Folhetim LRS: Dois nós, Carolina Panta (parte dois)

Arte: Giovani Urio

1994

Esse foi um ano otimista para os jornais. As manchetes, mesmo após a comoção nacional pela morte do piloto de Fórmula 1 ídolo da nação, pregavam uma sensação de completude. A seleção de futebol, campeã do mundo após anos. É tetra, diziam. A crise econômica parecia dar sinais de entrega com a segunda mudança da moeda em dois anos. Contudo, no Brasil profundo, a situação era outra. Enquanto as elites empresárias atualizavam seus equipamentos eletrônicos, os elos da cadeia produtiva social arrebentavam-se em seus pontos mais fracos.

A classe trabalhadora vivia num arroz com feijão, muitas vezes sem carne, enquanto os heróis do tetra superlotavam seu avião de retorno dos USA com 15 toneladas a mais de bagagem que o permitido. No outro lado da cidade, a catadora de lixo Leonildes Cruz Soares, 65, afirmou ter comido um seio humano. Tinha fome. Um seio. Comi, sim. Eu e meu filho, Adilson. Achamos no lixo do Hospital de Clínicas. 

Naquele julho, estampava a manchete do jornal a educação no Brasil. A pior educação do mundo. A última do ranking com apenas 39% dos indivíduos com idade escolar frequentando, de fato, uma escola. Mais abaixo, ainda na primeira capa, anunciava-se a crescente aprovação da nova moeda mesmo entre os eleitores do candidato de oposição.

O dinheiro mudou nas mãos do povo. A fauna brasileira estampava papéis recém trocados no banco. Foram-se os cruzeiros reais e suas figuras regionais, ficaram as coloridas onças e araras. Entre os animais, somente uma pequena parcela da população poderia possuir a rara garoupa azul. Era o Plano Real. Mudaram as notas, mas, em 1994, 15,4% do total da população infantil no país, quase 2,5 milhões de crianças, estavam desnutridas. Na barriga nem pão nem leite. O inchaço era mesmo provocado pelas tênias.

As grades do apartamento foram abertas. Três cadeados defendiam a porta dia e noite. A criança de sardas correu pelo corredor enquanto a mãe rearranjava os salvaguardas do pouco de valioso da residência. Entrelaçaram as mãos e desceram os dois andares.

A alguns metros, o mundo. Um firmamento apressado pelo ritmo constante dos passos. Por todo lado, pernas. Braços a se tocar. Mãos cheias de folhetos oferecendo cortes de cabelo ou compra de ouro.

O calçadão da Rua dos Andradas era uma imensidão familiar para a pequena. Ela resvalava entre os adultos absortos em cálculos mentais. Era rebatida por todos os lados, mas não reclamava. Sentia-se como parte pulsante da cidade, imaginava-se como uma formiga em seu dever. Conhecia cada loja de discos, cada comércio de 1,99. Sonhava em trabalhar nas marisas. Gostava dos artistas de rua na Esquina Democrática. Achava graça em como os adultos paravam toda sua movimentação rápida para rir de piadas sobre coisas do interior que ela não entendia, afinal era uma cidadã nascida e criada na capital do Rio Grande do Sul, repetia a mãe sempre.

Subiram algumas ruas e chegaram ao destino proposto. A fachada do prédio parecia ser contínua ao asfalto não fossem os vidros coloridos a la art français a compor os vitrais. Cinza por combustível queimado, a tradicional escola das freiras impunha-se monumental. As torres muradas e as esculturas de nosso senhor jesus gritavam o desespero gótico pelos céus tal qual uma Notre Dame em pedra sabão.

Ao canto da escadaria, a irmã já esperava as recém chegadas. Em frente à virgem com seu bebê, deu boas vindas que deus as abençoe. O que as traria ali? Em um primeiro olhar, a mãe concluiu ter a freira perdido algo de vistoso das mulheres um dia já bonitas. Mas as roupas simples cor caqui e o corte de cabelo curto e justo à testa traziam, naquele momento, o abraço familiar.

