Anéis de Saturno, Gabriel Moura

Texto e edição: Vitor Diel
Arte e fotos: Giovani Urio

Quais os limites da interferência do passado nas relações que vivemos em nosso presente? É possível assumirmos alguma autonomia nessa interferência? Ou, ainda, essa autonomia deve ser assumida?

Estas são algumas das reflexões que Anéis de Saturno, primeiro romance de Gabriel Moura, apresenta para os leitores.

Demonstrando competência narrativa e sensibilidade, o autor entrega uma obra que conduz o leitor por um passeio no tempo, intercalando cenas no presente e flashbacks que, a todo momento, sugerem uma construção afetiva e familiar permeada de incertezas, abandonos, arrependimentos e medos.

Anéis de Saturno conta a história de Felipe, jovem porto-alegrense de classe média-alta, atualmente residente no Rio de Janeiro e que, a partir de um sonho, vê-se impelido a retomar o contato com o pai que ainda vive na capital gaúcha. Descobre então que Ulysses enfrenta uma situação de saúde fragilizada, o que força os personagens a um reencontro e a um resgate de sua relação.

A escrita cheia de lacunas e delicadezas sugere, a todo momento, que muito ficou por dizer, quando Felipe partiu de Porto Alegre para o Rio de Janeiro. Ao longo da obra, Felipe compartilha, com sutileza narrativa, os descaminhos dessa relação entre pai e filho, tensionada pelas expectativas do pai, pela morte da mãe, pela saída do armário do jovem protagonista e pela decisão súbita (uma fuga? Uma libertação?) de mudar-se para o Sudeste.

Gabriel mostra-se um contador de histórias competente ao mesclar as impressões do protagonista sobre seu passado com as expectativas que ainda nutre por uma retomada na relação com seu pai. No meio disso tudo, há uma nova madrasta e uma meia-irmã ainda bebê, personagens que estabelecem uma dinâmica inédita no relacionamento entre Felipe e Ulysses.

“Com técnica apurada, Gabriel consegue, a todo instante, conectar sonho e realidade, passado e futuro. Muda o foco narrativo e nos apresenta as diversas facetas da história, conduzindo o leitor com a destreza de um astrônomo que sabe bem para onde aponta seu telescópio, aproximando o olhar exatamente quando cada simbologia, personagem, conflito, merece ser observado no céu narrativo criado pelo autor”, escreve Filipe Smidt Nunes na apresentação.

Chama a atenção uma certa impessoalidade com a qual o protagonista dirige-se ao pai e à falecida mãe, escolhendo referi-los preferencialmente pelo primeiro nome (Ulysses e Ana), revelando um distanciamento afetivo entre os personagens.

“O portão do desembarque faz recordar o dia em que deixei meu pai aguardando uma resposta. É um costume difícil de abandonar esse de largar tudo para trás. Espero que Thiago perceba logo que o apartamento ficou vazio.

– Ainda pode desistir – disse Ulysses na última vez em que pisei no aeroporto Salgado Filho, Acho que era mais um pedido de desculpas do que um conselho, ainda assim virei as costas e não falei nada. Hoje eu sei que o silêncio às vezes é pior do que um xingamento.”
(p. 26)

A cidade de Porto Alegre faz-se presente em marcações explícitas: a Rua Duque de Caxias, o Teatro de Arena, a Igreja Santa Terezinha — elementos urbanos que, muito mais do que constituir cenários, prestam-se tal qual um complemento à narrativa ao serem colocados sob a perspectiva pessoal e afetiva do protagonista. A capital gaúcha é, em Anéis de Saturno, a localização de um passado e também de um futuro, um mecanismo que desperta memórias e que ainda guarda as familiaridades de um lugar jamais verdadeiramente abandonado por Felipe — ao contrário da relação com seu pai.

“Percorremos o trajeto em silêncio, e observo a avenida Ipiranga e seu arroio a céu aberto.
– Porto Alegre é uma cidade feia – digo. – Nem de perto se compara ao Rio. Mas tem um charme nessa feiúra, não sei o que é.
– Talvez nostalgia?”
(p. 38)

Sobre o autor
Gabriel Moura nasceu em Porto Alegre, em 1988. Cursou letras pela UFRGS e formou se em Direito pela PUCRS. Participou das oficinas literárias dos escritores Charles Kiefer, Ana Mello e Daniel Galera. Formou-se no Curso Livre de Escritores na Metamorfose, em 2018. Participou das coletâneas Contos de Mochila e Planeta Fantástico. Anéis de Saturno é sua estreia em livro individual.

Sobre a edição
Anéis de Saturno é um romance de 100 páginas, com formato de 14 x 21 cm, editado pela Metamorfose no inverno de 2019. A capa é de Carolina Damaceno, diagramação de Bruna Agra Tessuto e edição de Marcelo Spalding. A obra tem preço de capa de R$ 39 e pode ser adquirida no site www.gabrielmouraescritor.com.br

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