua ironia. No entanto, sua companheira parecia mais encantada com a complexidade de suas próprias cutículas.

Então você mora naquela — vila?

É. Eu e Peter moramos lá.

Eu até entendo que você more lá, já o Peter…

Ele não tinha como rebater. Era o intruso. E ela não falava uma inverdade: talvez tivesse mais conhecimento sobre os dados demográficos do seu bairro do que ele imaginava e só externava o que todo mundo vivia pensando, o quão estranho era a família de Peter ter ido morar naquele bairro. E agora Peter e sua família traziam um pedaço do bairro para a festa dela.

Você é a Dani?, perguntou Mariano com uma voz que parecia a de um outro garoto. Ficou com medo de que, pelo seu tom, ela achasse que ele a confundia com alguma celebridade.

É claro que eu sou a Dani! Quem mais eu poderia ser?

É claro que você é a Dani!, reforçou Mariano com uma simpatia forçada um grau acima do que calculara. É só que…

Só que o quê?

Bom, feliz aniversário.

Aham.

E desculpe por aparecer sem ser convidado.

Aham. Escuta, se você puder, vê se não fica passeando pela casa inteira. O pessoal pode estranhar se, bom, você sabe.

Sei o quê?

Olha, nada, é só que é…

Esquisito!, gritou a coadjuvante loira, parecendo acordar-se de uma letargia profunda.

Isso! É… esquisito! Você entende, né?

Mariano levantou a sobrancelha esquerda em não-concordância muda. Sua carapaça de isolamento parecia que trincava a cada nova palavra daquela menina. Não sabia quanto tempo ainda resistiria sem que a dor na barriga o fizesse sucumbir por completo. Os golpes de aversão com que a garota martelava sua carapaça estavam prontos para estraçalhá-la.

Ótimo, então. Vou chamar o Peter pra você. E pedir pra Fátima trazer um suco. Aliás…

O quê?

Você não é parente da Fátima?

Fátima?

Isso, Fátima.

Eu não… eu não conheço.

Que pena. É a empregada, que vai trazer o suco pra você. Achei vocês bem parecidos. Enfim. Fique à vontade.

Ou não!, cacarejou sua companheira de performance, saindo atrás de Dani como se segurasse a barra do longo vestido imaginário da amiga.

Alessandro Garcia nasceu em Porto Alegre, em 1979. Autor de “A sordidez das pequenas coisas” (Não Editora, 2010), livro finalista do Prêmio Jabuti, já publicou em diversas coletâneas e tem contos traduzidos para o inglês e o espanhol. Em 2019 lançou o podcast Negro da Semana, no qual conta a história de grandes escritores, músicos, atores e cineastas negros. www.alessandrogarcia.com

Literatura RS

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