Passaram corredores brilhosos cheirando à tacolac e salas de aula com portas decoradas por mensagens de volta às aulas. Dobraram algumas escadas à frente após o pátio central, silencioso àquele horário.

Ao chegar ao destino, a mulher suspirou antes de entrar. Na sala da direção, ficaram apenas a irmã e a mãe. A menina foi deixada em um sofá da sala de espera a balançar os pezinho no ar.

A pequena circundava os olhinhos pela antessala explorando todos os detalhes e os incompreensíveis escritos em latim. Registros do carisma das irmãs em sua semialfabetizada leitura eram construções sintáticas difíceis de realizar. O domínio das sílabas, nos últimos meses, fora compreendido e somente treinado por frases pobres em revistas sensacionalistas.

Seu antigo colégio não lembrava em nada aquele. Ali, não havia rabiscos nas mesas com frases que ela não entendia deixadas pelo turno dos maiores da manhã. Talvez, a futura professora ficasse menos doente e não faltasse tanto. No último dia de aula, tinha prometido levar pipoca, mas não apareceu. Ainda com os olhos vidrados na parede à frente, esforçava-se para reconhecer aquela palavra escrita na cruz. Com o dedinho, acompanhou as letras douradas. INRI. Não sabia o que significava – seu nome não era Jesus? Entediada, fez bolhas com o guspe acumulado ao canto da boca. Gostava de fazer coisas proibidas quando ninguém estava olhando.

Inabalável pela expressão fechada da freira, a mãe prosseguia a destrinchar seu histórico de hematomas e sangue seco. Estavam ali, na capital, há pouco mais de dois anos.

A filha nada lembrava da infância distante. Parara de fazer perguntas quando a mãe a contava outras histórias em que acreditar. Porto Alegre as abrigara em seus verões úmidos e invernos cor de gris.

Não queria caridade. Fez questão de repetir uma, duas vezes. Lavaria, passaria. Lustraria o chão histórico escolar de século XIX caso fosse preciso. O grito era silencioso, mas desesperado. Suas mãos agarradas e trêmulas buscavam por soluções. Era perante a deus e a santíssima virgem que implorava por ajuda.

Por um quarto de hora, a mãe narrou à espectadora o entrelace dos fatos. Contou à interlocutora interessada como conseguira um emprego, mesmo sem os estudos completos, como caixa de supermercado. À noite, seus trinta anos ainda a permitiam trabalhar em bares como garçonete. Afinal, não era velha o suficiente para não mais atrair a clientela.

A freira não soube o que dizer quando atendeu ao telefone três dias antes. Do outro lado da linha, a amiga dos tempos de escola católica, companheira de corridas entre dunas. Demorou a reconhecer a voz. Já não carregava a doçura adolescente a qual guardara como recordação. Era rouca e compassada por pigarros de fumante.

Distante de sua terra natal desde os tempos de noviça, a freira perdera contato com os conterrâneos logo na época da morte de seus pais. Sem ninguém a quem recorrer, a jovem dos ainda cabelos longos ondulados aceitou o convite das irmãs professoras para ingressar na congregação. Logo acabou por sair da cidade e deixar as velhas amigas para trás. Inclusive aquela agora diante a si, a garota bolsista das saias desbotadas.

A tragédia do ano de 1977 fez chorar a pequena cidade litorânea do Rio Grande do Sul e adiou todas as celebrações na igreja naquele mês. Lembrou do convite de casamento rasurado de data riscada. O envelope carmim recebido semanas após a perda. Era daquela mulher.

Juntas, rasgaram as lembranças do passado. Tramaram pela paz infantil. Esqueceriam os tempos antigos pela criança. Mãos apertadas, trato firmado. Era a menina agora aluna do colégio católico. Aprenderia inglês e francês com as primeiras letras. Mergulharia, com os privilegiados de parcela mínima da população, em histórias costuradas de papel. Correria pelo pátio central com o mesmo uniforme colorido de outras meninas. Cantaria os hinos pascais com os olhos cheios de lágrimas pela morte de nosso senhor. Não seria mais uma porcentagem nos rankings de semianalfabetos do país. A mãe não veria mais a filha soluçar pela ausência de uma professora qualquer.

