Ana Paula Cecato: A literatura como experiência

Certa vez, eu tive uma turma de alunos de sexto ano que era muito complicada. Se eu digo que era complicada, era porque era mesmo – tenho dez anos de experiência com sextos anos, e acho a melhor série/ano para ser professora. Voltando: era uma turma em que não dava para propor nada: eles se engalfinhavam pela sala, se xingavam, era um horror. Era uma turma predominantemente masculina, formada por alunos com histórico de reprovação, estigmatizados pelo sistema escolar e pela vida, com seus caminhos trágicos.

Como sempre, levava muitos livros para eles. Tentava fazer a leitura compartilhada, em que pudessem ler em voz alta, mas não rolava. Eles não paravam para fazer a leitura individual ou socializada. Foi aí em que eu me propus a ler para eles um conto: A diaba e sua filha, de Marie Ndiaye, editado pela Cosac Naify. O conto narra a história de um mulher que está à procura de sua filha e de sua casa que desapareceram. Ela bate nas casas, de início é atendida, mas, quando as pessoas se deparam com os pés da mulher, que são cascos de cabra, a mulher é afastada da comunidade. Torna-se, assim, aos olhos dos outros, a diaba que está procurando a sua filha. Não darei spoiler de como termina o conto (essa maldade eu faço de vez em quando), mas o que ficou de lembrança foi o silêncio daquela turma enquanto eu lia o conto. Eu vi lágrimas nos olhos de alguns alunos, eu me emocionei também (o que não é difícil). Houve uma baita identificação deles com a personagem “diaba”, discriminada, marginalizada, que só estava em busca da filha e de um lar, o que apareceu na conversa que tivemos após a leitura.

Tenho outras histórias legais para contar como essa, mas, para deixá-las para outra oportunidade, quero hoje defender que a literatura pode ser muita coisa, mas que, como mediadores de leitura de sala de aula, podemos oferecê-la como uma experiência, conforme afirma o professor Jorge Larrosa (2002), como “algo que nos toca, nos acontece”, não como “algo que toca, que acontece”. Aqui o uso do pronome oblíquo faz toda a diferença: significa dizer que a palavra literária pode ser uma forma de organizar ou dizer nossa forma de estar no mundo. Estar no mundo não apenas em um sentido existencial, mas como uma comunidade de leitores, de sujeitos críticos, com condições de participar e de intervir socialmente. Pensando naquele grupo que descrevi antes, a leitura compartilhada foi um espaço para que se colocassem, mas isso só aconteceu porque algo lhes aconteceu.

Infelizmente, ainda vejo a leitura compartilhada de sala de aula em poucas escolas. Públicas e privadas. Vejo muito mais a literatura sendo condicionada à historiografia, à análise linguística, à prova, aos “trabalhinhos”, a conhecimentos utilitaristas – o que, salvo a última opção, pode ser importante – mas não vejo momentos em que a leitura é feita em grupo, compartilhada, com o “mero” compromisso de ser lida e discutida. Algumas escolas têm essa prática nas bibliotecas, mas o livro não circula na sala de aula, na mão do professor, é guardado na mochila para ser lido em aula. E ai de quem esquecer o livro na semana que vem: aí mesmo que nem é bom tirar da mochila.

Pensar a literatura como experiência é lê-la com liberdade e generosidade: não condicioná-la, não cercear a sua recepção; entender que são diferentes os modos de ler e de compreender a obra. Isso não quer dizer que se trata de uma atividade descompromissada, pelo contrário: é uma atividade intencionada, com princípios norteadores em que o objeto livro é o centro da mediação.



Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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