Quadro Amarelo: A literatura para além da literatura

Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Jéferson Assumção*

Publicado originalmente no site da Quadro Amarelo – Plataforma de Escrita Criativa em 23 de março de 2020.

Saber como as histórias e as personagens são criadas é um conhecimento próprio da literatura, mas que interessa a muitas outras artes e áreas. Aprender a criar grandes personagens, diálogos realistas, descrições únicas, saber qual a visão do mundo por trás de uma estrutura, como se narra e se trabalha a linguagem, tudo isso ensina – a quem lê e escreve – não só literatura, mas também filosofia, psicologia, comunicação, antropologia, sociologia etc.

Ocorre que não são apenas os escritores ou leitores de ficção que aprendem sobre esses campos (e muitos outros). Esses próprios campos ampliam, via literatura, seus conhecimentos dos costumes, da história, da linguagem, comportamentos, da diversidade cultural etc. Para melhor aproveitar o poder de qualificação que a escrita de histórias tem das outras áreas é preciso ver a literatura para além da literatura: como uma escrita criativa, cujos conhecimentos se aplicam a inúmeros outros campos.

Muitas vezes não é isso o que acontece na escola (e na sociedade como um todo) e a literatura é apresentada a estudantes sonolentos como um distante mundo apartado da realidade, ensimesmado numa ideia de arte que não se comunica seja com o sistema literário (autor-obra-público), seja com uma ideia de arte apartada da cultura. Como se arte fizesse parte da apenas da civilização racional-instrumental e sem contato com o mundo vital ao seu redor, sempre contraditório e diverso. Como parte da cultura e não só da arte, a literatura ganha se vista como estética em seus rebatimentos sociais e econômicos. A cultura em três dimensões: economia, cidadania e arte.

Sem ser vista desta maneira, a literatura pode se encerrar num campo estético, sem contato com os costumes, muitas vezes caindo num beletrismo infértil, cartorial e autocentrado, sem nutrir a si nem a ninguém. Pior que isso, como ornamento ou ostentada distinção, muitas vezes pode envelhecer na comparação com outras artes narrativas (cinema, quadrinhos, teatro etc).

Antes de tudo, faz bem para a literatura sair de uma ideia de arte sem contato com o econômico e o social. Faz bem para a sociedade ter contato maior com os conhecimentos específicos desta arte já multimilenar. Por isso tudo o caminho da Escrita Criativa pode ser interessante, pros dois lados: literatura e sociedade.

Desenvolver a Escrita Criativa é bom para a educação, para a comunicação e o mundo cultural, social e econômico diverso em que vivemos. Principalmente numa época de intensa transformação tecnológica, em que a própria escrita-leitura é afetada e muitas vezes vista como ultrapassada, essas questões são muito importantes.

Pra ajudar na conversa, a plataforma “Quadro Amarelo – Escrita para pessoas criativas” elaborou o seguinte artigo, com 10 perguntas e respostas sobre a importância social e econômica da Escrita Criativa. A ideia é colaborar para a posicionar mais centralmente a produção de narrativas em nosso país, para além da ideia tradicional de literatura e criação literária, às vezes isoladas numa certa ideia de arte, cujo sistema há muito vem se transformando (sobre isso escrevemos no artigo “Escrita Criativa: a literatura na época da sua infinita reprodutibilidade técnica”, in Por um Brasil Criativo – Ana Flávia Machado e Cláudia Leitão org. BDMG Cultural, 2016). Vamos lá?

1. O que é Escrita Criativa?

A Escrita Criativa é a escrita que molda, que inventa, que não é apenas uma transmissão de saber, mas uma moldagem da estrutura e da linguagem do que se fala ou se escreve. Não é uma escrita que apenas informa, mas aquela que, além disso, traz “forma” junto do conteúdo, ou, se se quiser um trocadilho, transforma o que diz e escreve. Portanto não apenas diz ou comunica a realidade, mas molda, modifica, cria com palavras.

Escrita Criativa é a literatura em sua dimensão técnica e criativa com rebatimentos, relações e aplicações em diversas outras artes e ofícios artístico-culturais, na cultura em geral e na comunicação. Tem sua base em teorias críticas da literatura e em uma série de documentos de diversos escritores sobre seus processos de criação. Seu foco volta-se, porém não exclusivamente, à criação literária e seus fundamentos estéticos, às relações entre literatura e outras mídias e produção de roteiros de cinema, teatro, quadrinhos, cinema etc.

2. Se eu não sou escritor, cineasta, roteirista de quadrinhos e teatro, como me beneficio da Escrita Criativa?

Ser capaz de dominar narrativas em muitos contextos de aplicação é de enorme importância, uma vez que as indústrias culturais vêm se desenvolvendo de maneira menos concentrada e concentradora e multiplicando suas oportunidades, principalmente para aqueles que sabem escrever, imaginar e colocar suas ideias tanto no papel quanto nas telas do cinema, da televisão, do computador, do tablet, do celular. Então, a Escrita Criativa parte da literatura, mas sua aplicação está para muito além dela.

3. Então, a Escrita Criativa não é só literatura?

Não! Ainda mais na nossa época, de tanta convergência tecnológica. O específico da literatura é saber como as narrativas são feitas, mas as narrativas estão em tudo: na história, na política, na psicologia, na comunicação, no marketing, na tradição, nas rupturas, na vida econômica e mesmo individual, à medida que as pessoas e nações se narram de um jeito e não de outro.

