Filipe Smidt Nunes: Além da máscara

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Nestes tempos estranhos, em que nos familiarizamos com termos como quarentena, isolamento e distanciamento social, nos habituamos à ausência de contato físico e redefinimos prioridades, há no ar algo não tão inédito assim. A ser confirmada a forte suspeita da origem animal do novo coronavírus (COVID-19), a pandemia se une às várias doenças transmitidas aos seres humanos em razão do contato com outras espécies, como HIV-1, a doença da vaca louca, as gripes aviária e suína e o Ebola.

Relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), publicado em 2013, concluiu que mais de 70% das doenças surgidas desde a década de 1940 possuem origem animal. Segundo o estudo, a situação preocupa, já que o crescimento da população humana se traduz em aumento de habitação em áreas antes selvagens, levando, também, à dependência cada vez maior em animais para alimentação. Pesquisas recentes nos alertam sobre as práticas de criação de animais para consumo e a possibilidade de geração de outros vírus mais graves, no futuro.

A necessidade de animais para alimentação, por outro lado, é bastante questionável. Basta ver a quantidade cada vez maior de pessoas que seguem dieta baseada em plantas com estilo de vida saudável, aliada ao aumento exponencial de estudos científicos apontando a mesma direção. Trata-se de alternativa viável e até mesmo incentivada, considerando aspectos ambientais, éticos e de saúde. Inclusive, o novo Guia Alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos, do Ministério da Saúde, trouxe recomendações específicas para crianças vegetarianas e veganas, mostrando a viabilidade desta alimentação em todas as fases da vida, seguindo o reconhecimento de diversas outras entidades científicas e governamentais ao redor do globo.

A literatura, questionadora como deve ser, não ficou alheia ao tratamento dos animais não humanos pelo homem. A perspectiva animal relacionada ao convívio humano, hoje chamada de zooliteratura, campo maior da zoopoética, é objeto constante em todos os gêneros literários em diversas épocas distintas. No Brasil, Carolina Maria de Jesus refletiu, em O Quarto de Despejo, sobre a desventura da vaca, a escrava do homem, que em vida o dá dinheiro e morta o enriquece. Graciliano Ramos, no seu Vidas Secas, descreveu como Fabiano e sinha Vitória se entristecem com o destino da cachorra Baleia, e João Guimarães Rosa relatou, em As margens da alegria o sofrer de um menino com a morte de um peru. O conto Uma Galinha, de Clarice Lispector, narra a história de uma ave fujona que escapa da panela e passa a viver com a família enquanto dura a piedade temporária dos humanos.

Além das nossas fronteiras, Isaac Bashevis Singer escreveu o conto O abatedor, trazendo reflexões profundas sobre a prática de matar animais para consumo humano. Até mesmo Hemingway refletiu sobre o tema, em O Velho e o Mar, quando o pescador questiona se não foi pecado matar o enorme peixe, além da tristeza na cena em que a fêmea de um casal de peixe-espada é capturada, ficando o macho em luto por muito tempo ao lado do barco. Sem falar em J. M. Coetzee, no notável A Vida dos Animais.

Todos esses textos indicam a necessidade de repensarmos como tratamos e até mesmo definimos os outros animais. Juan Ramón Jiménez, em capítulo memorável de Platero e eu, zomba da descrição encontrada no dicionário sobre o asno, em razão da bondade, nobreza e perspicácia de seu amigo burro, cuja definição correta seria “um conto de primavera”.

Vacas, cachorros, galinhas, perus, peixes e burros. Todos os outros. O convívio humano com animais já deveria ter levado a transformações profundas no modo como tratamos as outras espécies. Não há, por outro lado, significativa melhora e, em critérios quantitativos, pode-se dizer que a situação tem se agravado, mesmo com a ciência encorajando mudanças nesse sentido.

Em julho de 2012, foi anunciada a Declaração de Cambridge sobre a Consciência Animal, documento científico que reconhece aos animais não humanos a existência de substratos neurológicos geradores de estado de consciência, capazes de exibir comportamentos intencionais. Em outras palavras, confirma serem dotados da capacidade de sentir, além de determinar suas ações intencionalmente.

Talvez a arte, muitas vezes a frente do seu tempo, nos aponte um caminho mais empático. Ainda que os cientistas em 2012 tenham reconhecido aos animais não humanos o estado de consciência, um escritor, em abril de 1894, já havia feito descoberta semelhante. Nessa data, Machado de Assis publicou na Gazeta de Notícias uma crônica chamada Ideias de Burro. Machado conta ter encontrado um burro deitado, resignado, no final da vida. O escritor se surpreende, pois, ao observar o animal, lhe parece que o burro fazia exame de consciência, em trabalho interior e profundo. Machado de Assis, 118 anos antes da declaração em Cambridge, percebeu e publicou sobre o exame de consciência animal. A escolha da palavra exame em vez de estado impediu Machado de antecipar em mais de um século a declaração científica.

Quem sabe os cientistas de Cambridge tenham se inspirado na crônica do escritor brasileiro. Além de recomendar o tema aos estudiosos, Machado de Assis questiona ao final: “Por que não se investigará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem, e da formiga também, coletivamente falando, isto é, que as suas instituições políticas são superiores às nossas, mais racionais”. Também questiono por que não se reconhecerá de imediato aos animais não humanos o que, no íntimo, sabemos ser seu de direito? O que ainda falta ao ser humano para o respeito às outras espécies, sem desconsiderações?

Não importa discussão individual sobre os hábitos de cada um desses autores, a fim de validar ou não as reflexões trazidas em seus escritos. Como bem traz J. M. Coetzee: “os escritores nos ensinam mais do que sabem”.

A ciência e a arte mostram a necessidade de mudanças imediatas na relação humano-animal, sob pena desse momento angustiante não se findar tão logo e, inclusive, se agravar. A natureza dos animais descrita na literatura nos revela não ser apenas a máscara e as rotinas de higiene que precisam ser revistas, mas também o prato e o respeito a todas as espécies que convivem conosco neste planeta.

Filipe Smidt Nunes nasceu em 1990, na cidade de Porto Alegre. Graduou-se em Direito pela PUCRS. Formou-se no Curso Livre de Formação de Escritores da Metamorfose e frequentou o Grupo de Criação Literária, mediado pela escritora Ana Mello. Publicou o livro individual “Histórias não contadas nos almoços de domingo”, além de participações em antologias. Participou de Saraus e de Feiras do Livro pelo Estado do Rio Grande do Sul. Mediou o evento “Do que escrevemos quando escrevemos sobre animais” na 65ª Feira do Livro de Porto Alegre, com a participação das escritoras Ana Mello e Sinara Foss, o escritor Luiz Maurício Azevedo e a advogada Bianca Pazzini, produzido pelo Literatura RS.

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