Maiara Alvarez: mar guaíba

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Do outro lado do rio, que chamam agora de lago — ou seria o contrário? — vai ter uma mina de carvão. Ou não vai ter? O retrato do nosso tempo, do agora, é pessimista.

O retrato do nosso tempo é de contradições, de opostos. Do outro lado do meu pessimismo, do pessimismo de muita gente idiota como eu, tem um otimismo. Um otimismo não baseado na ilusão, mas na conquista diária. Lançar o primeiro livro é uma conquista diária, é um sucesso. Achar que vai ver sumir 10.000 em cópias de uma primeira edição, à venda nas melhores — cof, cof — livrarias, é ilusão. Eu remo para o outro lado do rio.

Remo como intrusa. Meu lugar de paz e justo é nas beiradas. É de expectante. É de espectadora. Indo em direção às margens, ouço clamar uma urgência artística, ancestral. O retrato do nosso tempo é agora.
O retrato do nosso tempo arranca as letras da academia brasileira de. A língua, a brasileira, não cabe em instituições. A língua, a brasileira, é feita na rua, xilogravada no cordel, rimada a gritos no slam. Não tem r no final do verbo, não tem s no plural, não tem es na conjugação de tá. Em uma constante disputa imposta por quem não sabe baixar a bola, cada caracter conta e todo efeito de fúria é bem-vindo.

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Me sinto acalentada nessa margem do rio.

Cada linha que sai dessa urgência é tão linda!

Cada linha que sai dessa urgência é tão forte!

Cada linha que sai dessa urgência é tão potente!

Cada linha que sai dessa urgência tem cura, tem zelo, tem raiva…

Cada onda que sai desse mar é tão lírica.

Não sei mais onde estamos. Parecemos cruzar o oceano. Se chega em Porto Alegre. Pisam na margem. Passando pelo Centro Histórico, adentram a Cidade Baixa. Segue-se com o rio ao lado. Fincam-se as lanças. Na frente, Lemos para receber a oferenda. A vista daqui é linda.

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“Ofereço
Palavras leves
Ouvidos atentos
E um abraço apertado

E também uma ideia doida sem sentido
De que tudo vai ficar bem”

Marlon Pires Ramos, trecho da página 36 de Marlírico, Editora Escola de Poesia

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Marlírico é o primeiro livro de Marlon Pires Ramos, lançado recentemente pela Escola de Poesia. O universitário de Letras pela UFRGS integra o grupo MilTons — Masculinidades Negras e faz parte da produção da Festipoa Literária. Tem versos publicados na revista Ovo da Ema e no blog Voz Pública da Poesia.

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Marlírico
Marlon Pires Ramos
Poesia
14 X 21 cm
978-85-64818-13-2
R$ 35
Escola de Poesia

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Conteúdo disponibilizado antecipadamente para apoiadores e assinantes da Central de Acolhimento para Escritores. Faça parte dessa rede!

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

Literatura RS

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