Guilherme Smee: Baseados e Fatos Reais

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Jornalismo em quadrinhos. Quadrinhos autobiográficos. Quadrinhos-documentário. Todos eles possuem algo de “documental” em cada um deles. Isso porque eles lidam com o sentido de arquivo, ou seja, de fatos, informações, dados que são guardados para uma posterior análise e que servem para um determinado fim. Cannabis, a Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos, de autoria de Box Brown, por exemplo, reuniu diversos dados sobre cultivo, produção e consumo da maconha ao redor do mundo e mais precisamente seus trâmites legais e fora da legislação nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo que falamos mais sobre este quadrinho, vamos discutir sobre os quadrinhos documentais e sobre os quadrinhos-documentários. Puxa um aí e vem ler! (Calma gente, é pra puxar um banquinho!)

Ano passado eu li um livro em que a autora, Nina Mickwitz, catalogava e caracterizava o que ela chamava de “documentary comics”. Lá, ela incluía diversos tipos de quadrinhos, mas principalmente os autobiográficos. Mas será que um quadrinho autobiográfico é um quadrinho em estilo documentário e um quadrinho de documentário é um quadrinho autobiográfico? Depende. Essa é uma discussão que levaria muitas horas a fio. O que quero dizer ou provocar com essas ideias é que vejo Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos, de Box Brown, como um quadrinho estilo documentário por excelência. Isso porque ele lembra muito mais aquele estilo de documentários que vemos na televisão, no cinema ou – e principalmente – no Netflix. 

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Se no cinema enxergamos muitos documentários biográficos, que contam a vida de pessoas comuns ou celebridade, ou ainda, temos cinema narrativo biográfico que está em ascensão com filmes como as cinebiografias de Elton John e Freddie Mercury, nos quadrinhos temos o fenômeno das produções autobiográficas. Esse tipo de produção seria muito difícil acontecer nos cinemas. Isso porque o molde de produção do cinema envolve uma a participação de no mínimo centenas de pessoas. Já um quadrinho pode ser escrito, desenhado, letreirado, colorido, editado por apenas um único indivíduo. Assim que o fenômeno da autobiografia com imagens e textos é único dos quadrinhos. Estas características já o diferenciariam do quadrinho documentário. Mas tem mais.

No quadrinho autobiográfico, que é o caso de Persépolis, de Marjane Satrapi, de Retalhos, de Craig Thompson, de MAUS, de Art Spiegelman e tantos outros, se confundem três figuras: a do autor, a do narrador e a do personagem. Em um quadrinho documentário temos bem definido que quem conta a história não é o personagem, bem como que quem produz a história não está presente nela. 

Nina Mickwitz acaba denominando de “documentary comics”, ou ainda, “quadrinhos documentais”, todos os quadrinhos que se aproximam da técnica audiovisual do documentário, ou seja, que lidam com aspectos do real. Nesse caso, encontram-se aí quadrinhos autobiográficos, biográficos, quadrinhos jornalísticos, quadrinhos históricos, quadrinhos de memória. Dentro dessa classificação e dessa forma de enxergar esse tipo de quadrinhos, a autora propõe também analisá-los sob esta ótica, usando ferramentas da análise e produção de documentários audiovisuais para analisar esse escopo da arte sequencial. Assim, Mickwitz pensa quadrinhos como Notas em Gaza, Persépolis, Epiléptico, O Fotógrafo, A Guerra de Alan, AD New Orleans: After The Deluge, American Splendor, entre outros quadrinhos para corroborar suas hipóteses e teorias. 

Dessa forma, sim, os quadrinhos documentais envolveriam as autobiografias, pois, como disse antes envolvem pesquisa e a questão do uso de documentos de arquivo como fonte. Por outro lado, não podemos classificá-los como quadrinhos documentários porque eles não possuem o cunho de linguagem jornalística, mas confessional, e que portanto se aproximam mais da escrita memorial do que da redação de fatos reais. E é aqui que o assunto começa a ficar mais profundo.

