Guto Leite: Um dia na vida de João Schmidt

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

“O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.”

João Schmidt, um amigo do vizinho do meu primo – como um Policarpo Quaresma gaúcho –, decidiu consumir somente cultura local, assim que percebeu que a democracia não vale nada nesse mundo e que as mercadorias fedorentas que foram eleitas para cargos importantes, ou não dão a mínima para a cultura, ou estão vindo com tudo pra cima dos artistas, o que dá quase no mesmo.

João acorda cedo, prepara um mate. Enquanto isso, curte ouvir só música instrumental: Rodrigo Nassif, Arthur de Faria, Thaís Nascimento, Picumã, Quarto Sensorial. Quando vê, já são quase oito e precisa se preparar pra sair. Toma um banho demorado, come um cacetinho, toma um suco de bergamota, prepara a mochila e vai. De manhã, o lance é correr as livrarias, Baleia, Bamboletras, Taverna, e encher as sacolas com Ronald Augusto, Marília Kosby, Eliane Marques, Ana dos Santos, Luiz Maurício Azevedo, Natália Polesso, Diego Grando, Fernanda Bastos, além de perguntar pra Nanni, pro André, pro Milton, quais as novidades da Figura de Linguagem, da Zouk, da Taverna, da Arquipélago, da Dublinense. E não é que é um universo de autoras, autores, histórias, poemas! Alguém pode viver a vida toda nesses mundos.

Às vezes o Schmidtão, que é como ele é chamado pelos amigos, almoça em casa. Hoje não, marcou com uma guria no Ocidente. Ela acha engraçado o tamanho da sacola e ele andando todo desajeitado entre as mesas. No comecinho da tarde, é hora de correr as galerias: Xico Stockinger, Salvatori, Röhnelt, Marilice Corona, Graça Craidy. Em algumas exposições, já era a segunda ou terceira vez. Três e pouco da tarde, verão, vocês sabem, o peso dos livros, e João acha melhor ir pra casa, que ainda tinha muito dia pela frente.

Logo na entrada, deixa a sacola do lado da estante e se atira no sofá. Liga a TV, onde vê youtube, netflix – até tem um DVD instalado pra hora do aperto – e fica zapeando. Beira-mar, Tinta Bruta, Antes que o mundo acabe, Tolerância, Era uma vez dois verões (sem dúvida o melhor do Jorge Furtado), até olhar, de novo, Ainda Orangotangos.

Depois do filme, consegue tirar um cochilo e acorda sete, sete e pouco. Agora, sim, a exuberância. Puta merda! Tem um monte de show pra ir e teria que escolher. As Tubas, Jéssica Berdet, Ortácio, Borghetti Salazar & Poty, Tum Toin Foin, Luciano Mello, sem contar a velha guarda, Nelson, Nei Lisboa, Vitor, que de vez em quando estão na área. Ainda dá pra simplesmente ir pra um dos picos que é certo ter música boa, Café Fon Fon, London Pub… Fecha os olhos com o jornal na mesa e aponta três. Tenta casar ao máximos os horários, se apronta e sai.

Não vou ficar contando da noite do Schmidtão, né não, que a pessoa tem direito a suas privacidades. Só conto que, antes de dormir, ele ainda confere a boa imprensa local, Sul21, Literatura RS, Matinal e as colunas do Juarez, do Fischer, do Gonzaga, o Luiz, da Claudia, do Lucchese, do Milton Ribeiro, da Eliane Brum.

Completamente esgotado, antes de fechar os olhos, o João pensa que neste Natal ele só vai dar de presente livro gaúcho, disco gáucho, comprado em loja gaúcha e, de preferência, de artista independente. O país está na merda, mas não posso deixar que os nossos artistas parem. Comprando daqui, coloco meu dinheiro aqui, e eles também gastam aqui e assim vamos, que já chega o Brasil dando grana pra gringo. Ainda bem que tanta coisa boa por perto. E dorme. Feliz.

P.S.1: Antes que digam que o João não faz nada da vida, era sábado.

P.S.2: Sei que não citei um monte de caranguejas e caranguejos, mas é que fui pinçando de memória. #somostodoscaranguejos #peace


Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

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