Maiara Alvarez: O que está deserto

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Deserto verde é aquele conceito que soa estranho, parecido com o aquecimento global fazer certas temperaturas caírem. O que apavora não é a areia ou o calor, mas o absurdo do que parece ser tão ilógico ser real. A aridez infértil do solo verde e a força e velocidade dos ventos fora de direção. O que apavora é o que já resulta desse processo. E de como nós nutrimos uma esperança vã de que vai dar tempo, quando já não deu mais.

Nós vemos diante do abismo, sem saber que já pulamos. Existimos após o abismo? Parece que é uma existência podre, ainda assim, uma existência. O tempo não parou depois que pulamos no abismo. Desde o início, se já é início, não há mais volta.

Se fosse para pular, adoraria pular com Tyla, Teo e Elissa. A espontânea, a sábia e a determinada. Se houvesse alguma esperança depois, acho que elas seriam as pessoas com quem eu gostaria de viajar pelo abismo. Mulheres cheias de histórias.

Sei das histórias delas pelas mãos da Nikelen. Assim como a literatura fantástica nos permite emular mundos, é um campo vasto para imaginar de forma objetiva a complexidade dos sentimentos e reações humanas ou humanizadas. E eu gostei muito de como a Nikelen narrou esses momentos decisivos, difíceis. Como a vida continuar a fluir passando pelos dedos da dor e da morte. Como a sequência de eventos paralelos se dá enquanto a culpa por ser incapaz de viver tudo e se dividir em três nos toma.

Nikelen também descreve, no meio de um universo steampunk, como as relações de amizade se criam e amadurecem, ao mesmo tempo que as familiares sofrem mudanças. Cresci — talvez você também — com uma ideia de que a minha família não ia mudar. Mudamos, todas. Eu, igualmente, e, dadas às escolhas, fazemos caminhos diferentes. Alguns, que não vão mais se encontrar.

Em algum ponto da vida, assim como Elissa, pode ser que entendamos e até sejamos gratos por algo que se quebrou inesperadamente. Algo que deixou de fazer parte do nosso entorno.

E, embora o tempo de pensar é depois, depois que pulamos, o que define a ida, e a ida que nos transforma, é o caos. Tudo aquilo que aconteceu: o fracasso de um plano de vida, a morte, o que ela causa nas pessoas próximas, a depressão, o medo, a perda de um lar, o corte abrupto dos laços, a violência, os tiros, as corridas, o treinamento, o esconderijo, o desejo, os embates, a desinformação. E como podemos conseguir ser carinhosos, compreensíveis, ativos, amigos, confiáveis e inteligentes passando por isso tudo. Sob que ideias e ideais vamos nos organizar. E quão grande vai ser o tigre em que vamos nos transformar para salvar quem amamos.

Então, se for para viajar pelo abismo, que seja acompanhada. Sugiro um chá e um colchão ou uma rede. Acho que Aleia já está te esperando.

Viajantes do Abismo foi publicado em 2019 pela AVEC, sendo a terceira obra da escritora. Nikelen Witter é historiadora, professora e pesquisadora universitária. Autora de Territórios Invisíveis e coautora de Guanabara Real e a Alcova da Morte, ambos também pela AVEC. Nikelen foi organizadora da Odisseia de Literatura Fantástica de 2012 a 2014.

Viajantes do Abismo
Nikelen Witter
Romance
304 p.
16 X 23 cm
R$ 37,50
AVEC Editora

Conteúdo disponibilizado antecipadamente para apoiadores e assinantes da Central de Acolhimento para Escritores. Apoie LRS e faça parte dessa rede!

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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