4. O que a Escrita Criativa tem a ver com a tecnologia?

Se pensarmos que a própria escrita é uma tecnologia de memória externa humana, tudo! Há quatro mil anos, os seres humanos são os únicos animais capazes de ficar sua memória fora do cérebro e de seus hábitos cotidianos. E isso significa um avanço tecnológico sem igual. O mundo da tecnologia digital de hoje é só o F5 na história da escrita e da leitura, a continuação daquelas primeiras tabuletas de argila, em que os sumérios anotaram seus primeiros rebanhos. A literatura é o cultivo estético dessa história, cujo início se dá ainda antes da própria escrita: nas falas e mesmo nos gestos antes das palavras de quem queria contar um acontecimento, com início, meio e fim.

5. A Escrita Criativa ajuda a fazer cinema e videogame?

O campo da Escrita Criativa tem crescido muito à medida que as tecnologias evoluem e mesclam as plataformas e suportes das diferentes artes. A qualidade do cinema, dos quadrinhos, da música e do videogame depende da qualidade de sua literatura. O escritor é fundamental para um bom quadrinho, um bom game, uma boa música, um bom teatro etc, mas também para boas campanhas de comunicação e marketing etc. O mergulho ou a densidade dessas áreas dependem muitas vezes de qualidades narrativas. O entretenimento de atenção, com maior densidade e qualidade, pode significar uma potencialização dessas linguagens e uma maior qualidade em termos culturais, estéticos, criativos e comerciais.

6. A Escrita Criativa tem importância econômica?

Um grande diferencial para se inserir na chamada nova economia é escrever bem e criar narrativas novas e arejadoras e esta é sabidamente uma das deficiências de nosso sistema educacional. A Escrita Criativa é parte da Economia Criativa. Se pensarmos juntos com Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, em “A estetização do mundo – viver na era do capitalismo artista”, o mundo econômico atual tem dois grandes protagonistas, o designer no espaço, que faz desde uma caneta até um edifício, e o escritor-roteirista, que é o designer no tempo. Escrever é desenhar no tempo.

7. Então, há uma Economia da Escrita Criativa?

Sim! Se a base da indústria cultural tradicional foi até o século XIX e boa parte do XX a economia do livro, hoje a base é uma economia da escrita criativa aplicada a outros suportes, a começar pelo cinema. Nessa indústria, o escritor segue central mesmo que a ideia de escritor como aquele que “produz livros” se fragmente para além das fronteiras das páginas impressas e hoje se aplique a essas demais áreas. A literatura não está apenas nos livros e precisa ser vista como parte fundamental de uma economia na era pós-industrial, com seus imensos desafios e oportunidades.

O escritor, o narrador, o contador de histórias no cinema, nos quadrinhos, animações ou videogames tem ocupado o centro de uma potente e diversa indústria cultural, mas também qualificado a comunicação institucional, política e de mercado. Comunicar ideias complexas exige criatividade, técnica e expressão. E é preciso aprendê-las, tanto para o mundo das artes como para o da comunicação em geral.

8. Qual a relação que a escrita criativa tem com a diversidade cultural?

Hoje em dia não apenas é possível atravessar as fronteiras materiais que haviam sido erguidas na era industrial, como também se pode aproveitar o arejamento vindo das periferias e da profundidade da diversidade cultural, também – e muito especialmente – para a narrativa na literatura e outras artes. Principalmente no Brasil, país tão rico do ponto de vista de sua diversidade natural e cultural, cujas histórias ainda estão em sua enorme maioria por serem escritas. O Brasil é lugar propício para se conectar três pontas fundamentais da Escrita Criativa como elemento da Economia Criativa: a literatura, a diversidade cultural e as tecnologias digitais.

9. E quando isso tudo começou?

Desde 1880, universidades dos Estados Unidos oferecem cursos de “creative writing” (escrita criativa), o que tem sido fundamental para gerar uma grande quantidade de escritores e roteiristas de renome internacional. Esses cursos são ministrados nas universidades norte-americanas, mas também nas inglesas, escocesas, australianas e em diversos outros países, como França e Espanha. Nessas universidades, cursos de graduação e pós-graduação, oficinas e workshops têm sido fundamentais para um efeito importante na área da cultura: o escritor, o narrador, o contador de histórias em quadrinhos, animações ou videogamestem ocupado o centro de uma potente e diversa indústria cultural.

10. Tem Escrita Criativa no Brasil?

No Brasil, historicamente os cursos de Letras e Literatura têm se voltado mais para a Teoria Literária e para a Licenciatura do que para a criação ou técnicas literárias. Porém, aos poucos, começam a surgir cursos acadêmicos nessa área. A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), por exemplo, é a primeira do país a ter este tipo de curso em nível de pós-graduação (Mestrado e Doutorado em Letras/Escrita Criativa) e em 2016 abriu seu curso de Graduação Letras/Escrita Criativa, coordenado pelo professor e escritor Assis Brasil.

Esses cursos são pioneiros em escrita criativa em nosso país e nasceram das oficinas de criação literária realizadas por Assis Brasil na PUC-RS há mais 35 anos, o que faz Assis Brasil ser considerado o maior formador de escritores do País. Outra grande referência é o professor e escritor pernambucano Raimundo Carrero. Dentro dessa história, se insere a Quadro Amarelo – Plataforma de Escrita Criativa, com um slogan chamando pra ampliar todo esse debate: Escrita para pessoas criativas.

*Jéferson Assumção é escritor, professor da equipe Quadro Amarelo – Plataforma de Escrita Criativa.

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