A partir daquela tarde, os pesadelos que faziam a garotinha acordar pela noite seriam deixados para trás em algum lugar de memória. Passariam a figurar seus maus sonhos as gárgulas góticas da torre da escola. A mãe apenas enxugaria seu suor noturno e diria serem os monstros feitos de pedra. Nesses momentos, repetia a si em frases baixas, sussurros, que o passado não as alcançaria mais.

III

A conversa sobre arte tomou proporções ensaísticas no almoço de professores. Egos elevados discutiam sobre o nascimento da inspiração em meio à dificuldade do trabalho cotidiano. Falavam sobre os autores de seus livros de cabeceira, discorriam sobre a admiração que os grandes homens carregavam. Naquele momento, falariam sobre sanduíches ou foguetes para não tocar em morte.

Meu retorno ao trabalho deu-se em meio a sorrisos e tapas no ombro. Eu simulava um está tudo bem e todos retomavam seus afazeres. Aliviados, é verdade, por não precisarem me consolar.

Já em sala de aula, a turma de primeiro semestre, com a qual eu não possuía ligação qualquer, prosseguia suas tarefas após minha introdução. Eu era uma professora substituta, eles não sabiam o ocorrido em minha vida, e não fiz questão alguma de contar. Minha ausência não alterou seus textos a serem lidos nem mesmo a corrida para pegar o ônibus ao final da aula.

Em meio ao silêncio, cheguei em casa naquela noite, abri uma garrafa de vinho e fui selecionar a correspondência. Ainda havia muito por fazer por Eloá. Os bancos prosseguem mandando faturas até que se diga algo. Já ia pela quarta taça de cabernet quando o interfone gritou da cozinha. Meu alô embriagado antecedeu a chegada de Clarice.

Veio preocupada. Havia tentado entrar em contato durante todo o dia. Com a intimidade dos mais de vinte anos de amizade, brigou comigo de forma fraterna. Não era um momento para me isolar do mundo, nem muito menos ficar sem responder às suas mensagens. Talvez minha personalidade um tanto quanto fechada a tenha feito pensar que eu poderia fazer algo contra meu bem-estar ou coisa do tipo. De fato, àquele ponto, eu já me sentia mortificada.

Aceitou uma taça, a bebê estava com o marido. Não bebia há uns dois anos, quando descobrira a gravidez, mas julgou ser necessário voltar a ser uma companhia de copo. Daí por diante desenrolou-se em solilóquio. Fazia perguntas e as respondia sem constrangimentos. Do Oriente Médio aos problemas com o gás central do apartamento, foram abordadas as temáticas mais improváveis para uma visita ocasional às dez e meia da noite de uma quarta-feira.

Eu nem percebi quando ela foi embora. Adormecida no sofá, virei um dos alunos observando-me sentada à mesa em estado liquefeito. Da última cadeira da sala, via um eu a se desfazer conforme meus braços gesticulavam na explicação de trabalho final do semestre. Depois tornei-me Clarice. Não a mãe, mas aquela das tardes de pôr do sol quando adolescíamos. Era aquela das horas desperdiçadas em olhar no fundo dos olhos e rir como um todo. Sorria na época em que éramos nós, em que éramos nossas próprias preocupações. Por fim, estive no almoço entre os colegas de profissão. Não estava mais em silêncio, gritava calabocas a todos. Havia aqueles que batiam as mãos cumprimentando-me pela atitude enquanto, dos colegas professores apenas poderia ler em seus lábios cada louca sibilado. Saí do restaurante da faculdade sentindo os olhares perseguindo-me. Estava satisfeita, afinal se a história dos homens se faz por admiração, a das mulheres, sem dúvida, se faz por ódio.

1997

Em frente ao quadro de giz, ele cria metáforas para agradar seus alunos idosos. Metáforas sobre construções de prédios e tijolos. Sobre solidez e bases fortes. Sobre o cimento colador de futuros. Garante a eles, a partir dessas palavras de abraço, seu tempo. Devolve-lhes os anos amassados pelo suor de seus trabalhos. Motivados a ser jovens, esses novos estudantes velhos balançam as cabeças em concordância. Em meio a logaritmos, o professor de matemática os devolve à juventude.

