Maiara Alvarez: O clube dos corações cruéis

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

O difícil de saber por onde começar essa resenha é achar o fim e começo das linhas bagunçadas da vida. Vi o José, o Falero, falando sobre a recepção de Vila Sapo durante um evento na UFRGS. Disse o cara que, quanto mais longe do local de origem, cenário das histórias, mais as pessoas se surpreendiam com os contos. Quanto mais perto, mais cômico o livro se tornava, ou, na real, era. É.

O segundo começo que penso em dar à resenha fala da atualidade das letras de José. Pra mim, ele escreve as linhas que definem a contemporaneidade. A minha contemporaneidade e o destino eterno de uns oitenta por cento da população a quem ela não é novidade.

“O que um coração cruel e covarde mais quer, mais deseja, mais espera é justamente a oportunidade ideal para aliar-se com outros corações igualmente cruéis e covardes , de modo que possa regozijar-se na prática atroz sem medo de ser execrado sozinho”.

Também posso começar esta resenha pela fofura das descrições afetivas. De como, pelos olhos de Falero, podemos olhar pra dentro, pra quem somos. Pra quem somos por e com quem a gente gosta e ama apesar do que nós mesmos somos.

Posso, claro, começar pela capacidade de rir do que se torna usual. Pela capacidade de choque pelo que realmente é uma tragédia, o sem volta. De como envelhecemos pelo que presenciamos, e tem gente que vive mais que outros, ainda que com menos. Iniciar pelos litros de risadas que derramei lendo, parando entre um parágrafo e outro e, narrando alto para o meu companheiro, e dividindo as risadas. Quem é cruel, é mais cruel junto. Quem ri com literatura de qualidade, junto, ri mais também.

Posso falar sobre a habilidade de fluência única de Falero. Descrever a mudança de tensão das cenas é algo, que, às vezes, pessoas escritoras pecam pelo excesso de descrição, e, em outras, tornam a ambiência inverossímil. José faz a transição de forma a envolver o legente, localizando o que é necessário, a tempo de nos levar a acompanhar a troca de cena entendendo a sua importância para a narrativa.

Ainda posso adicionar uma lembrança pessoal. Em um curso justo sobre escrita, alguém torna público o comentário: não é preciso empatia para escrever. A turma treme. Tenta argumentar. Me pergunto se há argumento para alguém que nunca pode ter, de verdade, lido. Ler, com os olhos, com as mãos, com a mente, é ver; escrever é tornar visível. Não toca uma morta alma do clube dos corações cruéis. Mas, afinal

“Imagina: um Zé Ninguém morto por outro Zé Ninguém em Lugar Nenhum por motivo que não interessa […].”

É um livraço.

Bota fé.

Vila Sapo é a primeira publicação de José Carlos da Silva Junior, nascido em 1987 na Lomba do Pinheiro (Porto Alegre), onde vive. É desenhista, músico, desenvolvedor de software e escritor. Também participou da antologia À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018). Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. Vila Sapo já está em sua segunda edição (ambas em 2019), agora pela Editora Figura de Linguagem

Vila Sapo
José Falero
Contos
304 p.
14 X 21 cm
Editora Figura de Linguagem

Conteúdo disponibilizado antecipadamente para apoiadores e assinantes da Central de Acolhimento para Escritores. Apoie LRS e faça parte dessa rede!

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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