Atena Beauvoir: Medusas, Perseus e Literatura Brasileira

Desci na estação São Pedro. Caminhei por duas esquinas observada pelos olhares dos homens trabalhadores da região. Dobrando a terceira, já somavam três carros que sinalizavam para chamar minha atenção. Caminhei concentrada na velocidade, estava de salto, mas talvez cair no chão fosse o derradeiro destino de muitas de nós. Tentei pensar na atividade que seria prazerosa, em encontrar pessoas que eu amo e que me amam, projetos incríveis. Mas infelizmente, Anaimia havia tomado posse de mim. Chamo minha ansiedade de Anemia em grego, porque é essa sensação que sinto: faminta de existência.

Entrei no grande recinto, distante de vias e de difícil encontro, um galpão bem ornamentado internamente. Muitas pessoas. Calor. Procurei com os olhares quem eu conhecesse, mas existia uma espécie de vertigem em mim. Eu não me sentia em mim. Anaimia me envolvia a visão. Rios me abraçou percebendo que eu não estava bem. Luma em seguida me deu um refrigerante e me sorriu. Minha pressão já se encontrava no chão. Respiração ofegante. Bastos me afaga o coração, ela me afeta de uma maneira estrondosa, me mostrou as novas obras da Figura de Linguagem. E resolvi sentar perto de Pessah. Grito de Mar me observando, eu sem dinheiro para comprar, mas com vontade de gritar ao mar, aos oceanos, às águas. Eu estava me afogando na minha ausência num canto, encolhida e pensando: o que a minha literatura está fazendo aqui?!

Me chamaram ao palco. Subi e infelizmente sentei. Quebrei o protocolo e retornei ao microfone, envergonhada. Talvez minha literatura não tenha trabalhado tanto tempo para poder ser escutada enquanto descansa naquela poltrona iluminada. Recitei minha poesia, falei da minha literatura, expus meus princípios filosóficos em minutos. Ao descer, Santos me envolve num sorriso e fomos embora para outra atividade poética na Cidade Baixa.

Durante todo o percurso a pergunta que fiz para a plateia não saía da minha mente: “Aqui, nessa região, nessas esquinas existem garotas transexuais e travestis prostitutas. Historicamente violadas em sua dignidade humana, eu pergunto, onde há literatura inclusiva aqui, quando somente eu, uma escritora trans, falo para um evento inteiro onde não encontro uma pessoa trans, ou uma daquelas garotas que por algum motivo, alguém acha que elas não queiram se alimentar de literatura”. Somente em casa fui me sentir segura e encontrar a presença de mim mesma.

É que a luta da vida pelos espaços não é só com a presença física. É com a presença epistemológica, literária, poética, enfim, existencial. Em um dos meus poemas de Slam, eu recito:

“Se Perseu decapitou Medusa no mito grego,

No mito brasileiro eu voltei petrificando o preconceito”

E eu queria ver muitas medusas, harpias e esfinges com seus silicones fartos, com seus corpos volumosos e atraentes, com seus megahairs e suas maquiagens, mas igualmente suas existências naquele evento. Mas sempre são os heróis – homens, brancos, cisgêneros e barbudos que nos matam, as ditas aberrações das histórias gregas. E parece que essa vibração patriarcal vinda de Zeus, o maior estuprador dos mitos gregos, o maior assediador, o Deus Olímpico de onde a Deusa dos olhos glaucos nasceu, continua a atestar sua presença nas relações humanas. E infelizmente, percebendo que naquele dia outras mulheres trans que estavam naquela região sendo prostitutas da carne, sequer sabiam que existia um evento de literatura, gratuito e que uma igual a elas estaria lançando um livro sobre poesia, filosofia e sexualidade…

E que prostitutas da carne podem também serem prostitutas do saber.

Meu coração estava com medo de Perseu porque haviam arrancado minha cabeça. Minha mente, meus pensamentos, minha consciência. Minha face!

Mas há chegado a hora que todos os Édipos, Ulisses e Perseus vão aprender que a humanidade é muito mais do que eles desejam que seja ou pensem que permitam que seja. Todos os corpos transumanos, transantropológicos, chamados de aberrações, de monstruosidades, de tudo, que ainda em meados de 2019 ouço dizerem de nós, todos esses corpos serão existência nos espaços literários futuros. E se vocês sentem que eu dramatizo: uma das perguntas que fiz no dia do evento foi: “Numa lista de mais de 50 títulos publicados, vocês já leram mais de duas escritoras ou escritores trans brasileiros?!” – Um silêncio. Essa foi a resposta que espero que a FestiPoa Literária tenha escutado.

Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.
Foto: Diego Lopes/CRL

Literatura RS

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