A vocação anímica daquela mãe para os estudos perdeu-se em meio a panelas e roupas a lavar. Recém dona de casa, deixara o colégio pela tão sonhada casa em favor do sonho de bonecas. Os paninhos bordados abaixo dos vasos de margaridas eram a visão idílica idealizada na infância entre trapos. Vestiu-se ali, na casa ajardinada, com a desejava estampa dos sonhos de criança.

Entre as putas impressas em papéis preto e branco, o cartaz do supletivo atraiu seus olhos pelo caminho. Contrafluxo, retornou os passos. Deixou a correnteza das gentes vibrar à sua volta enquanto lia sílaba a sílaba a proposta do volte a estudar.

A filha já caminhava por idade de questionamentos. Perguntas acadêmicas sobre organismos celulares e figuras de linguagem agora faziam parte do café da manhã. A mãe desconversava de maneira grosseira, ordenando que o leite fosse terminado antes de tanta conversa. Era rude para camuflar a própria ignorância.

Matriculou-se no curso supletivo, frequentou religiosamente cada aula. Os números a atraíam. Essas grandezas eram parte solene dos compromissos dos quais não poderia  fugir. Garantir o troco correto aos clientes do bar em que trabalhava à noite aguçara seus instintos à percepção de quantidades. Com o tempo, solucionou os problemas de porcentagem ao solicitar os merecidos 10% do bom atendimento aos clientes. Aprendeu com a vida operações matemáticas ainda desconhecidas quando passou a ter encontros com alguns homens. Na mesa de um boteco, gostava do fifty-fifty na hora de pagar a conta. Era seu o controle sobre a situação. Decidira, há muito, não depender de mais de ninguém.

Tinha um apreço especial também pelas ciências humanas. Retomava, nos sábados à noite, as ideias dos grandes filósofos. Entre caipirinhas servidas, provocava reflexões à clientela aproveitando as etílicas que pautavam qualquer assunto proposto. Nas mesas, discutia os conteúdos curriculares entre os pedidos. Revoluções com duas pedras de gelo, por favor.

Não importavam os conteúdos, os livros lidos nem mesmo as avaliações. O que o professor fazia em frente ao quadro quando deixava os números de lado valeria por todos os conhecimentos sobre frações ou geometrias. Ele resgatava o único bem realmente pertencente ao sujeito: o tempo.

As aulas ao longo daqueles dois anos e as noites de trabalho lhe devolveram um pouco de seu passado. Ou melhor, todos os 389 dias letivos em 1998 e 1999 lhe fabricaram uma nova memória retirada de si pelas panelas ferventes e pelo choro das meninas.

Sim, eram duas. Divididas. Subtraídas. Uma conta simples que sangraria até a manhã quando seu coração parou de bater.

IV

Quando Fausto me deixou há dois anos, levou consigo os meus poucos CDs e aquele Neruda de que tanto gostava. Ficou até o momento em que seus olhos se tornaram secos e os sorrisos rijos. Fluidos não lhe brotavam mais, drenados pelo amargo do ego de quem não aprendeu a amar.

Foi-se Fausto, nosso apartamento na Rua Fernandes Vieira e as jantas de sábado. Foi-se minha espera à porta quando ele passava dias em viagem. Acabaram-se os carnavais no Rio e os planos para o mochilão pela América Latina.

Não sei por que me conforta pensar nele agora. Admirava seu caráter, seu poder de argumentação e a massa à carbonara dos sábados. Amava com garras o Fausto das narrativas embriagadas em dias de verão. Ele era, para mim, não substantivo próprio carregador de personalidade herdada de família nordestina, mas um inteligível nome comum, rasteiro e concreto. Talvez fosse verbo, e eu, apaixonada por suas ações.

