Guto Leite: Para 2020, é radicalizar

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

“Ser radical significa tomar as coisas pela raiz. Mas para o homem a raiz é o próprio homem”, diz Marx, do que derivo: ser radical é recusar qualquer prática ou método que desumanize. Ser radical é pautar-se, com todas as forças, o máximo possível, pela manutenção do humano em nós e nos outros, lutar contra o que nos objetifica, contra o que nos toma por coisa para seguir com sua lógica.

Ser radical é ser antípoda da propaganda. Recusar, de princípio, o que diz a máquina publicitária, mesmo que esteja falando a verdade, já que seu pressuposto é diluir as pessoas na massa consumidora. É entender que boa parte das instituições, jornais, emissoras de televisão etc. agem pela lógica da propaganda e, portanto, também devem ser recusadas a priori.

Ser radical é não ser conivente com quaisquer práticas de redução do outro em coisa. Machismo, racismo, homofobia, transfobia; de bases históricas tão diversas, mas convergentes no fim de tomar o outro por menos do que humano, “porque podemos erradicar o que é menos do que humano”, “porque podemos matar o que não é como nós”. Nas conversas, nos textos, nas piadas, na família, dizer não. Simples, sóbrio: não. Isso não é aceitável. Não há a possibilidade de relativizarmos isso. Colocar o próprio corpo entre o tanque do fascismo e a rua da história.

Ser radical é não aceitar que hoje  nós é que somos feitos para aquilo que compramos e não aquilo que compramos é que é feito pra nós. É não comprar, é reaproveitar, é dividir. É ignorar as manchetes que dizem que a economia está melhorando, para fazer com que compremos. Os dados podem ser comprados. É sobrepujar o dinheiro – mercadoria metamorfa e perfeita – com nossas contradições, nossa imperfectibilidade.

Ser radical é dissidiar, divergir, discordar, desafinar, dissentir, discrepar, destoar, desconvir, desemparelhar; e ao mesmo tempo saber que estamos unidos em nossa particularidade, em nossa humanidade. Não unidos no trivial, no ninguém solta a mão de ninguém, estamos unidos mesmo, compartilhando o mesmo destino como classe (#somostodosfodidos) e como espécie. Precisamos cultivar nossa pluralidade, e sermos inimigos de políticas, micro ou macro, que ambicionam reduzi-la.

Ser radical é estar pela arte e pela literatura, que é a humanidade. A única tecnologia, vou repetir, a única tecnologia, em face das quinquilharias com que erguemos montanhas e mais montanhas de lixo. Não tratar arte como mercadoria. Não tratar literatura como mercadoria. A arte é a história do homem estabilizada numa forma mediada pelo humano que a criou. Perversa ou libertadora, quando arte, nos vale como o outro, a quem não podemos objetificar, para nos entendermos.

Ser radical, como der, o quanto der. Não nos enganemos: de um jeito ou de outro, é o humano que está em jogo. Se o capitalismo ramificou-se a ponto de nos embalar em sono o dia todo, ou se o planeta vai matar metade de nós em duzentos anos – tudo isso somado a pérfidas heranças, que se somam a esse ladeira abaixo, moduladas – precisamos resistir, radicalmente. 

O outro sou eu, até a última gota, até o último de nós. O outro, se ainda humano, sou eu.


Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

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Uma resposta para “Guto Leite: Para 2020, é radicalizar

  1. Muito bom! Esse texto inclusive me lembra um pouco do último livro do Julián Fuks, A Ocupação, em que, discutindo a razão da unidade enquanto ser humano, ele inclusive cita Mia Couto: nenhum homem é um homem se não for a humanidade inteira.

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