Disputas, representação e espetáculo

Texto e edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

As fissuras, elas existem, e é através delas que as desilusões penetram as estruturas. Um episódio recente vivido pelo mercado editorial brasileiro e amplamente difundido pela imprensa nacional e pelas redes sociais abriu janelas de reflexões na cabeça de quem, de uma forma ou de outra, dedica-se ao trabalho com livros, autores, literatura e eventos da área, fazendo com que os setores progressistas da sociedade brasileira fossem convocados a um posicionamento.

No último final de semana, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, determinou o recolhimento de uma edição da HQ Vingadores: A cruzada das crianças, publicada pela Marvel, dos estandes da XIX Bienal do Livro do Rio em função de um painel com uma cena de afeto entre personagens homossexuais. A prefeitura estaria, assim, “protegendo os menores de nossa cidade”, segundo Crivella.

Após uma breve disputa de liminares e vai-e-vem de fiscais municipais em busca desta e de outras publicações LGBTI+, o youtuber Felipe Neto, conhecido pelo posicionamento conservador em anos recentes e pela construção de uma vasta comunidade de crianças e adolescentes em torno de si, decidiu distribuir gratuitamente 14 mil exemplares de livros com personagens LGBTI+, chamando para si o protagonismo em uma resposta ao governo ultraconservador do Rio de Janeiro.

Importante lembrar que a decisão da prefeitura carioca não deve ser compreendida isoladamente (e algo deve, afinal?) e está acoplada ao espírito de uma época em que poderes estabelecidos estão empenhados em minar qualquer possibilidade de conciliação e de manutenção do pacto democrático estabelecido com a Constituição de 1988.

Isto posto, se analisada secamente, a atitude do youtuber pertence à ordem da radicalização dos atos, no sentido etimológico da palavra radical — ir à raiz: se o Estado dificulta o acesso às mercadorias, esse mesmo acesso será radicalizado com a distribuição gratuita e maciça, numa dinâmica de espetáculo que aparentemente não altera a estrutura simbólica do capital, a mesma que estabelece injustiças e atribui uma ideologia utilitarista à vida e aos indivíduos. Assim, o que se percebe após o evento é que o pacto estabelecido entre consumidor e mercadoria permanece inalterado, reforçando a ideia de que o consumo é um campo de batalha tão legítimo quanto a política porque, como esta, possui também um forte jogo de cena. Houve uma representação, uma cena, no gesto do Governo Municipal do Rio de Janeiro ao invadir com uma tropa de fiscais a Bienal do Livro do Rio em busca de “conteúdo impróprio”. Dessa forma, o método do jogo de cena é colocado como imperativo e a reação, conduzida pelo youtuber, foi proporcional. Dada a imposição destes vetores, é importante refletir: qual é a ideologia de quem conduz a reação?

É louvável que o privilégio seja utilizado por motivações que contemplem ações um pouco além de sua própria manutenção. Ainda assim, é possível para uma celebridade da internet brasileira, homem, branco, heterossexual, cisgênero, agir fora de seu perímetro de privilégio? É possível para qualquer um de nós, cidadãos de classe média/média alta, habitantes dos espaços mais privilegiados dos grandes centros urbanos das capitais brasileiras, agir no mundo apesar do privilégio que constitui a nossa identidade cidadã? De que forma nossos posicionamentos, ainda que “bem intencionados”, contribuem para a mera espetacularização do discurso político, impedindo as necessárias alterações estruturais de uma sociedade profundamente desigual, racista, machista e LGBTfóbica?

Quem joga um pouco de luzes sobre a questão é Guy Debord, com seu livro A sociedade do espetáculo:

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“O caráter fundamentalmente tautológico do espetáculo decorre do simples fato de seus meios serem, ao mesmo tempo, seu fim. É o sol que nunca se põe no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e está indefinidamente impregnado de sua própria glória.”
Guy Debord, A sociedade do espetáculo, pg. 17, Editora Contraponto, 2009

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Debord nos aponta, aqui, que há uma fissura na estrutura do movimento conduzido pelo youtuber durante a Bienal do Livro do Rio. Na rasteira da “busca e apreensão” realizada pela prefeitura carioca, editoras brasileiras saíram publicamente em defesa da diversidade de orientações sexuais, na medida, é de se pensar, em que a restrição imposta pelo prefeito Crivella dificulta o acesso às suas mercadorias e que a ausência de posicionamento límpido poderia prejudicar o seu valor de marca junto aos setores mais progressistas da sociedade, onde residem muitos de seus clientes. Mais uma vez, parece-nos que o esforço é pela manutenção de um pacto de consumo e prevalência de relações mediadas por imagens.

Literatura RS endereça aos profissionais das editoras de livros no Brasil o questionamento que lhe cabe: como a sua empresa contribui para a diversidade de identidades de gênero e orientações sexuais em seus quadros profissionais? Como o machismo e a LGBTfobia são combatidos em seus escritórios ou na seleção de seus fornecedores?

Aqui, pegamos emprestado um conceito muito difundido pela filósofa brasileira Djamila Ribeiro e frequentemente aplicado no feminismo negro, o lugar de fala. LRS é uma empresa cujos dois sócios são homens identificados como homossexuais — logo, vê a questão de dentro. Todo o episódio Felipe Neto versus Marcelo Crivella diz que há uma disputa entre setores da sociedade pela condução do capital, uma espetacularização que pouco faz pelo combate às violências praticadas contra a população LGBTI+ na medida em que não altera a estrutura de um país violento porque, nos termos impostos pela ideologia do capital, toda lealdade é de ocasião.

Dessa forma, lançamos a reflexão: qual é a mudança que nós queremos? Estamos todos genuinamente preocupados com o assassinato de pessoas LGBTI+? Com o extermínio da população negra e da população indígena? Com a manutenção de uma ideia de cidadania que parece priorizar o consumo? Ainda: estamos dispostos a repensar nossos privilégios?

Se as desigualdades estão impostas, como parecem estar, cabe aos profissionais da área do livro e leitura, desde a formação de leitores até os grandes eventos como as bienais, imaginar de que maneira a estrutura pode ser reformada de modo que as pessoas não sejam consideradas prioritariamente sob critérios utilitaristas e possam ser percebidas além de seus atos de consumo. Nesse exercício de empatia, a literatura (e o que nós fazemos com ela) constitui a base a partir da qual uma outra construção de valores deve ser possibilitada. Assumir este compromisso lança os profissionais do livro e da cultura a uma plataforma de responsabilidade especial sobre as estruturas da sociedade, suas fissuras e contradições.

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Vitor Diel
Jornalista, editor de Literatura RS

Literatura RS

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