Maiara Alvarez: “Não vou deixar que esqueçam”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Uma das marcas da discussão político-linguística recente trata do agente de ação de um verbo em contraste com o substantivo e/ou adjetivo que se deriva do primeiro no uso. Um verbo, conjugado, traz, de forma explícita ou não, mas expressa, o sujeito, apontando que há um responsável por agir daquela forma. Em voga, o debate dos efeitos de usar grupos minorizados, ao invés de minoritários. De usar pessoas invisibilizadas, ao invés de invisíveis. Particularmente, me interesso de maneira positiva ao pensar e mudar o modo com o qual me comunico, tirando esse véu de cima das palavras.

Escritoras negras nunca foram uma minoria. Foram impedidas por fatos sociais, diretos ou indiretos (todos propositais, em benefício das pessoas brancas) de expressarem a sua intelectualidade, a sua história, a sua letra. As que conseguiram quebrar essa barreira tiveram seus escritos invisibilizados.

Há e sempre houve, sem sombra de dúvida, um esforço por esse resgate ancestral. Muito longe da academia, esse resgate acontece de forma popular e ampla. Aliás, esse movimento só ganha algum destaque acadêmico por ter havido um aumento expressivo na quantidade de pessoas negras nas universidades. Esse resgate nasceu e se dá fora dos muros científicos. 

A semelhança disso com o que conta a professora de literatura, mestranda e poetisa Ana dos Santos, no livro Raízes: Resgate Ancestral, não é mera coincidência. Dar voltas e voltas no chão, voltas e voltas no tempo, pisando sobre a própria história, ao redor da representação simbólica da mãe natureza, a árvore. A árvore do esquecimento. Aquela para a qual a poetisa volta, em sonho, fazendo o caminho inverso.

Eu não esquecerei.
E não vou deixar que esqueçam!

O processo de escrita é apontado pela sul-rio-grandense Dóris Soares e pela baiana Letícia Araújo, na apresentação desta obra, como um processo político. O livro, escrito inteiramente por mulheres negras é, portanto, imbricado desse processo político, o ato de escrever. Ser processo político, enquanto escrita, não tira a beleza poética da rima, tampouco da fluência da prosa. Pelo contrário, as edifica.

A psicóloga e escritora Dóris, por exemplo, relembra suas avós e transforma os laços de suas histórias e semelhanças ao falar da conexão da sua vida e da sua expressão com a de suas antepassadas. O cabelo, tratado como planta. A raiz protegida, guardando a ancestralidade que aflora hoje.

A mulher que segurou uma família com unhas, dentes, chás e reza, muita reza! Soltava os cabelos em momentos raríssimos, sei que isso eu puxei dela, cabelos pretos como a noite, cuidadosamente guardados sob um lenço amarrado atrás da cabeça.

A professora e artista Dédy Ricardo também fala da relação das mulheres, da criança com a avó, em uma amizade improvável que aconteceu graças a uma decisão de menina. Dédy, além da sororidade, traz à tona o conceito da mulher bruxa. Quem viveu em cidade do interior do Rio Grande do Sul talvez tenha uma mulher bruxa guardada na lembrança. Na minha cidade, de imigração alemã, a mulher bruxa era negra, uma mulher apagada pela história, que nunca teve a sua história contada. Na história de Dédy, ambas as mulheres podem contar a sua história, se contam entre si. A agonia das histórias não contadas, como diz Maya Angelou, é quebrada pelo contar das histórias sobre o papel. O ato processo político de escrever.

Mas minha mão tá ficando roxa
Não consigo respirar.

Dédy, Dóris e Ana são as representantes sul-rio-grandenses de uma coletânea brasileira afro feminina organizada pela Editora Popular Venas Abiertas, composta dos escritos de vinte autoras contemporâneas. Raízes: Resgate Ancestral foi publicado no final de 2019. As mulheres que foram invisibilizadas não se esqueceram, não se esquecerão e não vão deixar que a mão de letras seja sufocada. Raízes é uma das formas dessa expressão.

Raízes: Resgate Ancestral
Várias autoras
180 p.
14 X 21 cm
978-85-54149-01-7
R$ 40
Editora Venas Abiertas

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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