Ana Paula Cecato: A diferença (e a falta) que uma biblioteca faz

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Recentemente, a pesquisa Retratos da Leitura do Brasil mostrou que a presença de uma biblioteca escolar é um dos fatores que colaboram para melhores índices de aprendizagem em português e matemática de alunos de escolas públicas. Mesmo assim, há gestores públicos que fecham bibliotecas. Tenho acompanhado, com muita tristeza, o relato de que várias bibliotecas das escolas da rede estadual do Rio Grande do Sul estão fechadas por falta de professores nas salas de aula. Numa notícia publicada em junho , a Secretaria Estadual de Educação afirmou que construiria uma solução viável para o problema, em conjunto com o Conselho Estadual de Biblioteconomia, órgão responsável pela fiscalização do funcionamento das bibliotecas com um profissional graduado para tal função, o bibliotecário. Até agora, me parece que a situação permanece como está – as bibliotecas seguem fechadas – e coloco o espaço à disposição para que seja noticiada alguma novidade nas próximas colunas.

A biblioteca deveria ser o espaço mais cuidado e amado de uma escola, porque nela há a livre circulação do conhecimento. Para cumprir sua função cidadã, toda escola precisaria ter uma biblioteca em funcionamento. Leia-se “biblioteca em funcionamento” aquela que garanta o acesso e o empréstimo dos livros aos seus usuários, mas também estenda sua atuação ao dinamizar seu acervo, promover ações culturais, acolher a comunidade e vincular afetivamente os leitores àquele espaço. Investir esforços na construção de um projeto de ação mediadora da leitura, com a participação dos alunos, das famílias, dos professores e funcionários.

No livro O direito de ler e de escrever, a bibliotecária colombiana Silvia Castrillón aborda a biblioteca como um espaço comprometido com a democratização da cultura letrada, o que lembra muito o teor do ensaio do crítico literário Antonio Candido, O direito à literatura, no qual traz a fruição da arte e da literatura como direito inalienável a todo ser humano. Tais ideais deveriam nortear todas as políticas públicas nas áreas da Cultura e da Educação. No entanto, quando o poder público priva as comunidades das escolas públicas do direito a ter uma biblioteca de portas abertas e, consequentemente, do direito humano à literatura e à experiência potencializadora que ela nos oferece, também está reforçando as desigualdades e todas as suas consequências sociais.

Referências:
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. São Paulo, Rio de Janeiro: Duas cidades, Ouro sobre o azul, 2004.
CASTRILLÓN, Silvia. O direito de ler e de escrever. São Paulo: Pulo do Gato, 2011.

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Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura. Foi jurada do prêmio Jabuti de 2019, na categoria Fomento à Leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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Literatura RS

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