Jean Ícaro: “A psicanálise produziu teorias que entendiam as orientações não-heterossexuais como um desvio”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

O psicoterapeuta porto-alegrense Jean Ícaro é um profissional com um propósito: jogar luzes sobre o obscurantismo e a violência que permeiam muitos consultórios quando recebem pessoas LGBTQI+ em busca de tratamentos psicológicos. Graduado pela PUCRS em Psicologia e especialista em Psicoterapias Cognitivo-comportamentais, Jean conduziu uma pesquisa de Mestrado que identificou números assombrosos. Aproximadamente um em cada três psicoterapeutas, dos 692 entrevistados, se propõe a mudar a orientação sexual de homo/bissexual para heterossexual quando solicitado por um/a paciente e aproximadamente um em cada nove psicoterapeutas possuem atitudes para converter pessoas LGBs mesmo quando não solicitado pelo/a paciente.

“A comunidade cientifica nacional e internacional já trouxe inúmeras evidências de que essas terapias não funcionam para alterar o desejo sexual e romântico. Além disso, elas ferem a dignidade humana e elevam o estresse de ser parte de uma minoria ao considerarem a orientação sexual como a fonte do mal-estar”, explica o pesquisador nesta entrevista exclusiva. Jean e a Editora Taverna lançam o livro Cura Gay, resultado da pesquisa de Mestrado do autor que analisa a realidade dos ataques sofridos por pacientes LGBTQIs nos consultórios brasileiros.

Na conversa abaixo, realizada por e-mail, Jean fala sobre como funcionam as terapias de conversão, perspectivas contemporâneas da psicanálise sobre a diversidade de gêneros e orientações sexuais e muito mais. Boa leitura!

Quais são as técnicas empregadas nas terapias conversivas?
Esse tipo de terapia, nos consultórios de psicologia, utiliza duas intervenções mais comuns. A primeira é o uso de intepretações da suposta origem da orientação sexual do(a) paciente (relacionando com experiências negativas da vida e com teorias sem validade cientifica já produzidas pela medicina e psicologia). Quando o(a) paciente acha que a sua orientação sexual não é natural e espontânea, ele passa a aceitar a segunda fase. Nela, o(a) terapeuta faz a prescrição de comportamentos que ele/ela deva adotar para “concretizar” a mudança; as mais comuns são o recondicionamento masturbatório, o treinamento de habilidades sociais heterossexuais e a prática de relações sexuais com profissionais do sexo do gênero oposto.

As tentativas de conversão representam um perigo psiquiátrico para pacientes identificados como LGBTQI+?
Definitivamente. A comunidade cientifica nacional e internacional já trouxe inúmeras evidências de que essas terapias não funcionam para alterar o desejo sexual e romântico. Além disso, elas ferem a dignidade humana e elevam o estresse de ser parte de uma minoria ao considerarem a orientação sexual como a fonte do mal-estar, em vez da discriminação (que é a verdadeira origem de adoecimento). Por fim, e o mais importante, essas terapias tendem a desenvolver disfunções sexuais graves nos(as) pacientes, além de elevarem os níveis de ansiedade e depressão. Um outro efeito colateral é a alta taxa (e muitas vezes consumada) de tentativas de suicídio.

Como você percebeu a necessidade de transformar em livro esse tema?
Eu fui uma vítima desse tipo de terapia no final da adolescência, sem saber que estava sendo submetido a uma manobra de conversão por parte da terapeuta. Quando ingressei na psicologia, ouvi mais relatos de outras vítimas e percebi um gap gigante de pesquisas que trouxessem dados concretos dessas práticas. Eu queria expor essa realidade que muitos achavam já não existir, sanar dúvidas e estimular a denúncia de outros(as) pacientes.

O que o Conselho Federal de Psicologia (CFP) diz a respeito? E as instituições legislativas?
Não há no Brasil a criminalização das terapias conversivas na esfera legislativa, embora se discutam alguns projetos; no entanto, como uma implicação da criminalização da homo/transfobia, alguns casos até poderiam ser aplicados. O CFP tem duas resoluções que proíbem tais práticas, sob pena de advertência até a perda da licença para atuar. O conselho do Brasil foi o primeiro do mundo a ter uma resolução proibindo tais intervenções, e ele vem atuando fortemente para desestimular essas terapias. Infelizmente, as graduações em psicologia abordam muito pouco o tema da diversidade sexual e de gênero, negando que terapeutas podem fazer uso de suas crenças pessoais e sociais nas suas práticas. Portanto, as medidas do conselho não tem sido efetivas para coibir as terapias conversivas, e o que se nota é um ocultamento cada vez maior.

