Ana Paula Cecato: Eu acredito é na rapaziada

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de Diego Lopes/CRL

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Hoje eu venho com notícias boas, até porque basta a institucionalidade para nos deixar tristes, abatidos e desanimados.

A primeira delas é o projeto Revolução Falada, que envolveu professoras e estudantes de quatro escolas municipais de Porto Alegre (EMEF Afonso Guerreiro Lima, EMEF Grande Oriente, EMEF Senador Alberto Pasqualini e EMEF Saint Hilaire) em oficinas de escrita criativa que culminaram na publicação de um livro de poemas e de minicontos. A ideia foi lançada pela escritora Chris Dias, que tem trabalhado intensamente com as culturas infantis e juvenis através da Kombina da Chris, veículos Kombi que circulam em eventos levando brincadeiras e outras atividades voltadas para famílias, crianças e adolescentes, e que realizou a primeira edição do projeto, cujo livro se chamou Dos que fizeram. O segundo título é A gente que lute, inspirado por um meme conhecido dos adolescentes, presente em um dos poemas do livro, de Letícia Barcellos:

Senhoras e senhores,
Com vocês, o maravilhoso 2019!
Estreando… loucura, morte, quebradeira, business, opressão e retrocesso.
O ano “Eles que lutem”
O ano em que eu lutei!
(…)

Já deu pra ver que essa gurizada, oriunda das periferias de Porto Alegre, tem muito a dizer. Temáticas sociais como o feminismo e a negritude emergem pela voz do jovem periférico que afirma sua identidade e não suporta mais o preconceito e o apagamento de sua história e de suas vidas; o cenário distópico é colocado na vitrine, como denúncia. Outras temáticas ligadas ao universo adolescente, como o amor e a liberdade, também estão presentes, porque há de se esperançar com o coração aquecido.

Como uma das professoras participantes do projeto, junto às colegas Kelly Fernandes, Anna Beatriz Oliveira Domingues, Patrícia Fortes Alves e Maria Gabriela Souza, posso dizer que o processo de escrita levou esses adolescentes a leituras imersivas de literatura. Ao escrever um poema sobre o duplo, uma das adolescentes encontrou a poesia de Fernando Pessoa e não parou mais de lê-la; uma quis se casar com Drummond; e a outra virou melhor amiga da Djamila Ribeiro. Acervos afetivos foram sendo construídos por meio de encontros com a palavra literária.

A segunda boa notícia vem dos números da visitação escolar à 65ª Feira do Livro de Porto Alegre: mais de 11 mil alunos de escolas públicas participaram de encontros com autores na Área Infantil e Juvenil. Tais atividades são a culminância de projetos de mediação de leitura que são realizados ao longo do ano, em que os alunos leem previamente as obras dos autores convidados junto a seus professores, que participam de formações sobre leitura literária.

Estes trabalhos mostram que o caminho para barrar o descrédito na arte que o cenário político apresenta é apostar na democratização da literatura, investindo pesado na formação de leitores na infância e na adolescência. “Todos os usos da palavra a todos”, já pregava o educador Gianni Rodari. É botar fé na rapaziada e ir à luta com e por eles.

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Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura. Foi jurada do prêmio Jabuti de 2019, na categoria Fomento à Leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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