Ana Paula Cecato: Brincar é resistir

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Brincar e contar são atividades que medeiam a nossa relação com o mundo e com nós mesmos. Apresentam comportamentos e sentimentos humanos, de forma lúdica, mas levada a sério, os quais condicionarão a forma como percebemos o que nos rodeia, o que nos diverte, o que nos acolhe, o que nos espanta. Ficamos adultos, um pouco enferrujados, talvez, mas a memória (acionada com o corpo que tantas vezes brincou) não apaga as conexões que mantemos com nossa infância: sempre há um versinho, uma cantiga a ser cantarolada; uma história a ser narrada; uma brincadeira a ser revivida. 

São muitas as infâncias, sobretudo quando pensamos na diversidade do acervo cultural de brincadeiras e histórias que permeiam o território brasileiro. O livro Lá no meu quintal, de Gabriela Romeu e Marlene Peret (textos), Samuel Macedo (fotos) e Kammal João (ilustrações), publicado pela Editora Peirópolis no finalzinho de 2019, nos apresenta um amplo repertório brincante das infâncias brasileiras. Tarefa ousada, sim, mas empreendida com muito sucesso, com uma pesquisa aprofundada em comunidades indígenas, como o povo Asurini do Xingu, quilombolas, como os Carcará no Cariri do Ceará. O Rio Grande do Sul é contemplado por sua região norte, mais precisamente pelo município de Rodeio Bonito, com as brincadeiras de carretão, também conhecido como carrinho de lomba ou de rolimã, as bolitas (bolinhas de gude), o estilingue… Já em Porto Alegre, são mostradas as brincadeiras de palmas, a sapata, também conhecida como amarelinha. 

O filósofo alemão Walter Benjamin, no ensaio História cultural do brinquedo, aborda a tese de que as crianças fazem parte do povo e da classe a que pertencem, por isso, os brinquedos trazem elementos e formas de entender o mundo da cultura. Assim acontece nos vários quintais apresentados no livro: o leitor tem a oportunidade de não só conhecer as regionalidades do brincar, mas de estreitar relações com a cultura popular brasileira, mostrada numa rica composição de textos, fotos, ilustrações e mapas. 

Em sala de aula, o professor poderá articular um trabalho de investigação das brincadeiras e dos jeitos de brincar das crianças em diversas regiões do Brasil com as brincadeiras da comunidade onde residem. Em 2018 e 2019, pude mergulhar com meus alunos do sexto ano em outra obra de Gabriela Romeu, Terra de Cabinha, e elaborei  estratégias que contemplassem a profundidade e a abrangência da temática “infâncias”, a fim de estabelecer conexões entre a vida das crianças do sertão do Ceará e a vida das crianças da Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Dentre algumas propostas, destaco: entrevistas com a comunidade, conversando com as crianças e suas famílias, funcionários e professores da escola sobre suas brincadeiras preferidas, descrevendo-as em forma de um mapa afetivo, com os lugares onde se brinca, desenhos e fotos das brincadeiras de hoje e de antigamente; criação de inventários (livretos ilustrados com desenhos, colagens, textos escritos, fotos) dos alunos, com histórias do seu dia a dia, aquelas que ouviram de alguém e queiram registrar.  Ao trabalharem em grupos, os alunos produziram postais em que desenham e escrevem sobre a vida das crianças em outros lugares do Brasil, culminando na produção de um varal exposto pela escola. E claro, muita brincadeira envolvida: no pátio, na pracinha… 

Walter Benjamin afirma que o ato de brincar é sempre (para o adulto ou para a criança) um ato de libertação. Quando brincamos, nos afastamos das preocupações que orbitam as cabeças do mundo, para nos envolvermos em outras peripécias: como chegar até o “céu” sem nos desequilibramos, como fazer o pião rodopiar em pé, como encontrar o esconderijo do outro ou como não ser descoberto atrás de uma porta. Brincar é resistir.

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura. Foi jurada do prêmio Jabuti de 2019, na categoria Fomento à Leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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