Ana Paula Cecato: Dez livros para 2020 (e para sempre)

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Creio eu que muitos leitores já estejam elaborando sua lista de livros para o ano que chega.

Gostaria de contribuir com algumas indicações de leitura de livros para a infância. Partindo do princípio, abordado em colunas anteriores, de que a infância se constitui como uma categoria de leitura de mundo, e que nós, adultos, ao lermos um livro literário para a infância, nos deslocamos para uma experiência sensível de linguagem. Por isso, as leituras sugeridas são para crianças, adolescentes e adultos, que poderão usufruir de belíssimos textos e ilustrações.

A literatura para a infância não se priva de trazer temas desafiadores e polêmicos, e procura questionar os poderes, os preconceitos, as moralidades instituídas no mundo dos “adultos”, (Por quê? Para quê? Por quem?). Ao dialogar com qualquer leitor, a linguagem concisa e plurissignificativa desse gênero nos convoca a uma nova conduta ética, “dando respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes”, como poetizou Manoel de Barros, em O apanhador de desperdícios. “Tenho em mim um atraso de nascença” continua o poeta mato-grossense no mesmo poema. Tal “nascença” inaugura nossa percepção de mundo, de forma alumbrada, sensível e, por que não, divergente. Tudo o que precisamos para 2020, não é mesmo? Vamos às dicas, sem muito spoiler para aguçar a curiosidade dos leitores:

  1. Pequenas guerreiras, de Yaguarê Yamã e Taisa Borges. Editora FTD.
    A narrativa traz a força das ikamiabas (amazonas) e a coletividade como valores para derrotar o inimigo numa floresta.

  2. A cor de Coraline, de Alexandre Rampazo. Editora Rocco.
    Narrada em primeira pessoa, a menina Coraline ouve a pergunta de um colega “me empresta o lápis cor de pele?”, o que desencadeia uma aventura lúdica em texto e imagem de várias cores.

  3. Pode pegar!, de Janaina Tokitaka. Editora Boitatá.
    Uma brincadeira de troca de roupas entre duas personagens traz à tona a liberdade de ser quem você quiser, independente de estereótipos de gênero.

  4. Xica, de Rosinha. Editora Peirópolis.
    A amizade entre uma menina e uma peixe-boi fêmea fala sobre perdas e saudade, além de sensibilizar o leitor sobre a vida dos animais fora do seu habitat natural.

  5. Zumbi assombra quem?, de Allan da Rosa e Edson Ikê. Editora Nós.
    Esta obra é pura potência imaginativa: os episódios da vida do menino Candê e de sua família destacam valores afrocentrados e o cotidiano da quebrada, numa linguagem afetuosa.

  6. Tapete vermelho, de Ana Paula Bernardes, Tino Freitas e Sandra Jávera. Editora do Brasil.
    Um livro que traz a história da cor vermelha e a origem suntuosa do tapete vermelho, mas que também reverencia a leitura compartilhada e mediada.

  7. Palmas e vaias, de Sonia Rosa e Salmo Dansa. Editora Pallas.
    Uma história sensível, mas contundente. A menina Flor vai se tornando uma adolescente e se muda para uma nova casa. Na primeira festa na nova escola, algo lhe acontece, e ela precisa decidir entre palmas e vaias.

  8. O elefante e a bolinha de sabão¸ de Manuel Filho e Silvana de Menezes. Editora Cortez.
    Um elefante numa bolinha de sabão é uma imagem potente, que nos faz pensar até onde podemos ir.

  9. Se os tubarões fossem homens, de Bertold Brecht e Nelson Cruz. Editora Olho de Vidro.
    “Se os tubarões fossem homens, será que eles seriam mais gentis com os peixinhos?” – a pergunta de uma criança ao senhor K. desencadeia a apresentação de um mundo imaginário, tão real quanto o conhecemos. Um livro sobre relações de poder e como tudo é operado para que muitos tenham pouco e poucos tenham muito.

  10. Quando as cores foram proibidas, de Monika Feth e Antoni Boratynski. Editora Brinque-Book.
    Outro livro sobre poder e líderes autoritários, que tentam apagar as cores e as subjetividades, mas não conseguem descolorir o arco-íris.

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura. Foi jurada do prêmio Jabuti de 2019, na categoria Fomento à Leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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