Reprodução/Editora Taverna

Como as pessoas que suspeitam estar sendo submetidas à conversão sutil podem proceder?
Elas devem imediatamente procurar o conselho regional de psicologia do estado para fazer a denúncia, que tem várias subsedes para cada região. Se o(a) paciente tiver provas (o que muito raramente ocorre), isso deve ser levado. O(a) paciente também pode denunciar um(a) psicólogo(a) para a defensoria pública por tentativa de aplicação da terapia conversiva, para que o caso seja encaminhado para o conselho da região.

O que os defensores da “cura gay” alegam para sustentar suas posições?
Eles(as) costumam advogar sob o principio de liberdade profissional para poderem fazer tentativas de conversão em pacientes que solicitam isso, tentando negar que as práticas determinadas para os(as) profissionais são reguladas pelos órgãos competentes e que estão balisadas por evidências. Eles(as) costumam afirmar que são muito empáticos(as), que tem muita sensibilidade com pessoas da diversidade sexual e de gênero e que só querem as ajudar. No entanto, isso é papo-furado. Eles querem corrigir pessoas desse grupo porque acreditam que elas são inferiores às heterossexuais e para que não tenham que lutar contra a discriminação pessoal e social, que é o que faria uma pessoa não desejar ser gay/lésbica/bissexual. Usam teorias ultrapassadas pra legitimar suas visões, muitas vezes tendo como premissa noções morais religiosas. Além disso, um estudo que produzi junto com outros colegas durante o meu mestrado mostrou que tais terapeutas também se propõem a converter mesmo sem a solicitação do(a) paciente; ou seja, nem o interesse voluntário é considerado – apesar de ser um argumento recorrente.

Qual é o perfil dos terapeutas que se propõem a submeter um paciente à terapia conversiva?
Na pesquisa que produzi com colegas, fruto do meu mestrado, foi constatado que tais profissionais tendem a ser homens, que acreditam que a homo/bissexualidade são patologias, que possuem um alto nível de crença religiosa e que acreditam que as pessoas homo e bissexuais (no fundo) teriam um sentimento de que são inadequados(as) ou incompetentes para terem relações heterossexuais, e por isso seriam assim. Há outros fatores associados em outros estudos como um fator de propensão a agir para converter, que envolvem conservadorismo político do(a) terapeuta e a falta de convivência social (e pessoal) com pessoas da diversidade sexual e de gênero.

Como a psicanálise atualmente compreende a diversidade de orientações sexuais e de identidades de gênero?
A psicanálise foi a abordagem teórica que mais produziu teorias que entendiam as orientações não-heterossexuais como um desvio ou anormalidade psicológica. Por isso, ela foi a mais criticada no processo de retirada dos rótulos psiquiátricos e psicológicos negativos sob essas pessoas. Como consequência, ela vem tentando muito se reinventar nesse tema. Atualmente, ela se propõe a compreender as orientações não-heterossexuais a nível de questões psicológicas subjetivas do(a) paciente, como uma organização psíquica própria. Ela (e nem todos(as) os(as) psicanalistas a praticam) tende atualmente a ter uma compreensão de não se dar o poder de criar quaisquer denominações de valor para pessoas desse grupo, e jamais patologizar.

Cura Gay
Jean Ícaro
13 x 19 cm
R$ 40
Editora Taverna

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Uma resposta para “Jean Ícaro: “A psicanálise produziu teorias que entendiam as orientações não-heterossexuais como um desvio”

  1. Quero comprar o livro Cura Gay do Jean Ícaro. A biologia evolucionista, mal interpretada para obedecer a uma ideologia de discurso sexista também teve uma participação nefasta na questão da hetero-homo afetividade não só na questão do exercício de afeto entre seres humanos mas também entre seres não humanos. Relações afetivas não são exclusividade da espécie humana. Tão pouco relações homo ou hétero afetivas.

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