Ana Paula Cecato: Essa tal educação a distância

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Um dos motivos pelos quais eu escolhi ser professora é que eu gosto muito de compartilhar e trocar experiências em sala de aula. Não aguento dar aula expositiva. Acho uma chatice – tanto para mim quanto mais para o aluno – eu ficar falando, mostrando vídeo, imagem, e isso não comunicar nada com a experiência de ser e estar no mundo de quem está comigo compartilhando um espaço de aprendizagem.

Por isso, eu sofro muito com a tal educação a distância. Em 2018, comecei a fazer uma especialização EaD e, confesso, não tem sido legal pra mim. Não é por culpa da instituição, dos professores, mas por minha tão grande culpa. Me sinto um bebê desmamado. Sabe quando o professor começa a ler um excerto de um texto e te dá aquele estalo? Ou um colega faz um comentário, outro replica, e a gente tem como ficar debatendo até a hora do café no barzinho? Aquele sono que dá na aula das 7h30min? Aquele poema recitado no meio da aula? (saudades da professora Ana Mello recitando A canção dos tamanquinhos, da Cecília Meireles, nas aulas de Literatura Brasileira). Aquela lista de livros que o professor indica enquanto estudamos um conteúdo? (saudades da professora Elisabete Ourique, de Literatura Portuguesa, e suas listas incríveis.)

NADA disso tem numa aula EaD. Ou melhor: até pode ter, mas tudo estará devidamente programado ou monitorado, de forma a contemplar uma universalidade que não existe no processo educativo. Como não poder olhar os cadernos? Como não ouvir aquela história que revela um pouco daquele aluno e de suas dificuldades? Como não desafiar a turma diante de uma pergunta? Como não saber do que cada aluno gosta, quais são as suas potencialidades?

Porém, fomos surpreendidos com o cenário distópico da pandemia, e o ensino à distância veio como tendência para amenizar as consequências da suspensão das aulas presenciais. Vejo professores ansiosos na produção de materiais didáticos e pais mais ansiosos por tarefas e mais tarefas. A preocupação de ambos é legítima, mas pergunto: precisamos de tantas atividades para ocupar o tempo dos estudantes? Nós, professores, precisamos virar youtubers da noite pro dia?! Os pais precisam perder a paciência com crianças que querem comer um bolo de chocolate e não fazer as cinco páginas de atividades?! Quando retornarmos às aulas presenciais, como serão feitas as avaliações diagnósticas desse período?

Muitas são as perguntas, e cabe a todos os segmentos das comunidades escolares a reflexão sobre o tema do ensino a distância. Todavia, assim como (espero) que preferimos ouvir os especialistas da saúde a ouvir os negacionistas de plantão, o protagonismo da discussão deve ser de quem está em sala de aula, sabe como funcionam os processos de ensino-aprendizagem e também conhece os flagelos sociais oriundos da profunda desigualdade que se expõem em sala de aula. Torço para que não caiamos nas mãos dos oportunistas que vendem soluções fáceis para problemas complexos. Torço para que saiamos logo dessa, e voltemos de corpo inteiro para nossas escolas, a fim de compartilharmos, contarmos e ressignificarmos o que queremos aprender e ensinar.

OBS: Para quem deseja ler uma análise minuciosa sobre o ensino a distância, recomendo a leitura do texto da professora estadual Maria Fernanda Viegas, “Devemos evitar a expansão do vírus da EAD?” disponível neste link.

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura. Foi jurada do prêmio Jabuti de 2019, na categoria Fomento à Leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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