Assistia às palestras de Fausto nas Sociais da federal e a forma como ele invocava o sotaque de Fortaleza quando queria parecer lascivo ao falar sobre as manifestações da população naquele ano. Gostava de reparar, sentada ao fundo, nas universitárias juntando-se a sua volta para apresentar questionamentos improvisados. Ele, então, punha-se a dobrar as mangas da camisa de forma a mostrar os braços morenos pelas corridas na Redenção. Fausto amava a si, e eu, apaixonada por suas ações.

Sentia o gosto do possuir. A satisfação de tê-lo. Fausto foi meu. Agora, dele já não resta muito a não ser a camiseta do Johnny Cash guardada dentro de uma das minhas gavetas de calcinhas.

Devoramos um ao outro ao ponto de nada nos restar. Fomos completos amigos e amantes. Acabamos, pois saímos de nossos papéis. Ultrapassamos os limites da nossa arquetípica figura de casal feliz. Nossos desejos tornaram inconcebíveis o abandono dele na viagem de negócios e a minha traição. Expusemos nossas carnes e, assim como nos entregamos à paixão, não pudemos superar seu fim.

Nem nossas ideias libertárias nem mesmo nossas visões de mundo puderam desembaçar os olhos encharcados dele diante a minhas mentiras. Nem mesmo todo o amor que houvesse pôde me impedir. Afinal, como dizia o poeta da nossa vitrola aos domingos, são demais os perigos dessa vida para quem tem amor.

Já destroçados, em meio ao meu choro ajoelhada na sala do apartamento, ele fumava pela janela. Ficou seco, saiu e não virou para trás. Fomos consumidos os dois. Amamos mais a nós mesmos que um ao outro. Talvez não tenhamos aprendido a conjugar o perdão.

Me desagrada narrar, agora, esse Fausto que não é. Tento completar os espaços em seu rosto já partido no meu pensamento. Penso nos recantos de seu corpo, mas é tarde para reconhecê-los. Ficarão esses entranhados em algum lugar de sonho noturno.

Como terá Fausto tomado consciência da morte de minha mãe? Estaria na cama curando-se de ressaca com uma nova mulher? Teria Fausto chorado a morte de Eloá? Seu único contato foi um e-mail de duas linhas. Dizia ter ficado sabendo, lamentava muito, seja forte. Escreveu o texto para confortar a si. Para deixar claro ter entrado em contato. Cento e quarenta e poucos caracteres mostrando como se importava. Endereçou a mim, mas era ele o real destinatário.

Não teve coragem de me ligar, apresentava mais uma vez sua indiferença. Pobre Fausto, drenado pelo ego de quem não aprendeu a amar. Sem Fausto, sem música na vitrola e sem aquele Neruda que, na verdade, não significava nada para mim.

Agradeço a ele, contudo, os dois últimos anos em que pude viver ao lado de Eloá. Ele acreditou ter me castigado quando me expulsou do nosso apartamento alugado a quatro ou cinco quadras da casa de minha mãe, mas ninguém poderia ter me oferecido um presente como esse. 

Quando fui embora naquele feriado, ele me deu a presença de Eloá. Divididos nossos pertences, voltei a viver com ela. Pude aproveitar as noites à frente da televisão assistindo ao programa de domingo. Devolveu-me o café da manhã tomado com tranquilidade e o cheiro de bolo inundado na casa.

Foi esse intermeio no qual retornei à adolescência perdida o renovador das vivências entre mãe e filha. Eu regressei ao quarto com cheiro de passado da Rua Vasco da Gama, à mesma escrivaninha repleta de livros de pré-vestibular e fotos com Clarice. Ela também retornou ao antigo papel, preocupada com as minhas saídas noturnas de recém solteira ao Ocidente.

Lembro-me muito bem de uma manhã de ressaca. Parada ao lado da cama, minha mãe derramava um sermão sobre abuso de bebida de quinze anos atrás. Não tive coragem de interrompê-la por mais que me fizesse a cabeça latejar. Eu, acomodada entre edredons floridos, aceitava meu papel tomando o chá de boldo trazido ao quarto por Eloá.

Obrigada, Fausto.

< Parte um

Parte três>

Dois nós
Romance
Carolina Panta
135 p.
14 x 21 cm
978-85-53074-52-5
R$ 35
Editora Metamorfose

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