Guto Leite: Receita contra a censura

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Estamos vivendo tempos difíceis para a ficção. Qualquer dia ordinário pode ser mais inventivo, e eventualmente mais estapafúrdio, do que as melhores ficções feitas por nossa literatura. O dia 17 de setembro deste ano, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, foi um desses capítulos difíceis de superar. O deputado Jessé Lopes (PSL) propôs uma moção de repúdio ao livro de Angélica Freitas, um útero é do tamanho de um punho (2012), selecionado para a lista de leituras obrigatórias da UFSC/UFFS. Sua excelência disse que passou vergonha ao comprar o livro e, ao longo do debate, disse à deputada Luciane Carminatti (PT), que se absteve por não conhecer o conteúdo do livro, que o daria de presente à colega para que ela “possa presentear alguém da família que tenha 18 anos e que queira saber qual o tamanho do útero e se um punho cabe dentro dele”. Os descalabros são muitos, mas vamos lá.

O livro de Angélica Freitas é o livro de poesia mais importante publicado no Brasil neste século. Não estou dizendo que, para mim, é o melhor livro. Acho que alguns recursos são usados de maneira um tanto repetitiva e alguns versos e imagens me soam um pouco inacabados. Mas isso são nonadas em comparação com a sofisticação do trabalho, a instauração de certo pressuposto (brechtiano) de distanciamento e o bom aproveitamento da seriação como recurso. Isso para não falar da força que o livro canalizou nos debates contra o patriarcado, o machismo e a misoginia, pela igualdade de condições das mulheres numa sociedade particularmente violenta com a parcela feminina de sua população. Um dos grandes valores do livro é exatamente ser, ao mesmo tempo, incisivo, direto, de intervenção, e complexo o bastante para demandar novas e novas leituras. É um livro imediato e que pede mediação.

Tenho duas experiências curiosas a respeito. Em 2013, numa oficina de poesia na Casa de Cultura Mario Quintana, uma das leituras foi o útero… A turma era formada majoritariamente por mulheres e mesmo assim o livro não foi recebido favoravelmente. Só depois que os pressupostos da obra foram discriminados é que a turma “virou” e se apaixonou pelo conjunto de poemas, restando poucas exceções, ainda contrariados e contrariadas, na turma. Alguns anos mais tarde, já professor da UFRGS, propus o livro da Angélica como leitura obrigatória, sem grande sucesso.

Por mais que eu acredite na inteligência cristã (você conhece a anedota sobre “inteligência militar”?) do deputado, acho difícil que ele tenha tomado o livro para além do que os versos dizem na superfície, e mesmo quanto ao que explicitam, há equívocos e projeções suficientes do deputado para, por exemplo, acreditar que o punho figure sexualmente e não como símbolo de luta e libertação da mulher numa sociedade que a oprime. O pressuposto do livro são as camadas de sentido que se acumulam, ou que precisam ser lidas pelo avesso, ou que precisam ser lidas pelo que não está lá etc.

A aberração número dois é que a deputada do PT tenha se abstido de seu voto por não conhecer o conteúdo da obra. Ora, então haveria, por hipótese, um conteúdo que mereça censura? Ou mais: os livros da lista são escolhidos por professores que, a princípio, ocupam suas vidas em ler na minúcia os livros de nossa literatura. Esses professores escolheram o livro porque não só o consideram adequado para leitores adolescentes, como também esperam que os alunos que ingressem nas universidades sejam capazes de ler bem esse livro. A deputada do PT pensa que a assembleia pode interferir na escolha dos profissionais especializados nisso? Do que se trata? Proteger as crianças? Mas proteger de quê? De consciência?

Por fim, na mesma lista de livros está Capitães da Areia (1937), de Jorge Amado, que traz a seguinte passagem: “E a agarrou pelo braço e novamente a derrubou na areia. O medo voltou a possuí-la, um terror doido. Vinha da casa da avó e ia para sua casa, onde mãe e irmãs a esperavam. Para que tinha vindo de noite, para que se arriscara na areia do cais? Não sabia que a areia das docas é a cama de amor de todos os malandros, de todos os ladrões, de todos os marítimos, de todos os Capitães da Areia, de todos os que não podem pagar mulher e têm sede de um corpo na cidade santa da Bahia?”. É a cena em que Pedro Bala, herói do romance, estupra uma menina.

Então devemos censurar Jorge Amado? Evidente que não. Nas aulas de Literatura, a professora ou o professor deve conduzir a discussão, colocar em debate o romance e esta cena. Mas pode ser o herói do romance e um estuprador? Vamos falar a respeito. No Brasil, contabilizam-se 180 casos de violência sexual todos os dias. Uma das formas de se reduzir esse número, que é objetivo principal, acima de tudo, é trazer o problema à luz. E uma das maneiras de trazer à luz é pela literatura, que permite que debatamos assuntos difíceis relativamente resguardados pela estrutura ficcional. Uma censura a este romance, ou a esta cena do Jorge Amado, só favorece a estupradores.

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Então a quem favorece censurar Angélica Freitas? Ou parodiando um verso da autora: quem te rejeita, Angélica Freitas? Parece claro que uma censura a um útero é do tamanho de um punho só interessa àqueles que desejam que a sociedade permaneça silenciando, constrangendo, achacando, restringindo, aprisionando, violentando e assassinando as mulheres (tudo no gerúndio mesmo, porque está acontecendo neste momento em que você lê a coluna). Como boa literatura, o livro é também um antídoto para as nossas misérias, uma vacina, para usar um termo recentemente polêmico. Num mundo ideal, que belas aulas seriam fazer uma leitura em contraponto de Capitães da areiaum útero é do tamanho de um punho! Só um doente convicto luta contra o remédio. 

Abaixo, deixo uma pequena dose ao leitor e prescrevo que adquira a obra numa livraria (as livrarias são as verdadeiras farmácias) e leia, toda manhã, uma ou duas páginas, pelos próximos anos.

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uma canção popular (séc xix-xx):

uma mulher incomoda
é interditada
levada para o depósito
das mulheres que incomodam

loucas louquinhas
tantãs da cabeça
ataduras banhos frios
descargas elétricas

são porcas permanentes
mas como descobrem os maridos
enriquecidos subitamente
as porcas loucas trancafiadas
são muito convenientes

interna, enterra

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Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

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Literatura RS

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