Maiara Alvarez: Treze marcas

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Eu sou daquelas, daquelas malucas que não escreve nos livros. Nos meus próprios livros, nos livros que estão na minha estante. Até por eu não achar que os meus livros são meus. Eu cuido deles com muito carinho, com muito amor, com muito zelo, para doar e emprestar com uma rapidez de fazer inveja aos adeptos da moda do desapego. Quer um livro que tá na minha estante? É só pedir. Eu vou adorar que mais alguém possa ler sobre o que eu gostei, e, de quebra, terei mais uma pessoa para conversar sobre.

Conversar sobre é uma das etapas de consumo de um livro. Uma das etapas de apropriação, de transformação, de estabelecimento de uma cultura, de entendimento, de compreensão, de leitura, afinal. Entre os procedimentos práticos de leitura, algumas pessoas escrevem nos seus livros e tá tudo ótimo, sem ironias. Eu, no caso, sou praticante das notas autoadesivas e dos marcadores também. Sempre que encontro algo que quero voltar a ler ou acessar posteriormente, grudo uma folhinha meio transparente e colorida (sim, eu tento combinar ela com as cores do livro, me julguem) que me diz, apenas ao jogar os olhos por cima: há algo que me marcou profundamente naquele livro. Ou é algo que quero lembrar, ou algo que quero contar a alguém, ou algo que talvez seja interessante para o meu trabalho. Na sua maioria, são passagens favoritas. E, como você viu pela mania de combinar cores, eu sou uma pessoa exigente.

Então, o livro escrito pela Lilian Rocha, intitulado Menina de Tranças, tem cerca de cem páginas, preenchidas com mais de cinquenta poemas. Destes, treze levam folhinhas roxinhas (para combinar com as cores da capa, óbvio) que marcam os poemas que mais me marcaram. Fica bem lindinho, cada marcador, um abaixo do outro, ocupam toda a extensão da lombada. São treze favoritos, fora que eu gostei de todo o livro, e muito. Poemas que me tiraram do chão, do rumo, do sono, que apertaram o meu coração, que me deram estabilidade, caminho e paz. Que deram história.

[…]
a liberdade
tão sonhada
ficou na lembrança
da lança
manchada de sangue
na terra
farroupilha.

A escrita de um poema que ecoa é, em geral, composta por algum ou mais desses requisitos: ser universal, ser social, ser atual, ser metalinguístico, ser inovador, ser honesto, ser devaneio, ser político, ser coeso e coerente, não ser coeso e coerente, ser revelador… a lista poderia seguir por algumas resenhas mais (talvez siga, quem sabe). Lilian abarca e reinventa essa lista e ainda por cima domina pontuação e sintaxe e faz belas rimas internas.

[…]
a colheita é fruto
do nosso olhar
diferenciado e qualificado
nos processos
de criação
e desenvolvimento
de nossas ações.

E a cereja do bolo: você já (ou)viu Lilian declamar? O domínio e destino interpretativo da escritora sobre seu poema podem se revelar por uma leitura em voz alta. Lilian faz mais que isso: adiciona notas de semântica que não estavam no texto original sem mudar uma só vírgula do que está no papel. E, acredite, o que está no papel já é absoluto e competente. Te convido a pegar o livro da estante: o seu, o meu, o que está na livraria, o que está na biblioteca, e consumir esse livro todinho comigo. Que tal nos encontrarmos no próximo sarau?

[…]
poesia pura
do meu inconsciente
a prosa que me perdoe
sou poeta
felizmente.

Lilian Rocha é escritora e poeta, autora dos livros A Vida Pulsa – Poesias e Reflexões (Alternativa, 2013), Negra Soul (Alternativa, 2016) e do livro em questão nesta resenha: Menina de Tranças (Taverna, 2018), além de coautora do livro Leli da Silva – Memórias: Importância da História Oral (Alternativa, 2018) e coorganizadora da antologia Sopapo Poético – Pretessência (Libretos, 2016), assim como membro do Sarau Sopapo Poético. Ocupa a cadeira 49 da Academia de Letras do Brasil – Seccional RS, Patronesse Carolina Maria de Jesus.

Menina de Tranças
Lilian Rocha
93 p.
12,5 x 18 cm
978-85-9426-504-3
R$ 30,00
Editora Taverna

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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