Atena Beauvoir: N-1, por favor, publique a edição econômica de “Corpos que Importam”!

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Pode parecer anedota, mas é realismo da práxis de que livros não são tão baratos quanto poderiam ser. Existe uma lógica necessária ao consumo de literatura teórica ou existencial (prefiro esse termo a “ficção e não-ficção”) e cada vez mais, há um esforço da comercialização de livros estar sempre à cata de novas vendas, pois caso contrário, como sobrevivem as editoras e livrarias?! 

Semana passada me encontrei com uma amiga muito querida, aposentada, trabalhou como psicóloga pelo SUS e me atendeu desde antes de minha transição de gênero, lá por 2014. E em pleno mês de fevereiro de 2020, sentada na Livraria Baleia, em Porto Alegre, me aguardava para tomarmos um café e dialogarmos sobre livros. Ao chegar, ela segurava nas mãos, o que poderia ser o tal livro sagrado – a Bíblia, mas era a publicação da mais recente obra da Judith Butler, Corpos que Importam: Os limites discursivos do “sexo”. O custo? R$ 98. Mas o valor da obra, eu já havia sondado e fiquei realmente muito triste. Nada fortemente triste, mas triste. De onde eu tiraria R$ 100 para pagar por um único livro? Calculei minhas necessidades em casa e descobri que esse mesmo valor era da minha cesta de alimentos semanal. Tentei organizar de comer miojos ao meio dia e tomar somente café passado pela manhã e café solúvel pela tarde. Igualmente tentar articular menores pedaços de proteína animal na noite e, assim, teria o valor aproximado de R$ 80 economizados. 

Mas sinceramente, passar por essa experiência reflexiva começou a fazer com que eu encarasse o título de maneira mais séria. Os corpos que importam eram os que poderiam comprar um livro que custasse R$ 98. Eu me classifico economicamente enquanto pobre. A pobreza aí é relativa a contar o dinheiro para suas necessidades básicas (transporte, alimentação, higiene, vestimentas, moradia e lazer). Se você não necessita calcular o seu dinheiro de maneira a precisar o valor sem se surpreender de suas necessidades básicas, ok, rico pode você não ser, mas igualmente pobre não o é. 

De maneira maliciosa, com olhar atento, já havia comentado com minha amiga que eu iria negociar alguma transa pelo valor de R$ 100 e compraria o livro. Há tempos que não agia enquanto profissional do sexo, o que fiz por alguns meses no meu primeiro ano de transição (2016). Mas já sendo escritora, com quatro livros publicados, três deles pela minha própria editora e sabedora de todo apoio social que eu sempre recebo de quem conhece meu trabalho, eu voltaria para o espaço que mais agride a existencialidade de mulheres transexuais e travestis? E se você vier dizer que o mesmo acontece com pessoas cisgêneras ou que eu estou moralizando a prostituição, ou você age na desonestidade intelectual (e ter amizades de pessoas trans não lhe autoriza a teorizar sobre a nossa existência, então cale-se!) ou você tem um belo de um recalque baseado numa inveja e num nariz cheio de pó de cocaína. A prostituição não deve ser criminalizada, mas as existências transexuais e travestis não devem ser unicamente destinadas a essa área profissional. Crime é esse destino único. É mais complexo que isso, mas seguimos. Podem me convidar para um café e dialogarmos a respeito. Mas culpa eu não carrego do que vivo, penso e sinto. 

Nanni Rios acaba participando neste momento do diálogo com minha amiga, troca de ideias e análises a respeito da literatura em Porto Alegre, quando vejo a hora e preciso ir pegar os óculos que havia comprado mais cedo, pois os meus haviam se quebrado na semana anterior. Detalhe que paguei a armação e a consulta do oftalmo por R$ 290. As lentes foram de cortesia, depois de uma longa explicação da necessidade de eu usar óculos para minha vida profissional. Tenho astigmatismo e miopia e na tarde anterior havia lecionado aula sobre poesia e filosofia para jovens, após uma palestra nas escadarias da avenida Borges de Medeiros sobre arte resistência trans e a noite a segunda edição do evento mensal Visibilidade T no Workroom, onde recebemos várias pessoas trans da cidade para entrevistas no palco. Tudo sem óculos. Vendi meus últimos seis exemplares de livro e consegui o dinheiro para comprar os óculos. Como ler e escrever sem óculos?!

Mas e o livro?! Recebi de presente da minha amiga. Ela que havia ido em dois lançamentos de livros meus. Que volte e meia me enviava textos e reflexões sobre vários assuntos. Ela que me conheceu antes de ser eu mesma. Inclusive há no livro Contos Transantropológicos, o de capa azul, um texto sobre a época de minha terapia com ela, o conto é Psicotransantropologia. Que lindeza de aprendizagem, já diria Paulo Freire. Ou não! Então eu digo, que lindeza!

Fui até a Cidade Baixa, já com meus óculos novos e meu livro em mãos e pensava: “as pessoas devem se perguntar o que faz essa travesti com a Bíblia?”. Eu merecia uma comemoração e catei moedas na minha pochete rosa brilhante. Cinco contos e comprei um  corote de pêssego. Sentada na Tabacaria dos Guri, bebendo, abri o livro e com os fones de ouvido, me afundei na obra. Diferente de Problemas de gênero, que é um livro muito importante, mas chato demais pela escrita obtusa e a fonte impressa cansativa naquela estrutura que me lembrava que os problemas de gênero começavam na forma escrita e estrutural de um academicismo masculino. Corpos que importam é uma proposta de referenciar o conceito de “performatividade” mas carrega uma estrutura de pesquisa inversa a escrita do livro anterior. Eu estava tendo tesão na leitura!

Por isso, humildemente aconselho, que a editora n-1 publique a mesma obra de forma mais econômica. Sem perder o brilho da criatividade e imaginação na materialização da obra, mas que pensem que talvez, boa parte das pessoas que carregam os mesmos ideais editoriais e literários, não tenham uma amiga ex-psicóloga para presentear com uma obra de quase R$ 100 e que talvez não consigam juntar real por real até a compra do livro, pois os corpos que importam precisam se alimentar, morar e viver, mesmo que sabendo que para muitos, não importam. Os corpos da pobreza também importam para a literatura, cultura e filosofia. Ainda que muitas vezes quem produz a literatura, cultura e filosofia em destaque não se importem com os corpos da pobreza.

Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.
Foto: Diego Lopes/CRL

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