Ana Paula Cecato: Pequenas revoluções cotidianas

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

O mundo tem nos dado pouco alívio, eu sei.

Mas nós temos uns aos outros. Pra mim, pelo menos, é o que tem feito toda a diferença.

Há quase dez anos trabalho em comunidades periféricas, e elas têm sido a minha maior escola. Na vila, o sossego praticamente não existe, pelo menos aquele sossego burguês de ter uma cama confortável, as contas pagas em dia, tomar um banho quente. O sossego na vila é estar junto. Há uma vida que pulsa coletivamente, que se organiza coletivamente, que cuida uns dos outros, que se diverte, que reza e canta, tudo junto. Quem vive enfurnado em um apartamento não entende, quem tem um carro pra andar sozinho não entende, quem não convive com a generosidade diariamente, muito menos.

Ser professor tem tudo a ver com generosidade. Se o professor não é quem se propõe a compartilhar o conhecimento, ele certamente fracassará. Para que isso aconteça, o professor precisa de muitos outros agentes, ou seja, de sua comunidade escolar. Mas será no dia a dia, em mais ou menos quatro horas diárias, que ele terá a companhia de seus alunos, com os quais tem o maior compromisso. Neste microcosmo de sociedade, a sala de aula de uma escola pública, é onde tenho encontrado mais alento e alegrias perante a todos os desmandos a que estamos sendo submetidos. 

É onde vejo nascer uma esperança, naquilo que chamo de pequena revolução cotidiana. Uma pequena revolução cotidiana é quando vejo aquele menino, com problemas de indisciplina, pegando um livro na biblioteca cujo título é Coragem de mudar; é quando levo meus alunos no Instituto de Letras da UFRGS para falarmos sobre nossas aulas e vejo que se colocam como leitores, com preferências e gostos, e que eu, professora, não tenho controle de nada disso, eu só digo, às vezes, “vai por ali, quem sabe”, e eles vão fazer o percurso deles como leitores. Uma pequena revolução cotidiana é a leitura de um conto em voz alta, em que, na aula seguinte, alguém traz outro conto para compartilhar. Uma pequena revolução cotidiana é uma menina negra que solta os cabelos ou um menino que ostenta seu black power.  

São dessas pequenas revoluções cotidianas, protagonizadas por comunidades escolares da periferia, que florescem projetos de educação antirracista, como o Quilombelas (EMEF Alberto Pasqualini), o Afroativos (EMEF Saint Hilaire), o Quilombonja (EMEF Nossa Senhora de Fátima), o Meninas Crespas (EMEF Mario Quintana);  performances de adolescentes contadores de histórias e mediadores de leitura, como o Voelendo (EMEF Alberto Pasqualini), e o Luísa Marques (EMEF Saint Hilaire), e os slammers da EMEF Nossa Senhora do Carmos , iniciativas como a Semana Literária da EMEF Afonso Guerreiro Lima (onde trabalho, em Porto Alegre), a Feira do Livro da EMEF Monteiro Lobato, em Canoas. Fora da escola, mas com a participação de muitos adolescentes, a organização de vários grupos de slam por toda a cidade de Porto Alegre. Gente que se encontra. Gente que traz mais gente. Gente que ocupa a cidade. Gente que floresce e se descobre.  

Não tenho esperanças nas grandes mudanças, acho que não precisamos nos colocar essa responsabilidade. Precisamos é olhar mais para as pequenas revoluções cotidianas que estão à nossa volta. A periferia me ensina que não é possível ser leve, é preciso ser resistente.

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

Literatura RS

2 respostas para ‘Ana Paula Cecato: Pequenas revoluções cotidianas

  1. Belíssimo texto, Ana Paula. Enquanto educador da faculdade de educação da ufrgs, fui arrebatado pela tua perspectiva sobre as pequenas revoluções do cotidiano. Muito obrigado!

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