Como sabemos se nossas memórias são reais ou não são? O quanto delas foi invadido com nossas percepções do presente ou até mesmo de percepções de outras pessoas sobre aquilo que sentimos ou passamos há muito tempo atrás? Nossas memórias não são estanques, elas se modificam o tempo todo. Elas não funcionam como uma linha do tempo, mas como uma cadeia rizomática, que cada vez vai criando mais ramificações subterrâneas no nosso plano mental. Se a memória autobiográfica se faz de uso de sensações, intensidades, contação e recontação da mesma história por diferentes prismas, a linguagem jornalística tem de ser factual, tem de ser apoiada em fontes, tem de buscar comprovação de hipóteses e precisa definir conceitos. Como acontece, por exemplo, na graphic novel Cannabis, que começa não falando da lenda da maconha, mas da lenda do cânhamo. 

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Você vai me achar muito Polyanna Moça porque eu não sabia que linho cânhamo e maconha eram a mesma coisa? Agora eu finalmente entendi porque o linho cânhamo causava tanto rebuliço entre as potências mundiais e as Companhias das Índias Ocidentais na Idade Moderna. Por causa dos conhecimentos divididos pelo quadrinho de Box Brown agora eu entendi uma coisa que meus professores de História não tiveram coragem de explicar. Da mesma forma que fui entender o ópio e a relação com os cultivos de papoulas ao ler Do Inferno e As Aventuras da Liga Extraordinária, ambos escritos por Alan Moore e desenhados, respectivamente, por Eddie Campbell e Kevin O’Neill. 

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O autor, ou diretor, pega um tema e destrincha ele dentro do escopo que se propôs a realizá-lo. Ele não tem uma voz em primeira pessoa que declara o que pensa, apenas vai apresentando fatos. Isso aproxima Cannabis daquilo que chamam de jornalismo em quadrinhos, mas que não é bem isso também. Enxergo esse quadrinho como aquilo que me faz pensar em um documentário quando a ideia é falar desse gênero dentro dos quadrinhos.

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Quando falamos anteriormente sobre a diferenciação entre quadrinhos e literatura chegamos à conclusão de que os quadrinhos eram uma coisa própria e que nada deviam à literatura. Nela também os gêneros são confundidos, alguns deles vivem em um entrelugar de difícil classificação. Assim que podemos estar falando sobre jornalismo em quadrinhos, jornalismo com quadrinhos, quadrinhos com jornalismo, jornalismo sobre quadrinhos e até quadrinhos sobre jornalismo, mas que uma atividade não deve nada à outra. A mera aproximação entre as duas atividades enriquece uma e a outra e amplia seu alcance de leitorado, mas não transforma um tipo de comunicação em outro simplesmente por contê-lo de alguma forma. 

Por isso, podemos até falar que existem quadrinhos documentários, quadrinhos literários ou jornalismo em quadrinhos, mas sem esquecer que cada um desses sistemas possui uma linguagem e elementos próprios que nos fazem interagir com eles de maneiras diferentes e exclusivas de cada formato. Assim, se pensarmos Cannabis como o “quadrinho documentário por excelência”, não estamos negando sua natureza de quadrinhos e nem deixando de levar em conta as ligações com a linguagem documental do audiovisual.

Um dos exercícios que todos nós precisamos fazer no século vinte um é que as coisas e as pessoas não precisam ser conceituadas de forma definitiva e que, para serem o que são, podem absorver muitos e diversos elementos que constituem outras realidades. Afinal, não é assim que funcionam as memórias? E se são as memórias que fazem nossas identidades e as identidades das coisas, porque não trabalhar essa fluidez nos conceitos também? Se tem uma coisa que aprendemos com as histórias, sejam quadrinhos documentários ou autobiográficos, jornalismo ou literatura, é que elas nos transformam e que nós nos deixamos transformar por elas. E aí, inspirados pela Cannabis, podemos nos perguntar: o quanto do que é real é transformado sob o nosso olhar? O quanto do real é do poder do jornalismo e o quanto é da memória? E, afinal, ao falarmos num espaço de literatura, o que é realmente o real?

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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